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Eldense, o clube que se fez refém da Máfia

Os 12 golos com que o Barcelona B goleou o Eldense no sábado não foram assim tão surpreendentes. O escandaloso resultado desmascarou o envolvimento do clube com uma organização mafiosa, a “'Ndrangheta”

Sónia Santos Costa

D.R.

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Não foi preciso uma sexta-feira 13 para trazer azar ao Eldense – bastaram os 12 golos no sábado passado, num jogo contra o FC Barcelona B, do grupo III da Segunda Divisão B espanhola. A infiltração da máfia calabresa, a famosa “'Ndrangheta” no território dos nossos vizinhos estava prestes a ser exposta.

Nobile Capuani contactou o CD Eldense em dezembro. Pintou um conto de fadas aos gestores do clube de segunda divisão espanhol – que representava um fundo italiano, que traria dinheiro, jogadores e vitórias.

A negociação foi breve e Capuani tomou as rédeas da equipa logo no início do ano, mas bastaram três meses para que o escândalo viesse à tona.

O alarme veio de dentro. Este domingo, a direção do clube expressou publicamente as suspeitas acerca de Capuani e pediu ajuda à Liga de Futebol Profissional (La Liga) e à Polícia, para que investigassem os resultados da equipa por suspeitas de combinação de resultados e apostas.

A dupla mafiosa

A investigação revelou que o alegado fundo de investimento nunca existiu e que Capuani escondia uma ligação secreta a Ércole di Nicola, (ex-jogador e ex-diretor desportivo italiano, desconhecido em Espanha), e à sua organização. Talvez por Di Nicola ter um cadastro bem sujo no seu país de origem: vários delitos relacionados com a manipulação de resultados futebolísticos e apostas ilegais.

Di Nicola tinha um modus operandi: entrava em contacto direto com os dirigentes e jogadores das equipas, para os implicar na fraude. Foi-lhe atribuída a combinação de resultados em, pelo menos, oito jogos. La Fiscalía, os investigadores italianos, descobriram o Dirty Soccer, uma subrede obscura de máfia no desporto na qual o italiano está envolvido, e que afirmam ser comandada por 'Ndrangheta, uma das organizações mafiosas mais poderosas do mundo.

Até àquele momento, apenas se conheciam alguns nomes soltos com ligações ao Dirty Soccer, mas as autoridades acreditam agora que se trata de um autêntico sistema transversal – no qual estão também envolvidos investidores sérvios, malteses e albaneses. Era desses bolsos que chegariam os fundos para apostar em clubes estrangeiros.

Di Nicola era um dos participantes desse grupo, encarregue de fechar os resultados combinados e garantir que o dinheiro se multiplicava sem riscos. Após ser desmascarado pelas autoridades italianas, passou quatro meses em prisão domiciliária.

O tribunal acredita que o italiano aproveitou a sua temporada como diretor desportivo do L'Aquila, em 2015, para manipular resultados da Taça de Itália e da Série B. Foi por essa altura que travou conhecimento com Capuani, que dirigia a secção juvenil do clube.

Seis meses depois de rebentar o escândalo Dirty Soccer, em novembro de 2015, rumaram a Espanha para limparem o seu passado.

É para lá que vamos.

Rasto de destruição

Chegaram ao FC Jumilla a prometer dinheiro e jogadores com projeção. Afirmavam ter apoio de um fundo italiano, mas na verdade tinham a ajuda de outros compatriotas, Valentino Fenni e Salvatore Casapulca. “Foi uma mentira desde o início, ficavam com o dinheito e não pagavam em lado nenhum, nem em restaurantes, nem em hotéis, nem nas casas que alugavam para os jogadores. Deixaram uma dívida de mais de 200.000 euros, uma barbaridade para um clube como o Jumilla”, contou ao jornal espanhol El Confidencial uma fonte interna do clube italiano, que prefere permanecer no anonimato por medo de represálias.

Rapidamente se descobriu qual era a sua maior fonte de rendimento - pediam dinheiro a jogadores de categoria inferior para lhes darem a oportunidade de jogar.

Prometiam-lhes projeção na carreira, exigiam-lhes dinheiro em troca.

No período de apenas uma semana, chegaram ao clube seis italianos e um francês - e chegaram a receber 40.000 euros de apenas um jogador.

Outra fonte de dinheiro fácil era a manipulação de resultados. Apostas para golos sofridos. Em abril, seis meses depois de terem chegado ao Jumilla, foram expulsos do clube, que continua a pagar as faturas dessa época.

