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N’Golo Kanté: dois anos, dois clubes e dois títulos de campeão para o médio que poderia ser contabilista

O médio francês igualou o feito de Eric Cantona. Foi um dos pilares do Leicester do ano passado e conquistou um lugar no Chelsea que lhe valeu a distinção de melhor jogador do ano

Francisco Perez

Richard Heathcote/Getty

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É baixo, mas rápido. Não é muito forte fisicamente, mas enche o campo como poucos. Joga a médio defensivo, mas é um autêntico todo-o-terreno. Foi uma peça fundamental para Claudio Ranieri e, agora, para Antonio Conte. Esta é a história de N’Golo Kanté, médio que se sagrou campeão inglês por dois clubes diferentes em dois anos, algo que apenas Eric Cantona, ex-jogador do Manchester United, tinha conseguido.

Quando o extremo francês chegou ao Leeds, em 1991, Kanté tinha nascido há poucos meses. Nessa época, o então jogador de 26 anos ajudaria os “peacocks” a vencerem o campeonato, numa temporada discreta em que apontou apenas três golos. No entanto, arrancou em força no ano seguinte, tendo sido contratado para a ajudar o Manchester United a conquistar um título que lhe fugia desde 1967.

Cantona era o único jogador da Premier League a ser campeão por dois clubes diferentes em dois anos seguidos. Eis que surgiu Kanté para se juntar a um dos mais emblemáticos camisolas “7” de Old Trafford.

Filho de pais malianos que emigraram para França, N’Golo Kanté nasceu nos subúrbios de Paris a 29 de março de 1991. Começou por dar os primeiros toques na bola aos dez anos, no Jeunesse Sportive de Suresnes, um clube amador da capital.

Como qualquer profissional, desde cedo ambicionava voos mais altos, mas deparava-se com dificuldades em convencer outros dirigentes. Prestou provas no Amiens, no Sochaux, no Rennes, no Lorient e no AS Beauvais Oise, mas todos acreditavam que a sua baixa estatura seria um entrave ao seu desenvolvimento.

A humildade acima de tudo

As rejeições não impediram o jovem jogador de continuar a lutar por um lugar noutro clube. Eventualmente, por intermédio do presidente do emblema parisiense, Kanté chegou à equipa B do Boulogne em 2010 para mostrar o seu valor, pois o filho de Jean Pierre Perrinel alinhava naquela formação.

George Tournay, técnico que trabalhou com o médio no clube, acredita que as recusas dos outros emblemas ajudaram a moldar o seu carácter. “Foi rejeitado tantas vezes que isso acabou por forjar nele uma vontade de ferro, porque nunca desistiu. Tenho a certeza que sofreu por causa disso, apesar de nunca ter falado no assunto”.

Na época seguinte chegou à equipa principal do Boulogne onde, para além de começar a mostrar as suas qualidades, evidenciou uma enorme humildade ao deslocar-se para os treinos… de scooter.

“Quando o vi chegar para treinar numa scooter, percebi que ele estava um pouco envergonhado, mas nunca disse nada. Quando os colegas viram que ele ia para os treinos a pé ou então de scooter, disseram-lhe: ‘N'Golo, podemos dar-te boleia. Onde vives?’. Depois organizaram-se e a cada dia um colega ia buscá-lo a casa”.

Em 2013 deu o salto para o Caen, que militava na segunda divisão francesa. Participou em 42 jogos, marcou três golos e ajudou a equipa a regressar à Ligue 1.

CHARLY TRIBALLEAU/Getty

A scooter já não servia para os treinos, então havia que optar por algo melhor. E qual o desejo de Kanté? “Ele queria ter um Renault Clio”, revelou Pierre Ville, treinador do francês nos tempos do Suresnes - mas o médio acabou por adquirir um Mégane em segunda mão.

O Caen acabou por subir ao primeiro escalão e Kanté começava a despertar a atenção dos media. Quando a imprensa quis saber mais sobre a história do futuro internacional francês e começou a propor as primeiras entrevistas, o jogador deixou uma resposta curiosa: “Porquê? Para que é isto? Ainda não fiz nada. Porque não voltam daqui a seis meses quando tiver feito algo de especial?”

