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Bola de fogo

Síria. Executaram-se jogadores e outros foram obrigados a fugir do país. Apesar do conflito, a seleção nacional continua na corrida para o Mundial-2018 e é usada como ferramenta de propaganda pelo regime, que chegou a tentar contratar José Mourinho. Seis anos após o início da revolução, até a bola virou fogo em Damasco

Tiago Carrasco

O futebol na Síria é uma história de violência, de resistência, de fugas, de torturas e de morte

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Era o jogo mais importante da vida de Mohammed Jaddou. O capitão da seleção síria de sub-16 estava em Banguecoque, na Tailândia, para ajudar o seu país a garantir pela primeira vez um lugar no Mundial sub-17, marcado para o ano seguinte, no Chile. A presença da Síria na fase final já era um milagre: por esta altura, em meados de 2014, mais de 300 mil pessoas tinham morrido e quatro milhões abandonado o país em consequência de uma guerra fratricida entre o regime e várias milícias armadas. “Quando viajávamos para as partidas do campeonato ou para os estágios da seleção, os mísseis sobrevoavam o nosso autocarro. Víamos corpos na berma da estrada e passávamos por fogo cruzado. Tínhamos de nos deitar debaixo dos bancos para os snipers não nos verem”, diz Jaddou, de 18 anos. “Mesmo assim, era uma honra vestir a camisola da seleção”.

Essa honra, entretanto, desapareceu. Quando a seleção principal da Síria — uma equipa que, noutras circunstâncias, ele estaria a representar — entrar em campo no dia 28 de março, para defrontar a Coreia do Sul, partida decisiva para a qualificação para o Mundial-2018, Jaddou não vai estar a torcer efusivamente pelos seus compatriotas. “Só vou ver os jogos se não tiver responsabilidades na escola ou no treino”, diz. “Os homens de Bashar al-Assad tomaram conta da seleção e aquela equipa representa os interesses do regime, não de todo o povo sírio”.

O que aconteceu a Jaddou entre estes dois momentos explica a perda da sua devoção à bandeira. Há três anos, pouco depois de ter ouvido o hino nacional, o médio sírio ficou isolado diante do guarda-redes, pôs a bola no fundo das redes e abriu caminho à vitória sobre o Irão por 2-1. No jogo seguinte, marcou um golo e deu outro a marcar na goleada por 5-1 ao Usbequistão. A Síria estava pela primeira vez num Campeonato do Mundo de sub-17 e ele, o maestro da equipa, preparava-se para explodir num torneio que outrora tinha catapultado craques como Fàbregas e Ricardo Quaresma.

No entanto, de regresso a Latáquia, a sua cidade natal, Jaddou começou a planear fugir do país com o pai e com o tio. “Viver na Síria tinha-se tornado demasiado perigoso. A pressão era insuportável. Os rebeldes acusavam-me de ser cúmplice do Governo por representar a seleção e a federação ameaçava acabar com a minha carreira se eu não fosse aos treinos e listar-me como desertor se abandonasse o país”, diz o futebolista, que aponta para a fotografia de um cadáver guardada no seu telemóvel para explicar o principal motivo do êxodo. “Pouco antes dos jogos na Tailândia, um míssil matou o meu melhor amigo e colega de equipa, Tarek Ghrair, em Homs. Tinha 15 anos. Chorei durante dois dias e ainda não o esqueci. Pedi ao meu pai para fugir da Síria”.

Primeiro, tentaram o aeroporto, mas o atleta foi barrado à entrada do avião porque todos os jogadores da seleção estavam numa lista de interdição de voo. “Eles queriam garantir que nós íamos mesmo representar o país no Mundial”, afirma Jaddou. O pai foi obrigado a vender a casa para garantir os 11 mil euros necessários para realizar a viagem clandestina até à Europa, que levou dois meses. Na Turquia, acordaram com um traficante que a travessia do Mediterrâneo até Itália seria efetuada com 70 refugiados a bordo. Foram 130. “Não havia espaço nenhum e seis horas depois de começarmos o barco começou a afundar”, lembra o sírio. “Tivemos de deitar ao mar todas as malas para mantê-lo à superfície e de passar noites a fio a tirar com as mãos a água acumulada dentro da embarcação.” Ficaram sem eletricidade e sem leme. Foram cinco noites sem dormir e acabaram salvos pela Marinha italiana, que os levou até à costa siciliana. “Acho que tive mais medo de morrer afogado do que das balas na Síria”, confessa.

