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Na semana em que morreu um adepto italiano, o Expresso conta-lhe como são e como se fazem os confrontos entre claques num contexto de tensão entre clubes

Pedro Candeias e Hugo Franco

Na semana em que morreu um adepto italiano, 
o Expresso conta-lhe como são e como se fazem os confrontos 
entre claques num contexto de tensão entre clubes

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Não era suposto ter acabado assim. Há um limite para estas coisas, regras que não estão escritas mas que são para cumprir. Por exemplo, não se levam armas de fogo ou armas brancas, e no entanto poderá ter passado pela mão de alguém uma faca militar de 27 centímetros. Também é suposto o vencedor levantar o derrotado do chão, e naquela madrugada nenhum dos lados ganhou. E há uma moral no meio dos Ultras que diz que um Ultra nunca mata, e Marco Ficini perdeu a vida, atropelado por um carro conduzido por Luís Pina, mais conhecido por “Tanolas”. Aconteceu durante o confronto entre adeptos do Sporting e do Benfica, na madrugada do dérbi de 22 de abril (1-1). Houve pedradas, viram-se bastões de basebol, barras de ferro e soqueiras, e foi violento, “muito violento”, diz quem tomou lugar na rixa. Foi tão violento que “nem deu para ver bem quem bateu em quem e com o quê”.

Marco Ficini tinha 41 anos e não era a primeira nem a segunda vez que viajava de Itália para assistir ao dérbi de Lisboa. Era adepto da Fiorentina e tinha muitos amigos sportinguistas, porque a sua claque, a 7 Bello, e a do Sporting são ‘irmãs’ desde o dia em que o antigo líder da Juve Leo Miguel D’Almada fez a ponte entre ambas. Ficini era um homem corpulento e já estivera metido em contextos semelhantes com os 7 Bello. Por sua vez, Luís Pina é adepto do Benfica e faz parte dos No Name Boys, estava referenciado pela polícia por confrontos com adeptos em Alvalade, em 2011, e fora investigado pela PSP por tráfico de droga. O “Tanolas” entregou-se às autoridades na quinta-feira, cinco dias depois da morte de Ficini. Cinco dias depois de um carro ter arrastado um corpo no alcatrão. É aqui que a história segue por dois caminhos.

O carro e os ocupantes

Era uma da manhã, mais coisa menos coisa, quando o primeiro grupo avançou para a Luz. Era composto por 15 Ultras, os Casuals, os adeptos autointitulados independentes das claques de Alvalade que em 2013 estiveram envolvidos em rixas no Porto; depois, sete ou oito carros trouxeram elementos da Juve Leo dentro deles, e Marco Ficini chegou com eles. Os No Name Boys (NN) dizem que foi a Juve Leo (JL) a começar, por terem pintado a estátua de Cosme Damião de verde; a JL diz que isso só aconteceu porque os NN tinham estado em Alvalade horas antes. Foi tudo muito rápido e estava escuro. Cerca de 100 homens, 60 do lado benfiquista e 40 do lado sportinguista, embrulharam-se, agrediram-se e feriram-se; e depois aquilo. “O carro arrastou o Marco durante 30 metros, parou, voltou atrás ainda com o corpo debaixo dele e voltou a ir-se embora, passando mais uma vez por cima do corpo.” Segundo um Ultra sportinguista, “estavam três pessoas dentro do carro” que matou Ficini. Carlos Melo Alves, advogado de Luís Pina, diz que não. “Ele entrou no carro sozinho, e, quando se ia embora do local, elementos da Juventude Leonina fizeram-lhe uma espera e destruíram-lhe o carro.”

Luís Pina ter-se-á encontrado com o advogado logo no sábado, no dia das agressões. A ideia era entregar-se no momento, mas “teve receio das consequências, ao aperceber-se do impacto das notícias”. Pina, diz o seu advogado, decidiu esperar. Passou o 25 de Abril escondido. E no dia seguinte Melo Alves fez um requerimento ao Ministério Público e à Polícia Judiciária: “O meu cliente vai entregar-se na quinta-feira.” A defesa do “Tanolas” sustenta-se na tese do acidente e não do homicídio. Seguem-se os argumentos. Carlos Melo Alves fala de uma barra de ferro que ainda se encontrava no interior do carro quando este foi descoberto dias depois pela polícia, numa casa abandonada, na Amadora. “Com medo daquela multidão de adeptos do Sporting, ele [Luís Pina] pôs-se em fuga, acabou por apanhar o adepto italiano, que foi arrastado no atropelamento.” O carro como veículo para a morte que fechou uma noite violenta num palco urbano, a cinco quilómetros do centro da capital.
Correu tudo ao contrário e talvez por isso tenha corrido tudo mal.

