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“Nos primeiros tempos bebia muito à noite”: Rio Ferdinand fala da morte da mulher

O antigo capitão do Manchester United e da seleção inglesa ficou viúvo em 2015, depois da mulher Rebecca não resistir a um cancro. Sozinho e com três filhos nos braços, os primeiros meses foram de muito sofrimento: Ferdinand chegou a ter ataques de pânico e refugiou-se no álcool. Revelações para ver num documentário que a BBC vai transmitir na próxima semana

Lídia Paralta Gomes

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Olhávamos para ele e parecia de ferro. Rio Ferdinand, capitão do Manchester United e de Inglaterra, um dos melhores centrais que passou pela Premier League. Mas em maio de 2015, o mundo de Rio desabou depois da morte da mulher. Rebecca tinha 34 anos e não resistiu a um cancro da mama – faleceu poucas semanas após saber que a doença tinha voltado, depois de um primeiro diagnóstico em 2014.

O defesa, então com 36 anos, viu-se sozinho com três crianças: Lorenz, de 9 anos, Tate, de 6 e Tia, de 4 anos. E os primeiros meses não foram fáceis.

Num documentário produzido pela BBC e que será transmitido na próxima semana (“Rio Ferdinand: Being Mum and Dad”), o agora comentador revela que chegou a refugiar-se no álcool e que sofreu ataques de pânico.

“Nos primeiros tempos bebia muito à noite. Acordava a meio da noite. Provavelmente bebi de mais nos primeiros três ou quatro meses”, admite o ex-jogador, que confessa ter sentido uma “culpa extrema” por ver a mulher partir primeiro. “Estava perturbado. Olhava para os meus filhos e pensava ‘como é que vou conseguir que eles tenham uma vida normal?’”.

Habituado a concentrar-se na carreira enquanto via a mulher tomar as rédeas da educação dos filhos ("Nós não levantamos um dedo"), tal como grande parte dos futebolistas, Ferdinand admite que não estava preparado para assumir as pequenas rotinas da família. “As mulheres pensam constantemente naquilo que é necessário. Eu costumava acordar, vestir-me, tomar o pequeno almoço com eles e depois deixá-los na escola. E achava que estava a fazer a minha parte. Mas isso é a parte fácil. A Rebecca fazia tudo o resto, mas agora o cenário é completamente diferente. ‘Onde estão os sapatos? Onde estão as roupas? Onde estão as mochilas?'”, explica. “Ou como marco uma consulta no médico? Sempre fui ao médico do clube! Não fazia ideia de como se fazia…”.

Uma das situações mais dolorosas para Ferdinand passou-se na primeira vez que teve de levar os filhos à escola sozinho. “Quando os miúdos voltaram à escola, que terá sido uns três ou quatro dias depois da morte da Rebecca, eu acordei e comecei aos tombos pela casa. Eles estavam atrasados: pela primeira vez estavam atrasados para a escola porque eu estava a ter um ataque de pânico”, revela Ferdinand no documentário. “E quando os meti no carro ouvi ‘a mãe não faria isto’. Ficas sem saber o que fazer, mesmo”.

Ferdinand com os filhos Lorenz, Tate e Tia

Ferdinand com os filhos Lorenz, Tate e Tia

Clive Brunskill/Getty

As dificuldades estendiam-se aos mais ínfimos pormenores: “A Rebecca costumava arrumar as camas dos miúdos de uma certa maneira e quando eles me diziam isso, quase chateados, eu pensava que nunca ia ser tão bom quanto ela”.

O central admite ainda no documentário que o facto de estar habituado a um “ambiente de balneário” em que o luto era visto “como uma fraqueza” não o ajudou na hora de lidar com as emoções, mas que hoje já consegue compreender os “lugares mais negros” para onde a mente humana viaja depois de uma situação traumática como a que viveu. Ter tido uma “rede de pessoas” à sua volta foi essencial, nomeadamente nos momentos em que chegou a passar pela sua cabeça a ideia de suicídio.

“Eu tive a sorte de ter essa rede e os meus filhos como inspiração para me levantar e fazer com que as coisas funcionassem”, sublinha o seis vezes campeão da Premier League, finalmente preparado para falar do momento mais difícil da sua vida.