Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Até sempre ou até já, amigos

Este fim de semana vai encerrar a época em vários campeonatos. E vai também fechar à chave a carreira de alguns jogadores, e separar outros dos clubes em que sempre estiveram. Ninguém gosta de despedidas, mas pronto, é a vida

Diogo Pombo

CHRISTOF STACHE

Partilhar

Philipp Lahm

Bayern de Munique-Friburgo (sábado, às 14h30)

Ele começou a avançado, em miúdo. A querer marcar golos e ter olhos para a baliza dos outros, a crescer com vontade de atacar, como a maioria dos miúdos. O tamanho que não tem, a agilidade e a vantagem do centro de gravidade estar mais perto da relva, recuaram-no. Um puto nascido em Munique foi-se colando a um dos lados da defesa, o contrário ao do pé com que chutava mais vezes na bola. Lahm apareceu e fez pela vida à esquerda, com dois anos de empréstimo ao Estugarda e o golo inaugural do Mundial de 2006, e já tinha a vida feita, no Bayern e na seleção, quando começou a jogar sempre à direita.

No largo entretanto que passou, o alemão fez mais de 500 jogos pelo clube papão de Munique, colecionou oito Bundesligas, uma Liga dos Campeões e não sei quantas taças. Dele nunca se viu uma extravagância, saídas da casca, polémicas, saídas à noite, copos a mais ou algo que nos fizesse olhar para ele para lá do que o futebol nos mostrava. Ou uma expulsão - sim, este defesa alemão, campeão do mundo em 2014, só saiu de jogos por se ter lesionado ou ter sido substituído. Aos 33 anos, ele está aí para as curvas, os cruzamentos e as corridas nas costas de Robben, com quem partilhou durante muito tempo a ala direita do Bayern. Mas ele quis deixar-nos agora.

CHRISTOF STACHE

Xabi Alonso

Bayern de Munique-Friburgo (sábado, às 14h30)

O pé com que vou receber a bola. O primeiro toque, para a deixar orientada. A posição do corpo. Com o peito, a parte de dentro, os três dedos de fora, o sítio do pé com que vou bater na bola. Se vou cortá-la, por baixo, ou dar-lhe feito por fora. A força. Se os jogadores fossem máquinas, pensariam em tudo isto antes de passar uma bola de futebol. Como são humanos, sai tudo automático e saído do instinto, dentro de um segundo ou menos. Depois, como tudo na vida, há sortudos a quem este pacote sai melhor que a outros. Ou muito melhor.

Xabi Alonso sempre foi dos que não quiseram correr, fintar, fazer slaloms ou morder os calcanhares a outros. Dos que vivem a passar a bola, pela relva ou pelo ar, para facilitar a vida aos da mesma equipa e dar-lhe o tempo, o espaço e as bolas para fazerem as coisas que ele, pelo físico, pela habilidade, pela predisposição (ou falta delas), nunca fez. Ele vai dizer adeus no Bayern de Munique, onde chegou depois da Real Sociedad, do Liverpool e do Real Madrid. Acabará num clube grande e em grande, como Lahm, e não em algo pequeno para engordar a carteira.

De qualquer foram, ela nunca igualaria, em peso, o museu que o espanhol tem em casa - onde estão as medalhas de dois Europeus, de um Mundial e de duas Ligas dos Campeões.

CHRISTOF STACHE

Gorka Iraizoz

Atlético de Madrid-Athletic Bilbao (domingo, às 15h45)

Existe um clube em Bilbao que faz questão em ser fiel à forma como o criaram e nunca teve jogadores nascidos para lá do País Basco, da região de Navarra e do País Basco francês. Nunca saiu da primeira divisão espanhola, como o Real Madrid e o Barcelona, e tanta façanha, misturada com esta identidade, dizem, ajuda a entranhar o clube e a mística e o sentimento entre quem lá joga. Porque todos sabem onde estão, ao que vão, como cresceram e de onde vieram, que costuma ser comum a quase todos. E por isso é importante que o Athletic Bilbao tenha gente dentro que tenha lá estado desde criança, para dar o exemplo.

Gorka Iraizoz até nem era um destes casos. Ele nasceu em Pamplona, Navarra, e andou em clubes pequenos antes de entrar na equipa B do Athletic, quase com 20 anos. Até jogou no Espanyol de Barcelona, foi a uma final da Taça UEFA e tornou-se conhecido. Só depois retornou e foi cumprindo as dez temporadas com que, agora, se vai despedir do clube. Tem 36 anos, envelheceu a ser titular do clube basco e, com o tempo, fez-se capitão da equipa. Ninguém o reconhecerá como um guarda-redes dos grandes, decisivo nas paradas e com segurança como segundo apelido. Mas é uma figura histórica a quem o clube decidiu não renovar o contrato. Falta saber se isto é um fim ou se vai fazer algo a seguir.

GOGO LOBATO

John Terry

Chelsea-Sunderland (domingo, às 15h)

Contar 19 anos a jogar por um mesmo clube é qualquer coisa. Uma coisa que se torna maior caso o cerne da questão seja o Chelsea. E ainda mais se essa questão gravitar em torno de John Terry. O inglês, defesa central de cara fechada, dentes cerrados e agressividade para o que der e vier, foi criado no clube, quando este ainda era, apenas, o lado azul de Londres. E já era titular quando o Chelsea recebeu os milhões russos de um milionário que provou como, no futebol, o dinheiro é um chamariz para a felicidade.

O inglês foi ficando e capitaneando os londrinos entre os títulos com Mourinho, Ancelotti, o português de novo e agora, com Ancelotti, embora na sombra. Esta época foi a primeira em que o central passou a vida sentado e no banco, a sentir os 36 anos e a não acrescentar muitos jogos aos mais de 700 que tem no Chelsea. Esteve para sair do clube a época passada, ficou, mas já não passará desta. O inglês está a manter o suspense e ainda não anunciou se vai, ou não, entrar na reforma. Se o fizer, é mais um one club man a dizer adeus.

Richard Heathcote

Alan

Tondela-Braga (domingo, às 18h15)

Tem umas tranças à Stevie Wonder, um visual, portanto, parecido, mas com muitos quilos a menos - e uma visão que sempre lhe valeu de muito a jogar por cá. Alan joga há 16 anos em Portugal e contou os últimos nove em Braga, onde, se aparecer nesta última jornada do campeonato, terá contado os últimos 400 dos mais de 500 jogos que acumulou na primeira liga.

Ele chegou à Madeira, apanhou um avião para o Porto, foi campeão, emprestaram-no a Guimarães e dali seguiu para a outra cidade grande do Minho. Brasileiro, extremo de ginga e de remates com o peito do pé e cheios de efeito, Alan sempre foi um jogadores da estirpe dos que nunca se afirmaram nos grandes - mas que sempre lhes fez a vida negra quando os defrontou. Aos 37 anos ainda apareceu em mais de 30 partidas esta temporada. Resta saber se ainda tem energia e vontade para mais uma época.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

P.S. No próximo fim de semana pode haver mais. Porque, em Roma, mora um senhor chamado Francesco Totti.