A Alemanha

Depois de algumas noites ao relento e em estações de comboio, a família conseguiu finalmente chegar a um centro de acolhimento na vila alemã de Oberstaufen, perto da fronteira com a Suíça. “Durante o caminho, para ganhar forças, imaginava-me a jogar no Real Madrid, ao lado do Cristiano Ronaldo, o meu jogador favorito”, diz Jaddou.

Hoje, depois de uma passagem pelo Ravensburg, da quinta divisão alemã, está nos sub-19 do Arminia Bielefeld, da primeira divisão de sub-19. Depois de vários meses à espera da conclusão do seu processo como refugiado, já participou em 13 partidas e já fez uma assistência. Vive com o pai e com o tio num apartamento perto do estádio, enquanto aguarda pela autorização legal para trazer a mãe e as irmãs, que ainda estão na Síria.

Jaddou sobreviveu e continua com legítimas aspirações de se tornar profissional. Outros não tiveram a sua sorte. Desde o início da insurgência síria, que completou o seu sexto aniversário a 9 de março, centenas de colegas seus interromperam a carreira: alguns alistaram-se numa das várias fações da guerra, outros deixaram o país e vivem hoje em campos de refugiados na Turquia, no Líbano ou na Jordânia; os mais desafortunados ficaram feridos ou perderam a vida. “O futebol, à imagem de todo o país, desintegrou-se por completo”, diz Yasser al-Hallaq, coordenador-geral da União dos Atletas Sírios Livres, que impulsionou a formação da “Seleção da Síria Livre”, constituída por futebolistas refugiados e dissidentes, no Líbano. “A insistência do regime em retomar as atividades desportivas é uma decisão irresponsável, que coloca em risco a saúde e a vida dos atletas e que mostra que o poder político está a usar o desporto para passar uma falsa imagem de normalidade na Síria.”

Num esforço desesperado para mostrar que o país continuava funcional, a administração síria decidiu prosseguir com o campeonato, agendando todas as partidas para duas cidades debaixo do seu controlo: Damasco e Latáquia. O risco, porém, não podia ser eliminado. Em fevereiro de 2013, Youssef Suleiman, de 19 anos, avançado do Al-Wathba e internacional pelas seleções jovens, morreu na consequência de um ataque com morteiros ao hotel em que a sua equipa estava alojada em Damasco, na véspera de um jogo. Nunca se soube se o ataque foi realizado pelo exército ou pela oposição. Já Jehad Kassab, um jogador lendário que, além de ter sido quatro vezes campeão nacional representou o seu clube, o Al-Karamah, de Homs, na final da Liga dos Campeões da Ásia, em 2006, foi detido pelo regime e torturado até à morte. O defesa internacional, de 40 anos, foi acusado de organizar protestos contra o Governo e de participar em motins.

O guarda-redes cantor

Nenhum outro futebolista teve, porém, um papel tão ativo no conflito como Abdul Basset Al-Saroot, o guarda-redes cantor de Homs. Dono da baliza do Al-Karamah e dos sub-20 do seu país, deixou os relvados no início da revolução para entoar canções de protesto nas concorridas manifestações da sua cidade. Quando o exército de Assad começou a disparar contra os revoltosos, Saroot formou uma brigada para defender o seu burgo, tornando-se uma das figuras heroicas da resistência. O seu papel no cerco a Homs ficou imortalizado no filme “Regresso a Homs”, de Talal Derki, vencedor do prémio para melhor documentário em Sundance.

