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Ele faria 50 anos hoje. Mataram-no por causa de um autogolo

Andrés Escobar era um dos grandes jogadores da Colômbia, mas o erro no Mundial de 1994, nos EUA, motivou o seu assassínio

Evandro Furoni

Romeo Gacad/Getty

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A bola viajou baixinha, vinda da esquerda.

Para evitar que ela chegasse ao avançado dos EUA, o central colombiano atirou para desviá-la com o pé direito – antes mesmo desta atravessar a linha, ele já lamenta o autogolo.

Mal sabia Andrés Escobar, que faria 50 anos nesta segunda-feira, que o erro custaria não só a eliminação da Colômbia do Mundial de 1994, mas também a sua vida.

Futebol e drogas

É difícil separar o futebol e o narcotráfico na Colômbia das décadas de 80 e 90. Enquanto os cartéis lucravam mais do que grandes empresas do país e usavam sequestros como arma política, as equipas colombianas conquistavam a América do Sul, muito por causa do dinheiro do próprio narcotráfico.

Os relvados de onde saíram Valderrama, Asprilla e o próprio Andrés foram construídos, em grande maioria, por outro Escobar: Pablo.

O narcotraficante mais famoso da história investiu de forma pesada nos bairros mais pobres de Medellín, o que fez brotar a grande geração do Atlético Nacional, campeão da Libertadores de 1989 com Andrés – e, supostamente, com dinheiro de Pablo. O América de Cali, vice-campeão da Libertadores três vezes, teria também recebido dinheiro dos cartéis.

De favorita para deceção

Havia muita expectativa sobre a seleção colombiana no Mundial dos EUA. Tinha provavelmente a melhor geração de sua história e goleara a Argentina por 5-0, em Buenos Aires, durante a qualificação. Pelé chegou a colocá-la entre as favoritas ao título – mas toda a gente sabe como acabam os feelings do Rei.

Andrés era um dos líderes daquela equipa. Tinha 27 anos, era famoso por ser um central com mais classe do que força, chamavam-lhe o “Cavaleiro do Futebol” e o AC Milan andava de olho nele.

Mas nada correu bem à Colômbia nos EUA. Apesar de não ter nenhuma potência no seu grupo, a equipa teve de enfrentar a Romênia e os os donos da casa, seleções que acabaram por tornar-se nas duas surpresas do Mundial.

Na estreia contra Hagi, Raducioiu e companhia, ficou 3-1 para os romenos. Na ronda seguinte, os colombianos precisavam vencer para perseguir o sonho de chegar aos oitavos de final, mas o autogolo de Escobar abriu o caminho para a derrota por 2-1 contra os EUA. A única vitória foi contra a Suíça, 2-0, quando nada mais valia.

As expectativas eram altas e os adeptos colombianos não ficaram satisfeitos com o desempenho. Surgiram acusações de falta de empenho por parte dos jogadores e, logo após a derrota contra a Roménia, os jogadores relataram ameaças de apostadores frustrados com o resultado.

2 de julho de 1994

Dias depois do seu regresso à Colômbia, Andrés discutiu num parque de estacionamento com duas pessoas que o ofenderam pelo autogolo. Do nada, apareceu um terceiro homem que descarregou a sua arma no defesa central.

Escobar morreu no dia 2 de julho de 1994, o mesmo dia em que a Suíça, uma das classificadas de seu grupo, enfrentava a Espanha.

Suspeita-se que o assassínio foi motivado por mafias de apostas, frustradas pelo desempenho colombiano nos EUA. Os irmãos David Gallón Henao e Juan Santiago Gallón Henao, os homens que provocaram Andrés, e Humberto Muñoz Castro, o motorista responsável pelos disparos, tinham ligações com o narcotráfico.

Um dia depois da morte do central, o jornal colombiano “El Tiempo” publicou um artigo escrito pelo próprio Andrés Escobar sobre o fracasso no Mundial.

“Um forte abraço à todos e digo que foi uma oportunidade e experiência fenomenal, rara, que jamais senti na minha vida. Até já, porque a vida não termina aqui”, são as últimas linhas do artigo.