Do outro lado da ponte

Os adeptos não são todos iguais. As claques também não. O Sporting e o FC Porto têm as suas, e estão todas legalizadas — Super Dragões e Coletivo Ultras 95 (FCP); Juventude Leonina, Torcida Verde, Diretivo Ultras XXI e Brigada Ultras Sporting (SCP). As do Benfica estão ilegais (No Name Boys e Diabos Vermelhos), e este é um tema recorrentemente discutido no faroeste do futebol português (ver P&R). Bruno de Carvalho (BdC) acusa Luís Filipe Vieira (LFV) de apoiar encapotadamente os NN e diz que estes operam à margem da lei, sem qualquer supervisão, o que deixa o clube a salvo de sanções. Quando Ficini morreu e se percebeu que o condutor do carro era dos NN, BdC pediu a LFV que se distanciasse publicamente dos NN. Não aconteceu. Fonte próxima dos NN contraria a legalização, garante que é apenas uma “forma de a polícia ter acesso a uma base de dados gratuita” e que os desarranjos e os esquemas e as confusões são iguais em todo o lado. E acontecem na outra margem.

Antes ou depois dos grandes dérbis, há encontros espontâneos. Sucede que as casas do Benfica e os núcleos do Sporting ficam na vizinhança, e a possibilidade de uma rixa começar é grande. A probabilidade também. “Almada, Costa da Caparica, Feijó. Há muitos confrontos variados”, diz-nos um homem que costuma entrar nestas lutas de rua. Mas há outra forma de fazer isto, com marcação prévia: um líder combina com outro líder uma hora e um lugar, numa zona descampada, num terreno abandonado ou no mato, sítios onde a polícia não vai.

É neste ponto que se fala de regras. Carne na carne, “não há facas nem pistolas”, a não ser quando alguém fura os acordos, e então puxa-se das lâminas; e os grupos têm de equivaler-se em número: 25 contra 25, 50 contra 50, Casuals contra Casuals, com ou sem luvas... Luta-se, e aquilo acaba ali. “Pode parecer estúpido e difícil de acreditar, mas muitos dos que entram em confrontos conhecem-se uns aos outros”, diz uma fonte.

Há quem tenha começado nisto novo, pela mão do pai aos 11 anos, com um ritual de iniciação pelo meio, que consiste em entrar num confronto sem a ajuda dos mais velhos. “Aos 16 anos, levámos uma bela coça dos Ultras do Porto. Era para ver se aguentávamos sozinhos.” Tal e qual o filme “Rebeldes do Bairro”, de 2006, com Elijah Wood e Charlie Hunnam.
A ideia não é agredir por agredir, mas agredir com o propósito de mostrar quem manda na cidade, quem tem mais poder na rua. “Crianças e idosos não. Só confrontamos quem procura e quer confronto.” Não tem a ver especificamente com futebol, mas é por causa do futebol. E é tribal e territorial. O clube é o clã com o qual se identificam e que querem defender.

Para o fazerem, estes tipos praticam artes marciais, MMA, free fight, treinam em ginásios... São fortes, musculados e sabem bater. E os que não sabem são ensinados. “Uma vez por ano alugamos uma casa bem longe de Lisboa e levamos para lá 100 a 150 pessoas que querem aprender a lutar.” É o campus de férias deles.

O escritor Arthur Koestler pôs as coisas da seguinte forma: “Existe o nacionalismo e o nacionalismo futebolístico, que é um sentimento muito mais forte.” Rinus Michels, o pai da “Laranja Mecânica” holandesa, foi mais longe: “Futebol é guerra.” E na guerra há sempre vítimas. Talvez fosse mesmo suposto que a noite de 22 de abril tivesse acabado como acabou.

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