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Sophie Cook, a primeira transexual na Premier League

Esta é a história do fotógrafo da equipa inglesa AFC Bournemouth: Steve passou a Sophie e a equipa nada fez, a não ser aplaudir

Cláudia Alves Fernandes

Sophie Cook é a fotógrafa do clube da Premier League AFC Bournemouth e é a primeira mulher transgénero no campeonato

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A equipa inglesa AFC Bournemouth ficou conhecida por na época de 2014/15 ter conseguido o que ninguém julgava possível: a subida à Premier League, um feito histórico para a equipa. Atualmente encontra-se a meio da tabela, segurando o 10º lugar com unhas e dentes. Mas não é isso que faz correr tinta hoje em dia. Sobre o clube tem se falado de um membro em particular. O nome do membro é Sophie Cook, a fotógrafa da equipa que, ainda na gloriosa época de Bournemouth, era conhecida como Steve. Isso mesmo, Steve. Sophie mostrou que, também no desporto rei, há espaço para uma mulher transexual.

Em entrevista exclusiva ao The Telegraph, Sophie relembrou o "medo" que sentiu, quando tomou a decisão de abandonar o corpo de um careca de 48 anos, na altura. Porque, desde sempre que Steve sabia que tinha nascido no sexo errado: "Quando estávamos a festejar, depois da subida à Premier League, eu estava aterrorizado. Acreditei que seria a minha última época no futebol, porque não achei que houvesse espaço ou futuro para uma mulher transexual neste meio. Só imaginei uma reação negativa".

Desde esse momento até hoje, mais de dois anos se passaram. Sophie tornou-se na primeira pessoa transgénero a trabalhar na Premier League e foi além disso: candidata-se pelo Partido Trabalhista às eleições de 2017 para East Worthing e Shoreham

Mas mais importante do que isso é que a fotógrafa de 50 anos conseguiu-se livrar dos pensamentos suicidas, que a acompanharam durante maior parte da sua vida. “Eu nem sequer sabia que era possível estar assim tão confortável e feliz”, conta a mulher que desafiou estereótipos no mundo do futebol.

Mas nem tudo foi fácil. Voltando ao princípio, foi no verão de 2015 que Steve regressou ao clube já como Sophie. Quando Rob Mitchell, da direção do clube, soube que o fotógrafo da equipa tinha perdido mais de 30 quilos no verão, ficou preocupado. "Ele pensou que eu lhe ia dizer que estava a morrer, por isso, quando lhe contei a verdade, ele ficou mais aliviado do que chocado", relembra Sophie. E na reunião com a equipa técnica do clube, na qual estavam presentes o treinador Eddie Howe, o assistente administrativo Jason Tindall e o Presidente Jeff Mostyn, todos eles deixaram claro que a permanência de Sophie na equipa "nem era um assunto", estava assegurada. Mas mesmo assim, a ainda insegura fotógrafa quis encontrar-se com os jogadores.

O mundo de Steve era a preto e branco. Mas o de Sophie era a cores. E, por isso, quando se foi encontrar com os jogadores durante um treino, não foi com medo. Foi, sabendo que, pela primeira vez, "estava em paz" consigo. Tidall foi quem fez as honras: reuniu os jogadores num círculo e apresentou a nova, mas já conhecida, fotógrafa da equipa. "Suponho que já tenham reparado que o nosso fotógrafo mudou desde a última época. Apresento-vos a Sophie".

Os segundos de silêncio eram como horas de tortura para a fotógrafa. Foi Tommy Elphick, o capitão da equipa, quem pôs fim à tortura: o jogador que, entretanto foi transferido para o Aston Villa, aplaudiu Sophie – o resto da equipa seguiu-o. "Eu estava-me a preparar para aquele momento, mas não foi assim que imaginei" - foi melhor do que alguma vez tinha pensado.

"Eu fui ao inferno e voltei. Mas nunca, nem nos meus sonhos mais improváveis, pensei que toda a dor porque passei teria um sentido. Mas hoje tem." Depois de passar pelo inferno, Sophie entra em campo completa, num mundo a cores. Os apertos de mão deram lugar aos beijos na cara, que a fazem sentir como a verdadeira mulher que é. Hoje, a Premier League é mais rica, graças à fotógrafa. "No Bournemouth temos o lema 'Juntos é possível'". E isso nunca foi tão verdade.

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