Após escapar do cerco, a vida de Saroot ficou envolta num enorme mistério. Os combatentes islamitas da Jabat al-Nusra, uma filial da Al-Qaeda na Síria, acusaram-no de se ter aliado ao Estado Islâmico, mas Saroot, numa entrevista dada no ano passado a uma televisão síria, rejeitou os rumores. “A certa altura, quis continuar a trabalhar e disse a um intermediário que estava na disposição de me juntar a eles [Estado Islâmico]. Mas depois vi como eles eram e arrependi-me. Quando me chamaram para prestar juramento, rejeitei”, disse. O antigo guarda-redes alegou ainda que lidera uma brigada independente, a Fallaq Homs, que continua a enfrentar o regime no Norte do país. “O mais impressionante é que ele continua a afirmar que pretende voltar a jogar futebol quando a guerra terminar”, diz James Montague, autor do livro “When Friday Comes: Football in the War Zone” e de vários outros títulos sobre o futebol no Médio Oriente.
Nos territórios ocupados pelo Estado Islâmico, o futebol foi aniquilado. Em Raqqa, a base do grupo jiadista na Síria, o clube Al-Shabab foi encerrado e quatro dos seus jogadores — Osama Abu Kuwait, Ihsan Al Shuwaikh, Nehad Al Hussen e Ahmed Ahawakh — decapitados em praça pública. “Desconhece-se se foram executados por serem futebolistas ou por serem suspeitos de espiarem para as forças curdas do YPG”, explica James M. Dorsey, professor na universidade de estudos internacionais S. Rajaratnam, em Singapura, e autor do livro “The Turbulent World of Middle East Soccer”. “Há grupos islamitas, como o Hezbollah e o Hamas, e líderes como Bin Laden, que reconhecem o valor lúdico do futebol e o seu potencial de recrutamento. Outros, como o Boko Haram ou a Al-Shabaab, veem no futebol um desporto de infiéis, pecado e distração para as obrigações religiosas, banindo o futebol dos territórios por si controlados. O Estado Islâmico cai na segunda categoria.”

Miúdos a jogar à bola

Há exceções: em algumas localidades, crianças até aos 12 anos podem jogar e ver futebol e alguns combatentes estrangeiros têm ligações por satélite para assistirem pela TV aos campeonatos dos seus países de origem. “Nos seus vídeos de propaganda, o Estado Islâmico usou o futebol e futebolistas como ferramentas de recrutamento. Mesmo os que diabolizam a bola, veem nela potencial”, diz Dorsey.

Mergulhada no terror e no caos, seria expectável que a bola já não rolasse na Síria. Mas rola. Internamente, o campeonato é sofrível: estádios funcionam como bases militares, adeptos têm medo de assistir às partidas e os clubes mais populares, como o Al-Karamah, tetracampeão nos anos anteriores ao conflito, ou o Al-Ittihad, com um estádio para 53 mil pessoas em Aleppo, ficaram enfraquecidos com a destruição das suas cidades e com a debandada dos melhores jogadores. O atual campeão é o Al-Jaish, a formação do exército. “As equipas dos exércitos assentaram o seu domínio no recrutamento dos melhores jogadores para o serviço militar obrigatório”, explica Montague.

Mas, internacionalmente, o futebol sírio está a viver os seus dias de glória. A seleção nacional continua, surpreendentemente, a lutar por um lugar no Campeonato do Mundo do próximo ano: ocupa o quarto lugar no grupo A da terceira e última ronda do apuramento asiático, a um ponto do Usbequistão e de uma ambicionada vaga no playoff decisivo. A concretizar-se, seria a primeira presença da Síria num Mundial. Mesmo que tal não aconteça, a campanha das Águias de Qasioun já obteve feitos notáveis: humilharam a China, que gasta fortunas no futebol, com uma vitória por 1-0 fora de casa, e conseguiram empates a zero contra as potências Irão e Coreia do Sul. Em dois anos, a seleção trepou quase 50 lugares no ranking da FIFA, da 152ª posição para 93ª.

A prestação assume ainda mais destaque face às terríveis condicionantes. Os jogos em casa são disputados na Malásia, a milhares de quilómetros de Damasco. Devido a sanções aplicadas ao país, a FIFA congelou mais de €2 milhões destinados ao futebol sírio, justificando a medida pelo receio de o dinheiro ser aplicado pelo regime Baath em equipamento militar. A seleção foi ainda proibida de participar na qualificação para o Mundial-2014, por causa da utilização indevida de um jogador que já tinha representado as cores da Suécia. Por fim, alguns dos mais talentosos futebolistas sírios fecharam a porta à seleção por motivos políticos: além de Mohammed Jaddou, também Faris al-Khatib, antigo capitão e um dos melhores jogadores sírios de sempre, o médio Jehad Al Hussein e o goleador Omar Soma rejeitaram as cores nacionais. Khatib é estrela na liga do Kuwait e Hussein e Soma são dois dos melhores jogadores do campeonato saudita.

