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O último dos bad boys fez a sua última aposta – e isso custou-lhe a carreira

Joey Barton, um dos últimos bad boys do futebol, anunciou a reforma antecipada após a Federação Inglesa de Futebol lhe aplicar uma suspensão de 18 meses, por participar em apostas online. O inglês, de 34 anos, admitiu ser um viciado em apostas desportivas e que chegou a apostar na derrota de equipa que representava. Mas queixou-se de que os futebolistas vivem num ambiente que fomenta as apostas: “É como pedir a um alcóolico em recuperação que passe todo o seu tempo dentro de bares”

Diogo Pombo

Clive Brunskill

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Um jogador inglês, de 34 anos, foi esta quarta-feira suspenso pela Federação Inglesa (FA) de futebol por 18 meses. O futebolista em causa fez as contas e concluiu que só poderá voltar a jogar aos 36, pelo que decidiu “acabar prematuramente” com a carreira. Ele está a ser castigado porque, entre 2006 e 2014, fez 1.260 apostas online em jogos de futebol, várias das quais em partidas do clube que representava na altura.

Faltou escrever quem é este jogador. Por isso, vamos jogar ao “Quem é Quem”.

Ele tem um site próprio, uma espécie de blogue, onde disserta sobre tudo e mais alguma coisa. Uma revista inglesa escolheu-o como o Aliado Hetero do Ano, pela defesa dos homossexuais no futebol. Às coisas boas sempre acrescentou umas quantas más, como a vez em que apagou um cigarro aceso no olho de um companheiro do Manchester City, durante a festa de Natal do clube, ou esmurrou outro até o deixar inconsciente, a meio de um treino.

Teve problemas com o álcool, que ultrapassou, e continua a ter alguns com o que vulgarmente chamamos de “ferver em pouca água”, que está a tentar ultrapassar. Já esteve na prisão e até já gozou com o nariz de Zlatan Ibrahimovic, de quem muito poucos troçam por ser maior, mais duro e com mais mau feitio que toda a gente.

Se ainda não adivinhou, esta pessoa é Joey Barton.

Alex Livesey

Tínhamos ouvido falar disto, pela última vez, em novembro. Estava no Glasgow Rangers e o clube escocês já o tinha suspendido por três semanas, por se ter envolvido numa discussão mais acesa com Andy Halliday, companheiro de equipa. Pouco depois, seria investigado pela federação de futebol do país, por ter apostado na derrota do Celtic - que, por acaso, é o rival dos rivais do Rangers, dois clubes que não se podem ver à frente - contra o Barcelona, na Liga dos Campeões. Tudo isto motivou a rescisão do contrato com o clube de Glasgow, que o levou, em janeiro, a assinar pelo Burnley, da Premier League inglesa.

Fez 13 jogos, o último dos quais este fim de semana, em que o vimos lento, pesado, a mostrar o peso da idade a correr atrás de Anthony Martial. Incapaz de evitar o segundo golo com que o Manchester United venceu a sua equipa, após perder uma bola a meio campo.

Um dia passou e Joey Barton recorreu ao próprio site para reagir à suspensão que a FA lhe aplicou. Num comunicado com 19 parágrafos, o inglês, que também foi multado em cerca de 35 mil euros, aceitou o castigo, embora lamente a sua “dureza”, argumentando que “uma suspensão de 18 meses é maior que várias suspensões impostas a jogares que jogaram em jogos nos quais apostaram na derrota da própria equipa”.

Ao contrário de Barton. E aqui entra a dissertação que o jogador fez sobre o problema das apostas desportivas.

Nascido e com infância num bairro pobre de Liverpool, Joey cresceu rodeado de apostas. É algo cultural. “Desde que me lembro que a minha família me deixou preencher os meus próprios cupões. Membros mais velhos da família colocavam apostas por mim em grandes corridas, por exemplo”, escreveu. Barton viveu num meio em que é normal apostar em tudo quanto é desporto, daí que “hoje raramente compita sem que algo esteja em jogo” - seja numa partida de golfe com os amigos ou num jogo de dardos com companheiros de equipa, como exemplificou.

Joey Barton admitiu que tem uma conta na Betfair, com nome, morada e passaporte próprios, desde 2004 - ou seja, quando cumpriu a segunda época como sénior. “Fiz cerca de 15.000 apostas numa série de modalidades. Pouco mais de 1.200 foram feitas no futebol, pelas quais estou a ser acusado. O valor médio das apostas era de 120 libras [cerca de 140 euros], muitas foram de apenas algumas libras”, confessou.

O problema, escreve mais à frente, é que, entre 2004 e 2011, fez “uma mão cheia” de apostas na derrota da equipa em que jogava.

A última dessas apostas foi “há seis anos”, numa partida de reservas, quando Barton estava a passar por um “período particularmente problemático” e a FA “nem de perto era tão rígida como é hoje em relação às apostas desportivas”. O jogador admitiu que é viciado em apostas e que, muitas vezes, apostava na derrota da própria equipa como “uma expressão de fúria e frustração por não ser convocado, ou por não poder jogar”. Barton, contudo, garante que nunca esteve envolvido com a equipa e que a sua capacidade em “influenciar o desenlace de um jogo não era maior do que a influência que teria numa aposta numa partida de dardos, de snooker ou de cricket”.

Jan Kruger

Ele que já teve problemas com o álcool, continua a ter com o mau feitio e, em parte, culpa o vício nas apostas no próprio futebol - que diz fomentar esta prática.

Barton aceita o castigo e diz compreender o porquê de as regras “estarem a ser fortalecidas”. Mas, como sempre o faz, resolveu dissertar sobre a cultura de apostas que está cada vez mais enraizada no futebol. O inglês começou por defender que a Federação Inglesa de Futebol “tem de aceitar que há um choque gigante entre as regras e a cultura”.

Porque qualquer pessoa que veja futebol pela televisão, ou no estádio, argumento, é “bombardeado pelo marketing, pela publicidade e pelos anúncios de empresas” de apostas. “Digo isto sabendo que, cada vez que visto a camisola do meu clube, estou a fazer publicidade a uma casa de apostas”, resume, aludindo à Dafabet, empresa que patrocina o Burnley. De facto, outros nove clubes da Premier League têm o logótipo de uma empresa de apostas estampado na camisola.

Resumidamente, ele diz que o futebol "não é um ambiente fácil" para alguém deixar de fazer apostas. E quis ir pela via do sentido figurado e de uma comparação a que chamamos metáfora, para se fazer entender - "É como pedir a um alcóolico que passe todo o seu tempo num bar".

O jogador escreveu ainda que, “como sempre”, vai aceitar as consequências dos seus “erros”. Barton, contudo, folgou em saber que o painel que o investigou concluiu que “não há quaisquer suspeitas de ter participado em esquemas de combinação de resultados”. Como tal, resolveu publicar a lista dos jogos da própria equipa nos quais apostou, salientando que, para ele, “as apostas nunca foram uma questão de ganhar dinheiro, mas de provar que conseguia prever o resultado do jogo que estava a ver”.

Por fim, Joey Barton lamentou que, se não fosse um jogador tão controverso, a suspensão seria mais curta - “Jogadores que não estiveram em jogos nos quais colocaram apostas nunca foram suspensos por mais de seis meses”.

Isso, lá está, já é culpa de ser um dos últimos bad boys do futebol.