A chegada ao Eldense

Foram rápidos a encontrar uma solução e fixaram-se a apenas 50 quilómetros do Jumilla. Escolheram outro clube da Segunda Divisão B, desta feita o CD Eldense, que estava numa luta desesperada para não descer de divisão e precisava de dinheiro urgente. Reutilizaram a historieta do fundo italiano e fizeram crer que acreditavam no clube. A estratégia resultou com os modestos dirigentes da equipa de Alicante, que relegaram para Capuani a gestão desportiva e económica.

Começaram a chover jogadores, na sua maioria vindos de Itália. O método de embolsar era o mesmo – e quanto mais atletas, mais euros para Capuani e os seus sócios. “Chegaram imediatamente 20 jugadores e sabíamos que muitos deles tinham pago”, contou à imprensa David Aguilar, presidente do clube, que cancelou o contrato com a dupla mafiosa italiana este domingo e decretou a suspensão da atividade futebolística do Eldense até ao fim da temporada, abdicando de jogar as jornadas que faltam, após os incidentes de sábado no jogo frente ao FC Barcelona B.

Aguilar passou todas as informações de que dispõe à federação espanhola e às autoridades.“Só estamos a descobrir tudo agora. A cada 10 minutos é uma nova… Houve um jogador que pagou 700 euros para entrar numa única partida. Não tinham nível para estar na Segunda B, mas vinham porque pagavam. Isto tem de sair cá para fora. Temos de conseguir limpar o clube para podermos recomeçar”.

O presidente do Eldense também falou acerca dos resultados manipulados. Apontou para o jogo contra o Cornellá, há três jornadas, para o qual estava combinado sofrerem quatro ou mais golos. O resultado acabou por ser uma derrota por 3-1, o que trouxe uma perda enorme de dinheiro. Houve confusão entre os jogadores.

8-0 ao intervalo

Contra o Barcelona B, combinaram um resultado mais escandaloso - e proporcionalmente mais rentável. “Queriam aproveitar este jogo para recuperar todo esse dinheiro que perderam. Tinham de ir para o intervalo a perder 8-0. FOi exatamente o que aconteceu. Percebi logo que se estava a passar algo”. Curiosamente, a maioria dos jogadores escolhidos para alinhar em posições-chave nessa partida chegaram em janeiro, pelas mãos de Capuani.

As apostas ilegais

Nos balneários, as conversas fluíam abertamente acerca de redes de apostas na Ásia, onde as máfias europeias conseguiam entrar e que eram uma fonte tão lucrativa como o tráfico de pessoas e droga. Outras fontes alegam que a dupla Di Nicola-Capuani mantinham contactos em Malta e na Arábia Saudita. O dinheiro movia-se por circuitos ilegais e não passava sequer por Espanha.

A La Liga encontra-se a investigar os sucedidos, embora a Segunda Divisão B dependa da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) - que ainda não reagiu ao acontecimento de sábado. “Vamos analisar todas as imagens e falar com os jogadores. Se tivermos de avançar com uma acusação particular, é isso que fazemo. Não seria a primeira vez. Não soou nenhum alarme em Espanha, mas estas apostas costumam realizar-se no estrangeiro para não se levantarem suspeitas.” declarou Javier Tebas, presidente da La Liga, que está convencido de que todos os fatores apontam para uma clara manipulação de resultados.

Para Tebas, existe um elemento que levanta suspeitas. “As máfias fazem apostas após o início do jogo. Se forem aceites, fazem um sinal para avisar os cúmplices que têm em campo. Neste caso, os golos começaram ao oitavo minuto. É provável que tenham sabido nesse momento que a proposta tinha sido aceite, por parte de algum movimento ou gesto vindo da bancada. Ao contrário do que muitos pensam, não é preciso um clube estar todo vendido para haver esta manipulação dos resultados.Bastam três ou quatro jogadores que não metam o pé ou percam a bola em momentos decisivos e lugares-chave do jogo”.

Os jogadores envolvidos

Cheikh Saad, avançado mauritano da equipa, afirma saber quais são os colegas envolvidos no esquema.

“São quatro os jogadores implicados na viciação de resultados. A mim é indiferente o que se pode passar, mas, quando puder, revelarei os nomes dos jogadores. Meia hora antes de começar o jogo com o Barça B eu ia ser titular, depois tiraram-me da equipa na última hora. Disseram a um dos meus colegas que o jogo estava combinado, a mim não contaram nada. O treinador e os jogadores sabiam de algo, também. Durante o jogo, o treinador pediu-me para entrar e eu recusei. Disse aos meus companheiros no banco para não entrarem, de maneira a que os seus nomes não ficassem manchados", avançou Saad, em declarações à rádio Rac1.

A polícia está a investigar Nobile Capuani e Ércole Di Nicola, tal como os inconfessáveis motivos que os levaram ao sudeste de Espanha.