Os estrategos políticos de Bashar al-Assad sabiam que a abrangência mediática do futebol podia funcionar como um excelente meio de propaganda. “O regime fez desta equipa um grupo pró-Assad, com o objetivo claro de garantir a qualificação para o Mundial-2018, especialmente porque será disputado na Rússia, o principal aliado do regime sírio”, afirma James Montague. O sonho de ver a sua Síria aplaudida e legitimada nos palcos russos, fez com que Bashar tomasse ações concretas em relação à modalidade: em 2012, como recompensa da vitória na Taça da Ásia Ocidental, o presidente recebeu no seu palácio o plantel, oferecendo a cada um dos campeões um apartamento em Damasco, 1500 euros e um emprego garantido nos organismos públicos. Um desses atletas era o guarda-redes Mosab Balhous, que chegou a ser preso por “dar abrigo a gangues armados e por posse de quantidades suspeitas de dinheiro”, segundo a televisão Al Arabiya. Após a passagem pelos calabouços, Balhous tornou-se um dos mais acérrimos defensores do regime, agarrou a titularidade na baliza síria e ostentou a braçadeira de capitão nacional.

“Há dois grupos de jogadores na seleção: os que apoiam o regime genuinamente e os que estão ali por não terem outra opção, porque não conseguiram fugir ou preferiram ficar com as famílias”, diz James Dorsey. “Por isso, temos de ter em conta dois fatores motivacionais que podem explicar os bons resultados. Por um lado, os genuínos apoiantes enfrentam cada partida como uma batalha para defender Bashar, por outro, os que não têm opção são obrigados a jogar com garra para não se meterem em problemas.”

As comparações

No passado, outras seleções árabes conseguiram superar-se em momentos dramáticos: em 2007, o Iraque venceu a Taça da Ásia quando atravessava uma sanguinária guerra sectária e, em 2011, a Líbia qualificou-se para a Taça das Nações Africanas com jogadores que abandonavam os treinos para dispararem contra as tropas de Kadhafi. “Mas não é isso que está a acontecer à Síria”, defende Montague, relembrando os excelentes resultados das jovens seleções sírias nos anos anteriores ao conflito (a participação no Mundial sub-17 e os sub-23 com os Jogos Olímpicos a uma vitória de distância). “Ao contrário do Iraque em 2007, esta não é uma equipa que une o povo em redor de uma bandeira. Pelo contrário, reflete a divisão que a guerra criou. Eu diria que se não fosse a guerra, a geração de futebolistas que estava a aparecer ia garantir facilmente a qualificação para o Mundial e talvez se tornasse numa das melhores equipas da Ásia. Ou seja, a Síria não vence, como o regime gosta de fazer passar, por causa da guerra, mas apesar dela.”

Se dúvidas existissem em relação à orientação política do balneário da seleção, ficaram dissipadas quando o ex-treinador Fajr Ibrahim apareceu numa conferência de imprensa, após uma vitória diante de Singapura, com a cara de Bashar al-Assad estampada na T-shirt: “Estamos orgulhosos do nosso Presidente. Muito orgulhosos porque este homem luta contra grupos terroristas de todo o mundo. É o melhor homem do mundo.” A bajulação não lhe serviu de nada. Em abril de 2016, sem justificação pública, Ibrahim foi despedido. Para o substituir, a Associação de Futebol Síria tentou contratar Mourinho, à época, desempregado. A oferta seria de €3 milhões por ano. O técnico português agradeceu o convite, mas declinou-o.

O bom trabalho que o futebol estava a apresentar foi interrompido e a seleção disputa este mês aquela que será a última oportunidade de estar no Mundial a curto prazo. “Os próximos grandes jogadores sírios vão jogar pela Alemanha, Holanda ou Bélgica”, prevê Montague.

Jaddou não tenciona voltar à seleção: “O meu país só tem guerra, destruição e fome. O futebol não faz sentido assim. Talvez, se a paz voltar, possa regressar. Mas não hesitarei se for chamado pela Alemanha”.

Perfil

Jaddou foi capitão da seleção síria de sub-16 e era uma das promessas 
do seu país. Encurralado entre 
os rebeldes e as pressões governamentais, Jaddou decidiu fugir com o pai e com o tio. O pai vendeu 
a casa por 11 mil euros, e viajaram clandestinamente até à Europa, 
num trajeto que levou dois meses. “Tive mais medo de morrer afogado do que das balas na Síria”, diz 
ao Expresso.

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