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Podolski: o espécime único e insubstituível despede-se dos alemães

Há muitos jogadores para quem a camisola da seleção nacional parece pesar mais sobre o corpo. Não é o caso de Lukas Podolski, o homem cujo melhor registo de golos é na seleção e que marcou em cinco de oito fases finais em que participou com a Alemanha. Esta quarta-feira despede-se da seleção frente à Inglaterra (19h45, Sport TV1) com 31 anos, 130 jogos e 48 golos (se não marcar mais um ou outro)

Diogo Pombo

Julian Finney

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Perguntem a qualquer jogador, tanto faz quem, sobre o que muda no psicológico, na pressão, no sentido de dever e de apresentar resultados, consoante a equipa pela qual jogam. A questão aqui está entre o ser de um clube ou de uma país.

Nem todos podem ser como Tostão, um senhor que é dono de uma racionalidade à parte. Um dia, há muito tempo, um jornalista fez-lhe uma pergunta, bem antes de ele se fazer uma lenda através do pé esquerdo, com o Mundial de 1970 dentro da bota - e a anos de futebol de um problema na retina o descolar do futebol aos 26 anos, para ser médico. Perguntou-lhe, acabado de chegar à seleção do Brasil, se aquela camisola pesava mais. Ele, um miúdo com 18 ou 19 anos, pegou na malha, colocou-a numa balança, viu o peso e respondeu que pesava o mesmo que a do Cruzeiro, o clube em que jogava nas horas vagas da seleção.

Assertivo, sem mais, nem menos.

Lukas Podolski, um alemão que nunca se portou como tal – até porque nasceu na Polónia –, descontraído, brincalhão, de sorriso fácil e jovial, não precisaria de uma balança. Ele responderia logo que a camisola da seleção é tão leve que sempre o fez sentir mais leve.

Mesmo que o avançado não o diga, olhamos para os números e ficamos com uma ideia. Podolski, um polaco que se fez germânico, ficou adulto no futebol 2003, no Colónia. O clube que fica a 20 quilómetros de Bergheim, para onde os pais polacos emigraram, era ele muito novo. Aí começou uma carreira que vai com 14 anos. Fartou-se de marcar golos e de impressionar com a brutalidade que tinha no pontapé canhoto e, em 2006, o Bayern de Munique contratou-o. Em três épocas, marcou 26 golos no clube que compra todo o talento que há na Alemanha, e voltou para o Colónia. Sempre marcou e jogou mais por lá, antes de o Arsenal o comprar em 2012, o emprestar ao Inter a meio de 2014/15 e de o vender ao Galatasaray, em 2015.

Durante estes anos todos, ele ganhou oito títulos. Poucos, muito menos se contarmos os que, realmente, são de louvar - uma Bundesliga, uma Taça da Liga alemã, uma Taça da Alemanha, uma segunda divisão germânica, uma Taça de Inglaterra, uma Taça da Turquia e duas Supertaças turcas. Com os anos, foi ganhando músculo, perdendo velocidade, mantendo a força bruta no pé esquerdo e, aos poucos, deixou de ser um ponta de lança goleador e tornou-se numa espécie de extremo que marca golos.

Mas tudo isso mudava quando era convocado para a seleção alemã.

Vestiu-a pela primeira vez aos 20 anos, quando ainda comparava o peso com a do Colónia. Marcou na estreia, frente à Irlanda do Norte. Era o primeiro de 49 golos, o terceiro melhor registo de sempre, atrás de Gerd Müller e Miroslav Klose. O canhoto que não fintava muito, era rápido q.b. e parecia só dominar o truque de rematar de tudo quanto era sítio, não mais saiu da seleção. Quer jogasse bem, mal ou assim-assim no clube, era sempre convocado; primeiro, por Jürgen Klinsmann, depois por Joachim Löw, o adjunto que virou seleccionador e que, ao longo de quase 13 anos, acompanhou todo o percurso de Podolski na mannschaft.

Nem quando, em 2009, deu uma estalada em Michael Ballack, capitão da seleção, a meio de uma partida contra o País de Gales. Os rumores sussarraram que o avançado não gostou de ver o médio jogar a passo e sem esforço, disse-lhe das boas, o outro respondeu e sentiu na bochecha a resposta. Podolski só teve de pedir desculpa e pagar uma multa de 5.000 euros à federação germânica.

O estatuto na seleção não foi arranhado. Continuou com a ter número 10 nas costas, a mostrar que há pés que vivem pensando que são canhões, e a ser decisivo pelo país quando nem sempre o era nos clubes - em oito fases finais que jogou com a Alemanha (quatro Europeus, três Mundiais e uma Taça das Confederações), marcou em cinco. São 12 dos 48 golos que marcou na seleção. “Estes 13 anos foram divertidos e sinto-me orgulhoso deles”, resumiu, antes do último jogo que fará, esta quarta-feira, pela Alemanha, contra a Inglaterra (19h45, Sport TV1), em Dortmund.

ADRIAN DENNIS

Entrará em campo como capitão, pela primeira vez. Parece que o adeus de Lukas Podolski chega cedo, porque ele tem 31 anos, está a marcar mais do que o costume no Galatasaray (15 golos em 23 jogos), é quase uma mobília da seleção alemã e parece estar lá desde que nos lembramos. Mas Podolski também é o tipo que, no Mundial do Brasil, ia à praia nas poucas horas vagas, brincava com miúdos, atirava jornalistas para a água, aprendeu um pouco de português, tirava selfies em todo o lado e fez os brasileiros idolatrarem um dos que estava em campo no 7-1 que os humilhou.

Ele é um alemão que sempre foi mais dado à emoção do que à razão. Gosta de aventuras, tem queda para se deixar ir em experiências novas e, talvez por isso, já decidiu que na próxima época estará no Japão, a jogar pelo Vissel Kobe. Lukas Podolski foi um jogador de seleção.

Conhecemo-lo muito mais pela constância em dar nas vistas com a Alemanha do que pela intermitência com que aparecia nos destaques semanais do futebol de clubes. “É um espécime único, ninguém o pode substituir”, disse Joachim Löw, para o descrever.

É mesmo.

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