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Despedimos mais treinadores do que lá fora? E quantos mais? (só hoje, foram dois)

José Couceiro bem se queixou do mal que é a falta de paciência, e de tempo, para com os treinadores. Em Portugal, esta época, já vimos 13 clubes a trocarem de técnicos. O que é muito, sobretudo se compararmos com as vezes em que a tampa da paciência já saltou aos clubes das principais ligas europeias. Nota: este artigo foi publicado antes dos dois despedimentos de hoje, o de Manuel Machado (Arouca) e o de Jokanovic (Nacional). Portanto, já são 15 trocas

Diogo Pombo e Carlos Esteves

José Couceiro é treinador do Vitória de Setúbal

FRANCISCO LEONG/GETTY

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A paciência, se fosse um bem dos que se vendem a granel e está à mão de colher, teria um preço ao quilo nada simpático.

Se isto fosse possível – e peço-vos que aguentem e se deixem levar pela ideia –, a paciência passaria a estar sujeita às leis do mercado. Da oferta, da procura e tudo mais que rege o mundo do que pode ser comprado e vendido. O que, para nós, pessoas comuns, se resume ao preço que vemos nas coisas e ao julgamento que fazemos delas, que é como as duas faces de uma moeda. Só há um lado barato e outro caro.

E se nós, as pessoas comuns, vivêssemos no e do futebol português, cada grama, quilo ou onça de paciência seria bastante cara. Porque as leis do mercado – mais do que números, cifrões, milhões e euros – resumem-se no que está no meio entre o que é procurado e o que é oferecido. Como a primeira coisa é, há muito tempo, bem maior do que a segunda, a ideia que José Couceiro passou no domingo é largamente mais eficaz do que esta que vos estou a tentar passar: “Há cinco equipas que ainda não mudaram de treinadores. O treinadores estão expostos a um resultado negativo”.

José Couceiro é treinador do Vitória de Setúbal, mas em tempos foi do FC Porto e do Sporting. Ele sabe o que muitos não sabem, que é o estar dos dois lados de outra moeda – dos que ganham muitas vezes e dos que perdem muito. Ele que também já foi dirigente e tentou ser presidente, anda no futebol há anos suficientes para saber que a paciência é pouca e tem tendência a ser cada vez menor.

Quando o técnico falou, sabia que a situação era má, embora desconhecesse que fosse piorar esta segunda-feira. Augusto Inácio saiu do Moreirense e deu ao campeonato a 13.º troca de treinadores esta época. A segunda no clube do Minho, que é igual ao Estoril Praia no facto de serem os únicos que já atestaram a teoria de José Couceiro duas vezes. “É uma reflexão profunda que se tem de fazer. Há uma desigualdade brutal, que haverá sempre, mas que se tem de encurtar”, acrescentou o homem que manda na equipa de Setúbal.

E tem razão.

Porque, olhando para o que se passa lá fora, os treinadores não fazem e desfazem a mala tantas vezes. Nas ligas espanhola e alemã, só oito clubes já trocaram de treinador esta época, número que encolhe na Ligue 1 francesa (sete), na Premier League inglesa (cinco) e na Série A italiana (cinco). Em Portugal, apenas cinco equipas - Benfica, FC Porto, Sporting, V. Guimarães e V. Setúbal - não trocaram de treinadores, o que mostra como a paciência de quem manda ferve em pouca água, num país onde os clubes têm orçamentos muito mais magros, ganham bem menos dinheiro com bilhética, receitas televisivas e desempenho nas provas do que as cinco maiores ligas da Europa.

A teoria, portanto, é que despedir ou trocar saia mais caro em Portugal, onde os clubes têm menos dinheiro para indemnizações e elas lhe pesem mais nos orçamentos. Em que, como José Couceiro comparou, há diferenças de 1 para 30 entre os grandes e os pequenos. “Estamos a jogar com equipas que têm 30 vezes mais que o nosso orçamento. Não há diferenças destas nas grandes ligas europeias”, defendeu o treinador. Talvez por cá isso seja complicado de medir, pois nem todos os clubes estão cotados em bolsa e, como tal, os seus relatórios e contas não são públicos.

O Palermo, antepenúltimo classificado da Série A, em Itália, já trocou três vezes de treinador esta época. Nenhum clube mudou tanto entre os cinco principais campeonatos da Europa

O Palermo, antepenúltimo classificado da Série A, em Itália, já trocou três vezes de treinador esta época. Nenhum clube mudou tanto entre os cinco principais campeonatos da Europa

Francesco Pecoraro

Pública, e conhecida, é a falta de paciência que os clubes portugueses, ao mínimo amontoado de resultados que não vitórias, têm para com as pessoas que escolhem. Na primeira liga já houve 15 trocas de treinadores entre os 13 clubes que tempo é dinheiro, num mercado em que a divisa não é o tempo.

Os treinadores têm-no cada vez menos, sobretudo os que trabalham em equipas cuja vida é sobreviver e não viver à base de títulos - na segunda metade da tabela do campeonato, apenas o Vitória de Setúbal não trocou de técnico. Um em nove, portanto. Em Itália e Inglaterra, a relação é de seis em 10; em França, de quatro em 10, em Espanha, de três em 10; e na Alemanha, de dois em 10.

Mesmo que em níveis distintos, a paciência e o tempo parecem ser mais baratos lá fora. Por cá, os portugueses preferem negociar à chicotada. Podem ser psicológicas, mas talvez já sejam demasiadas.