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Mas o que é que se passa com a Holanda?

Nem total, nem parcial: por estes dias, futebol holandês, nem vê-lo. A seleção que chegou às meias-finais do Mundial 2014 está em 4º lugar no grupo de qualificação para o Mundial 2018, o selecionador Danny Blind foi despedido e a Rússia já parece uma miragem. Perguntámos a quem sabe o que passa com os holandeses

Lídia Paralta Gomes

GEORGI LICOVSKI/EPA

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Junho de 2014, Brasil. Robin van Persie voa e faz o empate frente a Espanha no jogo de estreia para ambas as seleções no Mundial 2014. Os espanhóis, então campeões do Mundo em título, marcaram primeiro, mas depois daquele salto de golfinho do jogador que, na altura, liderava o ataque do Man. United, tudo mudou: a Holanda de Van Gaal, a jogar num estranho mas altamente atrativo 5-3-2 (o sistema da moda nesse Mundial), faria mais quatro golos.

Depois da final no Mundial’2010, perdida precisamente para os espanhóis, a Holanda chegava ao Brasil com as suas estrelas em plena maturidade futebolística. E a Robin van Persie, Wesley Sneijder e Arjen Robben, todos então com 30 anos, juntava-se um acervo de jovens prontos para tomarem o Mundo, como Daley Blind, Georginio Wijnaldum ou Memphis Depay. A laranja mecânica cairia apenas nas meias-finais, no desempate através de pontapés da marca de grande penalidade, antes de garantir o 3.º lugar com uma vitória tranquila perante o Brasil, por 3-0.

Menos de três anos depois, o deserto.

A Holanda falhou o Euro’2016 e, depois da derrota com a Bulgária no último fim de semana, tombou para o 4.º lugar do seu grupo de qualificação para o Mundial’2018. Blind foi despedido e a Rússia parece, por esta altura, uma miragem. Desde os anos 80 que a seleção que inventou o Futebol Total não falha duas grandes competições e todos nos perguntamos: o que se passa com a Holanda?

A decisão de, após a saída de Van Gaal, contratar Guus Hiddink - que deixou de lado o 5-3-2 do antecessor para voltar ao 4-3-3 típico do futebol holandês - tem sido apontada como um erro crasso. Hiddink começou a qualificação para o Euro’2016 com duas derrotas nos três primeiros jogos e saiu a meio da campanha, dando lugar a Danny Blind. A coisa não endireitou, bem antes pelo contrário: em quatro jogos, o antigo central perdeu três e lá se foi o bilhete para França. Ainda assim, Blind recebeu um voto de confiança para a qualificação do Mundial’2018, voto esse que terminou no último fim de semana.

Mas os treinadores estão longe de ser o único problema da Holanda atual: falta qualidade à nova geração de jogadores e não há sucessores à vista para Robben, Sneijder e Van Persie.

“A principal razão para a situação atual está provavelmente no não surgimento de uma boa geração desde a turma de jogadores nascidos entre 1982 e 1984, onde estão Sneijder, Robben, Van Persie, Kuyt, Van der Vaart e outros futebolistas que, por alguma razão, ultrapassaram as 80 internacionalizações”, conta à Tribuna Expresso o jornalista desportivo holandês Michiel Jongsma, editor do site BeNeFoot.net, dedicado ao futebol dos Países Baixos e colaborador do "The Guardian".

Jongsma acredita que o sucesso da seleção holandesa no Mundial de 2014 “mascarou muitos dos problemas” que já existiam na Oranje. “Aquela equipa era basicamente construída à volta do talento de jogadores já na casa dos 30, casos do Robben, do Sneijder ou do Van Persie, com uma grande organização à volta”. O jornalista lembra que a Holanda esteve apenas “um minuto à frente do marcador” na fase a eliminar desse Mundial (frente ao México, nos oitavos de final) e que o feito de chegar às meias-finais baseou-se muito na “abordagem rigorosa” de Van Gaal.

Rigor. Aquilo que falta aos sucessores. “Ao escolher Hiddink e, mais tarde, Blind, a federação optou por treinadores que não são conhecidos pela disciplina tática. O Hiddink é mais um gestor de homens e ao Danny Blind falta-lhe experiência, além de que não parece um treinador com uma visão forte”, sublinha Jongsma.

Também para Rui Malheiro “mais do que um problema de treinadores, há uma crise de jogadores”. O analista de futebol explica à Tribuna Expresso que continua a existir “talento individual, mas falta capacidade coletiva” na Holanda, além de óbvios problemas no processo defensivo. “Falta uma referência na defesa. Só para termos ideia, contra a Bulgária o patrão da defesa era o Martins Indi, que jogou ao lado de um miúdo de 17 anos”. Malheiro fala de Matthijs de Ligt, um adolescente com pouco mais de uma dezena de jogos pelo Ajax, lançado às feras por Blind. Resultado: foram dele os dois erros que deram origem aos golos da Bulgária.

No ataque, a situação não melhora. “Não há jogadores que façam a diferença, que desequilibrem. Estar a comparar Robben, Sneijder e Van Persie a jogadores como Quincy Promes, Bas Dost ou o Jeremain Lens… é uma diferença muito grande”, diz Malheiro, que reforça a ideia de que a “viragem geracional” foi muito grande: “Eu vi o jogo contra a Bulgária e há ali muitos jogadores que não nos dizem praticamente nada”. De facto, por estes dias a seleção da Holanda parece um conjunto de jogadores genéricos vindos dos vários campeonatos europeus, aos quais se juntam alguns talentos da liga holandesa e um par de estrelas já em declínio.

