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Dele Alli: o futebol foi a salvação para o mais jovem goleador da Europa

Avançado de 20 anos leva já 15 golos na Premier League e é a grande esperança do futebol inglês. Mas até chegar aqui, Alli passou das suas: criado por uma mãe com problemas de álcool e sem o pai por perto, acabou a viver com a família de um amigo enquanto ia brilhando no MK Dons, clube em que se estreou, com apenas 16 anos

Lídia Paralta Gomes

Michael Regan/Getty

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O treino era específico. Karl Robinson, treinador do MK Dons, queria mudar a forma como os seus jogadores encaravam os cantos e pediu a um miúdo de 16 anos para se movimentar em direção ao poste e aí finalizar de cabeça.

Bem mandado, o miúdo lá fez o que o treinador lhe pedia. E quando o cruzamento lhe chegou demasiado baixo para a cabeçada, o garoto não se atrapalhou: fez um vólei de calcanhar e marcou. Logo de seguida, atirou a pastilha elástica que estava a mascar para um joelho, passou-a para o outro, depois conduziu-a para o pé direito, pé esquerdo, antes de lhe dar um chuto para o ar e apanhá-la de novo com a boca.

E assim se apresentou Dele Alli ao futebol.

A história foi contada pelo próprio Karl Robinson ao “The Telegraph” e diz muito sobre o talento daquele que é neste momento o mais jovem goleador dos campeonatos europeus: aos 20 anos, e depois de na noite de quarta-feira ter marcado o golo que iniciou a reviravolta do Tottenham contra o Swansea City, Dele Alli chegou aos 15 golos na Premier League, aos quais junta ainda 5 assistências.

Alto, forte, mas rápido, móvel e cheio de técnica, Alli parece uma ave-rara entre os típicos avançados ingleses. E os gigantes europeus estão de olho nele.

Mas para aqui chegar, Alli, nascido Bamidele Jermaine Alli, passou das suas. E talvez daí venha a sua cara fechada ou a decisão tomada no início da época de inscrever o nome “Dele” na camisola, em vez do sobrenome do pai, o nigeriano Kenny Alli, que deixou a família uma semana depois do filho nascer.

“Quero um nome na minha camisola que represente aquilo que eu sou e aquilo que eu sinto. E eu não tenho qualquer ligação ao nome ‘Alli’”, explicou o avançado depois de uma decisão que, sublinhou, “não foi tomada sem muita reflexão”.

Infância complicada

Criado no complicado bairro de Bradwell, em Milton Keynes, arredores de Londres, Alli cresceu “num ambiente familiar difícil, cheio de problemas”, revelou ao “The Telegraph” Mike Dove, responsável pela formação do MK Dons, primeiro clube de Alli antes de chegar ao Tottenham, há duas épocas. Mas, conta o técnico, esses anos foram “importantes para a sua resiliência.

Quando se repara em Alli, nem parece um miúdo de 20 anos, tal a dureza no olhar. “Ele não é arrogante: apenas quer chegar ao campo e entreter as pessoas”, continua Dove, que diz que a infância difícil tornou Alli “imune ao medo”.

“Nada o assusta”, frisa o técnico.

Até porque é difícil ficares assustado com alguma coisa quando a rua é o teu habitat natural. Sem a presença do pai, Dele e mais três irmãos foram criado pela mãe Denise, que cedo se entregou ao álcool. E como em casa as coisas não eram boas, Alli “vingava-se” na rua, onde passava grande parte do tempo a jogar à bola.

E é da rua que vem muita da sua formação, até porque chegou relativamente tarde à academia do MK Dons, com 11 anos, depois de viver durante algum tempo com o pai, primeiro na Nigéria e depois em Houston, nos Estados Unidos. Hoje não têm relação.

Alli marcou na quarta-feira o golo que iniciou a reviravolta do Tottenham frente ao Swansea

Alli marcou na quarta-feira o golo que iniciou a reviravolta do Tottenham frente ao Swansea

Andrew Couldridge/Reuters

A lutar contra o alcoolismo e querendo afastar o filho dos gangues de Bradwell, Denise acabou por entregar o filho aos cuidados do casal Alan e Sally Hickford, pais de um dos seus colegas no MK Dons. Dele tinha 13 anos. “Sabia que era a única forma dele conseguir o sonho de se tornar jogador profissional”, admitiu Denise numa entrevista ao “Sunday Mirror”. “Foi duro entregar o meu filho, mas foi a sua salvação”.

“Quando ele chegou ao MK Dons encontrou um ambiente seguro, em que as pessoas tomavam conta dele”, lembra Mike Dove, que diz que Alli rapidamente conseguiu levar o futebol de rua para os relvados: “O mais fascinante era o constante desafio a ele próprio. Perguntava-se ‘do que eu faço na rua, o que posso trabalhar num jogo?’”.

Depois de ir viver com o casal Hickford, a evolução de Alli não teve travão: aos 16 anos já jogava na equipa principal do MK Dons e no início de 2015 foi contratado pelo Tottenham, onde aos 19 anos já era titular.

Poucos meses depois da estreia pelos Spurs chegou a primeira chamada à seleção inglesa e em novembro de 2015, na primeira vez que foi titular por Inglaterra, marcou à França.

Denise tinha razão: o futebol foi mesmo uma salvação para Dele Alli.

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