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Futebol internacional

Afinal, hoje é um dia triste

Foi o próprio a confirmar o que há algum tempo se suspeitava - Xabi Alonso anunciou ao mundo que, no final desta época, vai deixar de jogar futebol. E com ele levará a classe, os passes, a calma a jogar, o ser o facilitador de tudo e uma pitada de classe, porque nunca será de mais referi-la

Diogo Pombo

CHRISTOF STACHE

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Desculpem, mas isto vai ser pessoal.

Havia todos os motivos e mais alguns para estar feliz e contente. Melhor, havia seis. A conta que o Barça fez de golos, ontem, para virar uma eliminatória em que o davam como moribundo e que acabou como uma das histórias mais vivaças de sempre. O futebol é um espetáculo, uma loucura, a droga que põe gente a gritar, a delirar e a perder as estribeiras sem se saber bem porquê. É por histórias como o 6-1 do Barcelona depois do 4-0 do Paris Saint-Germain que se torna mais fácil argumentar sobre a teoria da relatividade de Einstein do que explicar as razões pelas quais gostamos tanto de futebol.

No meu caso, e de muita gente, deduzo, uma delas tem o nome de um tipo que o joga.

Ele chama-se Xabi Alonso e, na manhã seguinte a tanta exaltação do extraordinário, ele foi portador de uma má notícia. O dia que seria para discutir, falar, rir, destacar, partilhar a estupefação e trocar bitaites sobre o que se passara na Liga dos Campeões, passou a ter de dividir atenções com o que este espanhol publicou no Twitter – uma imagem dele, meio de costas, a olhar de esguelha, com ar sério, a mão esquerda erguida a acenar e a direita a segurar um par de botas. “Vivi-o. Amei-o. Adeus, jogo bonito”, é a legenda.

E é uma despedida.

E é curioso o par de botas que ele tem na mão. São umas velhas Adidas Copa Mundial, um modelo que a marca alemã inventou no último suspiro dos anos 80 e que continua a fabricar hoje. São chuteiras que ainda respiram por culpa de jogadores como Xabi Alonso e de pessoas como ele. Simples, discretas, que gostam de tornar as coisas fáceis, descomplicando-as sem dar nas vistas, sem causar alaridos e sem cores fluorescentes nos pés, que não fazem ninguém melhor jogador do que já é. E esta podia ser a definição de Xabi Alonso.

O espanhol sempre foi um dos que deu significado a uma frase de Johan Cruyff, que é quase um cliché - “Jogar futebol é muito simples, mas jogar futebol simples é das coisas mais difíceis que há”. Xabi nunca foi homem de fintas, cuecas, roletas ou de dribles de YouTube.

A vida dele são os passes. Os curtos, longos, na relva, pelo ar, com o peito do pé, a parte de dentro, com pancadas secas ou a cortar a bola. Sempre viveu ao ritmo de um, dois ou três toques de cada vez. A simplificar para deixar outros em posição de complicar.

É como ele disse uma vez: “Não tento fazer coisas que me façam parecer estúpido, devido ao risco. Quantas vezes me viste a correr com a bola para a área, driblando jogadores? É raro, porque não é o meu jogo. Não é a minha cena [It’s not my thing]”. Mas em 18 temporadas nesta vida Xabi nunca disse que é um dos tipos que fazia tudo isto com a qualidade que o distinguia de quase toda a gente – a classe.

Shaun Botterill

Era bonito vê-lo a jogar à bola, a ser um passador no meio de velocistas, de dribladores, de tecnicistas e de cabeças de jogadores e treinadores a quererem fazer tudo rápido. Ainda o é, porque, na melhor das hipóteses, restam 18 jogos ao Bayern de Munique esta época.

É provável que Xabi apareça em todos, caso os alemães cheguem à final da Taça e à decisão da Liga dos Campeões. Ele já se agarrou a duas delas, que são o ponto de ligação para o que vimos ontem a acontecer em Barcelona.

Alonso venceu primeira em 2005, quando fechou a reviravolta do Liverpool na recarga do penálti que falhou, contra o Milan (3-3, vitória nos penáltis). Na segunda, em 2014, saltou da bancada para, de fato e gravata, correr no relvado onde festejou a remontada do Real Madrid (4-1) frente ao Atlético. Caso se despeça com uma terceira, imitará Clarence Seedorf e ganhará a Champions por três clubes diferentes.

Certo é que o fará com estilo. A postura a bater com o pé na bola, os braços no ar, a ponderação que tem em doses iguais no campo e no discurso. Ou, como Javier Aznar o descreveu para a revista Libero: “Pensa as coisas antes de as dizer e usa duas palavras melhor do que três. Não se enrola, nem se repete”.

Xabi Alonso é um tipo com classe, ponto final.

Se quisessem pôr antes uma vírgula, bastava ouvir como ele foge a banalidades comerciais no que ouve, reparar no quadro de Salvador Dalí que tem no ecrã de fundo do telemóvel, ou ver como ele se veste.

Alex Livesey/REMOTE

E ler as coisas que Xabi Alonso diz, que são sempre distintas do que sai da boca da maior parte dos futebolistas: “Não sei se vou ser treinador. Quando me retirar, tenho uma lista de coisas pendentes, que ainda não pude fazer por ser futebolista. Por exemplo, aprender a esquiar. O Jon e a Aye [dois dos filhos] vão aprender antes de mim. Espero que a Emma [a mais nova] não me ultrapasse. Também tenho muitas viagens apetecíveis: gostava de assistir a um leilão de atum na lota de Tóquio ou ir ver o Masters de Augusta. Ou fazer uma rota gastronómica por França, seguindo a seleção durante o Euro2016. E tenho tantos outros países para visitar de verdade, sem as pressas de um futebolista ou a pressão de um jogo, que nos fazem ficar entrincheirados num hotel”.

A vida dele foi essa, a de jogar e viajar e passar a bola – e ganhar. Xabi Alonso é um tipo simples como a forma que tem de jogar e não quis mais do que a Real Sociedad, o Liverpool, o Real Madrid e o Bayern de Munique. Não se refugiou nos EUA, na China ou no Médio Oriente porque, dizem, é um homem mais de mística do que de dinheiro (que também não lhe deverá faltar).

A mística de Xabi está no Mundial, do par de Europeus, das duas Ligas dos Campeões, do Mundial de Clubes, das duas Bundesligas, da La Liga e de outros troféus que se resumem numa frase – ele ganhou praticamente tudo que podia ganhar. Menos a Premier League, a espinha que sempre disse ter-lhe ficado atravessada, desde 2009, quando acabou no segundo lugar com o Liverpool.

E nós ganhámos por vermos jogar tanto, e tão bem, um dos últimos grandes passadores de bola. Pelo menos, eu ganhei.

Eu avisei que isto ia ser pessoal.