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Os chineses têm muito dinheiro e gastam-no. Mas isso vai ficar “racional”

Li Xiaohua é vice-presidente da Federação Chinesa de Futebol e esteve no “Football Talks” para falar do que se está a passar - para lá dos milhões e milhões que vemos a serem oferecidos e gastos pelos craques que jogam na Europa. Ele disse-nos que a ideia é tornar esses gastos “mais racionais”, porque as estrelas tiram o lugar aos chineses e o objetivo colocar os chineses a jogarem futebol, desde miúdos

Diogo Pombo

Nuno Botelho

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O encontro estava combinado para meio da manhã. Seria numa das salas fechadas entre os corredores, os que estão comprimidos no espaço de fronteiras definidas, e rígidas, para jornalistas. “É suposto passares por ali”. “Não podes entrar por aqui”. “Tens que dar a volta pelo outro lado”. Fazer mais curvas que linhas retas.

O Centro de Congressos do Estoril foi da Federação Portuguesa de Futebol durante três dias, e dos oradores, convidados, treinadores, personalidades, velhos conhecidos, cidadãos de bilhete comprado e jornalistas. Era gente a conversar com gente e mais gente ainda a ouvir e a interessar-se no que se falava sobre futebol.

No meio dessa gente havia Li Xiaohua. O nome denuncia a parte do mundo de onde ele vem, que é a mesma de onde mais dinheiro tem saído para o futebol. Para uma parte específica, os jogadores. Ele é o vice-presidente da Federação Chinesa de Futebol, um bom motivo para se pedir uma entrevista, pela lógica que funciona assim que se sabe que ele ia estar ali.

É chinês, é o segundo chinês que mais mandará no futebol da China, é alguém que vem para promover o futebol de lá. É uma pessoa que deve saber o porquê de a Super Liga chinesa ter gastado 218 milhões de euros a comprar jogadores, só em janeiro. Sessenta milhões em apenas um brasileiro, de 25 anos (Oscar), que jogava por um dos melhores clubes do mundo (Chelsea) e preferiu ir jogar pelo dinheiro (Shanghai SPIG).

Li Xiaohua é um bom motivo para se estar ali.

A entrevista com ele estava marcada para as 11h20. Mas atrasa-se. E quase não acontece, porque Li Xiaohua quer pirar-se de território de jornalista quando, despachadas as rádios e as televisões, chega a vez de falar com a imprensa. Lá é convencido a ficar, embora o tempo que lhe é urgente não dê tempo para falar só com a Tribuna Expresso. Há mais três jornalista na sala para conversarem com ele, depois de os fotógrafos lhe gravarem o rosto, que não sorri. Um deles até tem de lhe pedir para o fazer. “Estou a sentir uma dor aqui, no cima das costas, há algum tempo. Por isso estou com esta cara desconfortável”, justifica-se.

Nuno Botelho

Depois justifica-se em nome dos clubes chineses, que têm gastado muito para fazerem o que o Shanghai SPIG fez.

Foi através dos muitos milhões de euros que Hulk, Witsel, Paulinho, Pellè, Ramires, Carlos Tévez, Alex Teixeira e outros craques como eles, que bem podiam estar na Europa, estão hoje na China. “Bom, estamos felizes por ver que cada vez mais jogadores de renome internacional vêm para as ligas chinesas. Essa era, mais ou menos, a ideia, para aumentarmos o número de adeptos nos estádios e o interesse”, admite Li Xiaohua. Tem um inglês articulado, um discurso ponderado. É calmo a falar e olha nos olhos de quem o ouve, sem se desviar por um momento. Nota-se que está habituado a ser quem responde e não quem pergunta.

Ele puxa pelo lado bom do que os europeus, por norma, acham mau - há mais craques a irem para a China e isso puxa pelo nível do futebol, do espetáculo, do interesse, dos estádios e das audiências televisivas de lá. “Mas, como há dois lados para tudo, isto também tem algum impacto - porque algumas posições são ocupadas por jogadores estrangeiros e os jogadores chineses não têm muitas oportunidades para se mostrarem. Portanto, temos de procurar um equilíbrio”, lembra, falando de uma missão que é para começar já este ano.

Nuno Botelho

Mesmo que apenas três estrangeiros possam jogar ao mesmo tempo, por equipa, a atenção está sempre neles. E os melhores pés, a melhor técnica e as maiores expetativas. São eles que elevam o nível do futebol que só em 1994 se tornou profissional na China. Pode haver dinheiro e vontade em gastá-lo, mas falta que o interesse comece cedo e por baixo. “Em 2015, tínhamos mais de 5.000 escolas especializadas em futebol. Depois, o Ministério da Educação assumiu a grande responsabilidade de promover o futebol nas escolas. De acordo com o nosso plano, que lancámos em 2009, queremos que esse número de escolas aumente para 20 mil, em 2020. E para as 50 mil, em 2025”, explica Li Xiaohua.

Depois, há os treinadores, os árbitros, os preparadores físicos e demais técnicos que faltam nos escalões de formação, que também estão em falta. Tudo é ainda imberbe. É aí que a federação chinesa quer convencer - e ordenar - os clubes a investirem. “Estamos a preparar medidas para incentir os clubes chineses a gastarem [dinheiro] racionalmente. Para se focarem em melhorar o nível técnico e o desenvolvimento das camadas jovens”, resume. O como, mesmo sendo escasso, vem a seguir - “Estamos a trabalhar num sistema de fair-play financeiro, para garantir que isto se tornará cada vez mais racional”.

Mas vai demorar muito, muito, mesmo muito tempo, até que o futebol faça soar as campainhas de interesse em que o ténis de mesa toca, na China. É quase incomparável. Porque há décadas que os atletas chineses dominam a modalidade no mundo - a última final do torneio olímpico, por exemplo, teve dois chineses - e isso dá corda a que a modalidade esteja nas escolas, nos jardins públicos, nas ruas e nas intenções de tudo quanto é criança. “O ténis de mesa tem uma grande história. Somos muito poderosos na cena mundial - nos Jogos Olímpicos, nos Jogos Asiáticos, as Universíadas, etc. Tudo isto foi puxando pelo interesse das pessoas. As crianças ainda precisam de tempo para fomentar o seu interesse por futebol e para jogá-lo”, reconhece, conformado.

E otimista, contudo. Li Xiaohua admite que “vai demorar muito tempo”, mas acredita que, um dia, o futebol, e não só o dinheiro, estará com os chineses.