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Bom, mau, vilão ou herói - ninguém sabe o que achar de Sergio Ramos

O espanhol resolveu a eliminatória do Real Madrid com o Nápoles, na Liga dos Campeões, e voltou a fazer o que costuma - decidir jogos decisivos. Sergio Ramos vai com 82 golos marcados na carreira, 47 com a cabeça, e já é o segundo defesa com mais golos na história do clube espanhol. E está, cada vez mais, a colar-se à reputação de ser um defesa mais conhecido pelos golos que marca do que pelos que evita

Diogo Pombo

Gonzalo Arroyo Moreno

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Imagine que o futebol era um emprego como outro qualquer. Em que uma pessoa, para mudar de ares, tinha de se sujeitar a uma entrevista, para convencer quem manda, tem dinheiro e lhe vai pagar um ordenado. Sergio Ramos entraria na sala, sentar-se-ia na cadeira e entregaria em mão o seu currículo. Quem faz um CV não é nem pode ser parvo e como tal o espanhol colocaria logo após o cabeçalho tudo o que já alcançou como futebolista. E o entrevistador leria algo parecido com isto:

– um Campeonato do Mundo (2010)
– dois Campeonatos da Europa (2008 e 2012)
– duas Ligas dos Campeões (2014 e 2016)
– dois Campeonatos do Mundo de Clubes (2014 e 2016)
– duas Supertaças Europeias (2014 e 2016)
– três Ligas Espanholas (2007, 2008 e 2012)
– duas Taças do Rei (2011 e 2014)
– duas Supertaças de Espanha (2008 e 2012)

Fosse quem fosse, ficaria impressionado com os troféus do tipo musculado, tatuado até mais não, com dentes grandes e cabelo aprumado impecavelmente que tinha à frente. Mais ainda caso continuasse a varrer o CV com os olhos e, mais em baixo, chegasse à parte em que o espanhol resumiria alguns feitos que, como indivíduo, logrou na carreira.

“Nasci perto de Sevilha e, com 19 anos, fui contratado pelo Real Madrid. Já levo 12 épocas lá, sou capitão e, fora o que ganhei, há o que marquei. Vou com 82 golos na carreira, 47 deles vieram da minha cabeça, como os dois que fiz ontem, ao Nápoles. Em Espanha, chamamos-lhe 'cabezazos'. Na área, em jogadas de canto, como na final da Liga dos Campeões, contra o Atlético de Madrid, em 2014, na meia-final que nos levou lá, frente ao Bayern de Munique, fiz o mesmo nas ‘meias’ e na final do Mundial de Clubes, nesse ano. Em 2016, por exemplo, marquei outro no último minuto do jogo contra o Deportivo, que deu a vitória ao Real Madrid e o recorde de mais partidas seguidas sem perder.”

O entrevistador, por certo com os olhos ainda mais arregalados, acenaria em aprovação e dar-lhe-ia os parabéns, porque ter 30 anos, 16 canecos como sénior e 82 golos marcados é material que chegue para muita gente sonhar em tê-lo. Ficaria convencido, só pode, e ainda mais se olhasse para a próxima secção do documento – seis vezes eleito para a equipa ideal do ano da FIFA, uma vez para a do ano da UEFA, e uma Bola de Ouro para melhor jogador do Mundial de Clubes.

Por onde quer que ele olhasse, só podia tirar uma conclusão: é um rico currículo.

Mas à medida que elogiaria Sergio Ramos, dizendo-lhe que estava mais do que contratado e ignorando a vontade de pedir-lhe um autógrafo, o entrevistador repararia num dado que lhe escapou quando leu o cabeçalho. “Posição: defesa”.

É aqui que ele e nós chegamos à parte que não é má, porque o que Ramos já fez no futebol nunca poderá ser mau, mas que é estranha. O que o espanhol fez na terça-feira, frente ao Nápoles, é o que costuma fazer muitas vezes: aparecer a resolver jogos que precisam de ser resolvidos, a maior parte das vezes à cabeçada na bola, a iniciar remontadas, a terminá-las ou a inventar um golo tardio e inesperado que dá uma vitória. E ele ganhou o hábito de fazer isto em partidas que são importantes para o futuro próximo do Real Madrid ou da seleção espanhola – lembram-se do penálti à Panenka, em 2012, contra Portugal, no Europeu?

São golos que dão meias-finais, finais, títulos ou o direito a estar na luta por eles. Sergio Ramos é um jogador de jogos grandes e tem feito por ter essa reputação. O espanhol vai com 82 golos na carreira, 47 feitos de cabeça e 68 marcados no Real Madrid, que fazem dele o segundo defesa mais goleador da história do clube (o primeiro, Fernando Hierro, tem 127). Ele até já marcou dois golos no mesmo jogo em cinco ocasiões.

FILIPPO MONTEFORTE

E, de novo, a palavra-chave aqui é “defesa”.

Porque, hoje, Sergio Ramos é um futebolista mais conhecido pelos golos que marca do que pelos que evita. O espanhol sempre andou entre o ser um defesa muito bom ou um de classe mundial- Não é assim tão raro vê-lo mal posicionado ou a ser surpreendido por uma desmarcação de um adversário. São falhas de concentração de quem é tão atlético, tem tanto talento e poderio físico; a justificação plausível só pode ser o facto de não estar concentrado. Falhas que, mesmo jogando na posição onde joga – mais perto da baliza e em sítios onde há menos tempo, e jogadores da equipa dele – podem ser remendadas por outros.

Tem uma reputação ambígua. É boa. E é má.

Já foi expulso 21 vezes no clube e esse número é um recorde nos merengues. E tem a língua afiada que costuma usar.

Como vimos em janeiro, quando desafiou a claque mais extremista do Sevilha, após marcar um penálti à Panenka no Ramón Sánchez-Pizjuán, estádio do clube que o formou. “Não faltei ao respeito aos adeptos do Sevilha. Pedi desculpa a uma parte, a outra não. O Sevilha será sempre a minha casa, quer me assobiem mais, ou menos. O sevilhismo merece todo o meu respeito, excepto os que se lembram da minha mãe desde o primeiro minuto. No dia em que me enterrarem vão lá estar duas bandeiras: uma do Sevilha, outra do Real Madrid”, desabafou, depois da partida, para justificar o que tinha feito.

Francesco Pecoraro

E ontem, por exemplo, após marcar dois golos ao Nápoles e ao saber que a UEFA considerou o segundo como um auto-golo de Mertens, disse: “Não me lixes, tiraram-me o doblete [bis, em espanhol]? Há uma semana matavam-me, agora, por ter feito dois golos, não vou ser um herói”.

Porque é polémico e, sobretudo, porque é um defesa que ataca melhor do que defende, Sergio Ramos nunca poderá agarrar a coisa que separa os futebolistas das lendas: uma Bola de Ouro.

Só houve um defesa a ganhá-la e Fabio Cannavaro ganhou-a pelo que fez no Mundial de 2006, em que não deixou passar nada, cumprindo o que é suposto num central: defender, fechar espaços, proteger a baliza, desarmar adversários, roubar bolas e não deixar que o seu guarda-redes tenha trabalho.

Sergio Ramos, não. Sergio Ramos é o melhor defesa do mundo a não ser defesa.

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