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Condenado por matar uma mulher, ao fim de 6 anos voltou aos relvados. Agora, regressa à cadeia

O caso de Bruno Souza, o assassino que várias equipas de futebol desejam, é um exemplo extremo do dilema entre valores humanos básicos e valores clubisticos

Luís M. Faria

Bruno Fernandes de Souza durante o julgamento

GUALTER NAVES / AFP / Getty Images

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Bruno Fernandes de Souza, o ex-guarda-redes do Flamengo que confessou e foi condenado pelo assassínio de uma mulher em 2010, afinal não vai continuar a sua carreira futebolistica para já. Em março, um magistrado do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro tinha dado provimento a um recurso de habeas corpus e libertara-o. Agora, um coletivo do mesmo tribunal revogou essa decisão. Os ministros (assim se chama aos juízes do STF) negaram o argumento principal do habeas corpus – que o recurso de Fernandes de Souza estava a demorar muito a decidir – notando que as manobras da defesa têm contribuído bastante para a demora.

Durante o seu breve período em liberdade, o guarda-redes assinou pelo Boa Esporte, um clube da II Divisão brasileira. Muitos adeptos acolheram positivamente a decisão, pois é raro um clube de segunda linha ter na sua equipa um jogador de nível internacional. Mas houve muitas vozes a criticar a contratação, em público e nas redes sociais. Uma fã que o fez relatou depois que tinha sido insultada e ameaçada na rua, vendo-se obrigada a apagar a sua página de Facebook.

Atualmente com 32 anos, o guarda-redes estava no auge da sua carreira quando cometeu o ato que a destruiu. Sendo casado, teve relações com uma mulher, Eliza Samudio, alegadamente durante uma orgia. Em resultado, ela engravidou. Tentou convencê-la a abortar, mas Samudio recusou. Deu à luz e foi a tribunal exigir o reconhecimento da paternidade. Seguiram-se pressões e violências, concluídas com um assassínio brutal, cometido numa quinta do jogador com a ajuda de um ex-polícia e reputado psicopata, "Bola" de alcunha, que terá espancado e estrangulado a vítima.

O cadáver terá depois sido lançado aos Rottweiler que havia na quinta, e os ossos sepultados por baixo de cimento.

Inicialmente, Fernandes de Souza negou tudo, mas um primo mais novo deu informações à polícia e vários alegados participantes foram presos. O jogador acabaria por confessar o crime, mas o julgamento só se realizou três anos após o crime. A condenação final, a 22 anos de cadeia, foi considerada baixa pela família da vítima, em especial dada a possibilidade de o criminoso ser posto em liberdade após uns escassos anos de detenção.

Também parece notória a sua falta de arrependimento. Mesmo agora, ele fala do assassínio de Samudio em termos que sugerem indiferença; sim, uma coisa má aconteceu, mas a vida segue em frente.

Na conferência de imprensa da sua apresentação como jogador do Boa Esporte, era proibido fazer perguntas sobre o caso.

Mesmo assim, um jornalista teve coragem: “Queria saber a sua opinião: porque acha que merece vestir a camisa de um time de futebol novamente, depois de condenado por um crime tão bárbaro?”. O jogador disse que não respondia à pergunta.

A NFL

A questão colocada pelo jornalista tem tido outras interações nos últimos anos, em versões menos dramáticas mais ainda assim horríveis. Ray Rice, jovem estrela do futebol americano, ficou com a carreira destruída em 2014 após o aparecimento de um vídeo onde esmurra a sua então noiva (atual mulher) num elevador. Ela cai desmaiada, e Rice nem lhe tenta prestar socorro, limitando-se a afastar-lhe o corpo com os pés para sair do local. Embora a mulher tenha depois defendido Rice, explicando que a culpa também foi dela por o ter agredido verbalmente, o clube de Rice, Baltimore Raverns, revogou-lhe o contrato e a Nacional Football League suspendeu-o sem prazo definido.

Ele conseguiu revogar a suspensão em tribunal, mas do Ravens apenas conseguiu uma indemnização. Há meses, admitiu ter percebido que a sua carreira terminara logo em 2014; hoje, dedica-se a combater a violência antimulheres e promete doar a essa causa 100% do seu salário a qualquer equipa que aceite contratá-lo.

O seu exemplo ilustra bem o grau de rejeição que esse tipo de casos gera nos Estados Unidos, em especial nos desportos "de família" (o boxe é uma conversa diferente, a julgar por exemplos como o de Mike Tyson). A situação na Europa varia. No Reino Unido, a história de Ched Evans pode servir de ilustração. O futebolista do Sheffield United foi condenado por violação – de uma adolescente – e cumpriu mais de dois anos de uma pena de cinco. Quando foi libertado, o Sheffield tentou voltar a contratá-lo, mas as relações públicas e a oposição de muitos patrocinadores, e até de atletas, fez os responsáveis desistirem.

Anos depois, o seu caso voltou a ser julgado e o tribunal absolveu-o, por dúvidas entretanto suscitadas sobre a sua alegada vítima, que aliás não se recorda de nada.

Evans, entretanto, fora contratado por um clube muito menos importante – o Chesterfield, onde foi recebido em festa mesmo antes de ser absolvido – e na semana passada houve notícias de que estará prestes a voltar ao Sheffield, cuja direção sempre terá visto o problema em termos do dano provocado ao clube com a prisão do jogador. Na altura, Evans era absolutamente essencial. Hoje não o será tanto – o clube tem-se saído bastante bem nos últimos tempos – mas há a sensação de que algo ficou por resolver, ou uma justiça por fazer. Ao jogador e ao clube.