“Se olharmos, por exemplo, para os jogadores da década de 90, todos eles estavam em clubes de primeira linha: Frank de Boer, Ronald de Boer, Seedorf, Davids, Bergkamp. Antes deles o Gullit e o Van Basten. Hoje em dia não tens praticamente ninguém. A qualidade não é tão boa como nas gerações anteriores e isso parece-me indiscutível”, reforça o analista.

KOEN VAN WEEL/

Um campeonato com lacunas

Entre 1970 e 1995, houve seis clubes vencedores da Taça dos Campeões Europeus (depois Liga dos Campeões) vindos da Holanda. “Um feito impressionante”, diz-nos Michiel Jongsma, tendo em conta que a “quantidade de talentos” nunca foi gigantesca - afinal de contas, a Holanda não é um país assim tão grande.

“A quantidade nunca foi enorme, mas foi sempre bem organizada. A Holanda tem 1 milhão de futebolistas federados para uma população de 17 milhões de habitantes, o que costumava ser uma grande vantagem. As infraestruturas eram muito boas, a formação também. Isso combinado com aquela visão inovadora, personificada por gente como o Johan Cruyff, fez com que os holandeses sempre fizessem melhor do que seria de esperar”, explica o jornalista.

Mas enquanto a Holanda se agarrou com unhas e dentes ao Futebol Total, outros países “adaptaram-se melhor à cada vez maior profissionalização do futebol”.

Por isso hoje a situação é bem distinta. Nos últimos cinco anos, o melhor desempenho de uma equipa holandesa na Liga dos Campeões foi a presença do PSV nos oitavos de final, em 2015/16. Nas seleções jovens, depois de conquistarem o título em 2006 e 2007, os holandeses falharam três dos quatro Europeus sub-21 seguintes. Os últimos jogadores holandeses a saírem da Eredivisie para equipas da 1.ª linha europeia com sucesso foram precisamente Robben (Chelsea) e, com menos impacto. Sneijder (Real Madrid).

Memphis Depay é uma das últimas desilusões. “Ia ser um dos melhores jogadores do Mundo, chega ao Manchester United e não dá nada. Teve de descer a uma 2.ª linha europeia, neste caso ao Lyon, onde está a relançar a carreira”, lembra Rui Malheiro, sublinhando a “especificidade” do campeonato holandês, que faz com que a transição para a alta roda não seja fácil: “As equipas têm processos defensivos muito rudimentares. Os jogos são maioritariamente abertos e a componente tática é muito pouco trabalhada. Quando saem, os jogadores sentem dificuldades”.

Se há dois anos o United desembolsou 34 milhões de euros para ter Depay, no último verão foi a vez do Tottenham apostar 22 milhões num goleador holandês que, para já, se tem revelado um flop. Depois de marcar 31 golos na última época, Vincent Janssen leva apenas cinco golos esta temporada, quatro dos quais de grande penalidade.

O talento de Depay não chegou para o avançado impor-se no Manchester United

O talento de Depay não chegou para o avançado impor-se no Manchester United

Alex Livesey/Getty

“A média de idades dos jogadores da liga holandesa baixou dois anos na última década, o que é uma grande diferença. Por exemplo, o Tottenham é a equipa mais jovem da Premier League, com uma média à volta dos 24,5 anos. Na Holanda seria a 9.ª ou 10.ª equipa mais jovem. A falta de jogadores experientes faz com que os futebolistas mais novos não sejam verdadeiramente testados - podem ser bons na Eredivisie e, note-se, são talentosos, mas a resistência que têm não é comparável à de jogadores de ligas mais experientes, como é até a Liga NOS”, explica Michiel Jongsma.

Tal como Rui Malheiro, o jornalista holandês considera que as dificuldades que os jogadores do seu país sentem para se imporem nos grandes campeonatos está também relacionada com a “falta de inovação tática”.

Jongsma lembra que “há muito mais variedade tática nas restantes ligas”, o que faz com que os jogadores tenham de aprender a pensar rápido: “A Holanda é muito monótona em termos táticos - quase todas as equipas jogam em 4-3-3 e quase todos os treinadores são formados pela federação holandesa”.

E o futuro?

Michiel Jongsma diz que a Holanda deve beber dos exemplos do futebol português e belga, campeonatos mais ricos em termos táticos, mas que voltar ao topo vai “levar tempo”, até porque o futebol do país das tulipas está “cheio de pessoas conservadoras” que ainda trabalham “como se estivessem nos anos 90”.

O jornalista tem esperança que a geração nascida entre 1993 e 1995, que é “particularmente talentosa”, possa tornar-se forte. “As gerações que vêm aí parecem bastante boas e, na minha opinião, com um técnico de qualidade, podemos tornar-nos de novo uma das 10 melhores seleções da Europa”.

Já Rui Malheiro lembra a caminhada do Ajax na edição deste ano da Liga Europa - está nos quartos de final - para frisar que podem vir aí coisas boas da Holanda: “O futebol holandês está excessivamente virado para o individual, sem pensar no coletivo. Mas curiosamente uma das equipas da atualidade com uma dimensão coletiva do jogo mais atraente é o Ajax, que atua com muitos jovens holandeses. O futuro da Seleção deve passar por aí”.