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Ele foi a razão para os espanhóis chamarem “chilena” ao que o resto do mundo chama bicicleta

David Arellano morreu há 90 anos. Uma efeméride importante por ter sido o motivo pelo qual todos os países que falam castelhano dizerem a mesma palavra quando alguém faz um pontapé de bicicleta - David era chileno, tornou-se um dos fundadores do Colo-Colo, morreu praticamente a jogar futebol e foi quem popularizou a chilena na Europa. E esta é a sua história

Diogo Pombo

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Dizer, com certeza, quem inventou o quê, é como brincar com o fogo. São duas coisas muito difíceis de domar, e há uma razão para se preferir a segurança de um isqueiro contra o dar uma chance ao risco quando seguramos num fósforo. A mesma que se aplica ao brincar com a autoria das invenções - o melhor é jogar pelo seguro.

O que, escrito por outras palavras, nos diz que há coisas que terão mais hipótese de dar certo do que outras. É por isso que houve um jornalista inglês, chamado Walter Bagehot, que nada escreveu sobre futebol (que se saiba), mas que me foi devolvido por uma pesquisa, a dizer que “a vida é uma escola de probabilidade”.

Portanto, e seguindo o raciocínio, se existe no futebol um pontapé que é espetacular, difícil de acertar e, sobretudo, raro, que a segunda língua mais falada no mundo conhece como “chilena”, o mais provável seria que tivesse vindo do Chile, não?

Faria sentido que assim o fosse. O futebol, porém, começou a chutar numa bola não no século passado, mas no anterior a esse. Foi mesmo há muito, muito tempo, um tempo tão afastado deste em que estamos que câmaras, fotografia, televisão e imagens em direto eram coisas que existiam em muito poucos sítios.

Daí ser tão difícil escrever que foi David Arellano a inventar a coisa pela qual é, talvez, mais conhecido - a chilena.

A palavra aparece em itálico porque é castelhana e dita por espanhóis, argentinos, uruguaios, peruanos e por aí fora na lista dos países que falam a língua. Onde está o Chile, país em que Arellano nasceu, em 1902, se aprendeu a jogar à bola com o pai e os irmãos, que eram dois. Tinham tanto jeito que os três filhos, às tantas, jogavam no Magallanes, um clube de Santiago do Chile e um dos maiores da altura. Tão grande que eles venceram dois títulos nacionais seguidos, em 1920 e 1921.

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Estes tempos são tão longínquos que, na altura, David Arellano e os restantes jogadores do Magallanes tinham que pagar uma quota mensal para poderem pertencer ao clube. David, como capitão da equipa, começou a insurgir-se contra este e outros aspetos: exigia as quotas acabassem e que o clube começasse a pagar por básicos como equipamentos, chuteiras ou despesas de saúde. O que seria normal e expectável hoje foi ousado e rebelde na altura. Os jogadores foram reprimidos pelo clube e David Arellano deixou de ser capitão.

Ele e os irmãos, Francisco e Alberto, fartaram-se - e resolveram desertar. Abandonaram o Magallanes, convenceram outros jogadores, decidiram fundar um clube e inspiraram-se no nome de um cacique - chefe de uma tribo índia chilena, que se revoltara contra os invasores espanhóis. Tudo aconteceu em 15 dias, dizem.

Chamaram-lhe Colo-Colo.

O clube foi criado em 1925 e, com o tempo, foi-se aproximando de um tempo mais parecido com o de hoje, muito por culpa de David Orellano. Além de futebolista, ele era professor de Educação Física numa escola em Santiago, e diz-se que a forma como planeava os treinos, estabelecia horários, marcava estágios e tentava coisas que antes não se viam foi sendo o exemplo no país.

Dois anos passaram e o Colo-Colo, já campeão nacional, negociou com a federação de futebol chilena uma digressão à Europa. Arellano, escreve a revista Panenka, insistiu na ideia porque, no ano anterior, quando jogou a Copa Sul-Americana com a seleção, reparou como os argentinos ou uruguaios, que já atravessavam o Atlântico para se compararem a equipas europeias, tinham um quê de nível físico, técnico e tático que os chilenos não conseguiam ter.

E ele conseguiu que o Colo-Colo se tornasse no primeiro clube do Chile a ir jogar à Europa.

Começaram na Corunha e desceram até Portugal, onde fizeram dois jogos - um contra o FC Porto e o outro, em Lisboa, frente a uma espécie de seleção da capital, cheia de jogadores do Benfica e do Sporting. Regressaram a Espanha e jogaram contra o Atlético de Madrid antes de chegarem a Valladolid. Em quase todas as partidas, diz-se, David Arellano esperava que uma bola lhe chegasse pelo ar, punha-se de costas para a baliza, saltava, dava uma acrobacia ao corpo e chutava a bola à baliza. Era um pontapé de bicicleta, algo que portugueses e espanhóis nunca tinham visto.

Era um pontapé estranho, algo que portugueses e espanhóis nunca tinham visto. Nós, que o vimos chutar na bola com uma espécie de pedalar, apanhámos boleia dos brasileiros e do que eles dizem que já tinha inventado - com Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”. E chamámos-lhe um pontapé de bicicleta. Eles, que partilham língua com os chilenos e viram um chileno a fazer tal coisa pela primeira vez, chamaram-lhe chilena.

Los Sports/Wiki Commons

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Saber quem o fez é difícil e voltamos à conversa das probabilidades e das hipóteses e do que é mais provável. Não há vídeo ou fotografia que o prove, mas se um mito e uma lenda e um passa palavra durou desde 1927, por algo será.

Terá sido pelas chilenas que Arellano fez e pela forma como não saiu de Valladolid. A meio do segundo jogo que o Colo-Colo fez contra o clube da cidade, o capitão saltou a uma bola com David Hornia, com quem embateu no ar. Na queda, o central espanhol caiu com os joelhos em cima do abdómen do chileno, que sentiu logo fortes dores. Abandonou o jogo, foi transportado para um hospital e lá lhe foi diagnosticada uma peritonite (inflamação ou infeção no tecido que reveste os órgãos contidas no abdómen). Incurável e inoperável, concluíram os médicos.

No dia seguinte, David Arellano, o capitão do Colo-Colo, um dos fundadores, o canhoto com jogo sóbrio e elegante, que fintava e corria e remata e especializou-se numa outra forma de rematar, falecia. Com dois anos de vida, o clube perdia o pai e a referência.

Só em 1975 o consegui honrar com um estádio, o Monumental David Orellano, em Santiago, que seria fechado pouco depois, devido às parcas condições de segurança. Foi reinaugurado apenas em 1989, a tempo de ver o Colo-Colo vencer, em casa, a única Copa dos Libertadores que tem no museu.

Ainda é o maior título do clube que idolatra o chileno que para eles, e para muita gente, inventou a chilena.

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