A explosão no Leicester

Depois de duas temporadas de bom nível em França, Kanté despertou a atenção da direção do Leicester City, que avançou para a sua contratação, por 9 milhões de euros.

Inicialmente todos duvidavam se as suas características (1,69m) se adaptariam ao rigor da liga inglesa, incluindo o próprio Claudio Ranieri. Mas o médio desfez todas as dúvidas, ao contribuir de forma decisiva para o primeiro título de campeão dos “foxes”.

Michael Regan/Getty

Participou em 40 jogos e marcou apenas um golo, mas essa também não é a sua função principal. Numa equipa em que sobressaíam os desequilíbrios de Riyad Mahrez (eleito melhor jogador da Premier League na época transacta) , os golos e a velocidade de Jamie Vardy (segundo melhor marcador do campeonato), poucos davam por Kanté em campo.

Contudo, o seu futebol prima essencialmente por essa matriz. É um médio discreto, parece não estar em campo, tem uma participação fugaz nos lances ofensivos, mas é essencial na recuperação defensiva. Não é um construtor, ainda que por vezes lance os companheiros para o ataque, mas um destruidor de jogo. Acabou a temporada transacta com 71% de cortes eficazes.

A caminhada histórica do Leicester deve-lhe muito. Basta notar que este ano Ranieri acabou por ser demitido em função dos maus resultados da equipa. A perda de um elemento nuclear da equipa revelou-se essencial para a quebra do antigo campeão inglês.

A eleição de melhor jogador do ano pelo Chelsea

Numa equipa que se sagra campeã, é natural haver um conjunto de interessados nos jogadores. Kanté não foi excepção. Vardy e Mahrez mantiveram-se nos “foxes”, mas Antonio Conte foi buscar o internacional francês (foi chamado Didier Deschamps no Euro 2016) por 38 milhões de euros.

“Ele ainda pode melhorar em alguns aspetos, nomeadamente no passe, mas julgo que é um líder silencioso, e um líder por excelência dentro do campo”, referiu o técnico. “Se confias numa ideia de jogo, e se confias na tua equipa, é importante ter um plantel equilibrado. Com pessoas como o N’Golo, jogadores que são muito fortes, ganham a bola, lutam e trabalham com dedicação para a equipa”.

Clive Brunskill/Getty

E a humildade não se perdeu em Londres. Com colegas que recebem salários milionários, que conduzem Ferraris, Lamborghinis, entre outros, o jogador de 26 anos comprou um… Mini Cooper.

O Chelsea sagrou-se campeão inglês pela segunda vez em três anos, e Kanté foi um elemento decisivo nessa conquista. Não pelos golos (dois) mas pelos roubos de bola e pelos pulmões que parecem não ter fim.

Antes da época terminar, foi eleito o melhor jogador da Premier League pela “Professional Footballers Association”, o sindicato dos jogadores em Inglaterra, tendo como “adversários” jogadores como Eden Hazard (Chelsea), Harry Kane (Tottenham), Romelu Lukaku (Everton), Zlatan Ibrahimovic (Manchester United) e Alexis Sanchez (Arsenal).

Pouco tempo depois, voltou a receber a distinção, mas da associação britânica de jornalistas de futebol, superiorizando-se ao companheiro do Chelsea e ao médio Dele Alli (Tottenham).

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É “um dos melhores médios do mundo”, como referiu Frank Lampard, histórico jogador dos “blues”. Mas podia não ter sido assim.

Numa entrevista ao canal oficial da Premier League, Kanté referiu que “costumava fazer contabilidade antes de ser profissional, pelo que se não fosse futebolista, seria esse o caminho”.

Tem 26 anos, é titular indiscutível para Antonio Conte, tem-se assumido como uma opção sólida para Didier Deschamps, e foi campeão por dois clubes, em dois anos consecutivos. O que se segue para o internacional francês?