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#futebol. Deixem o Renato Sanches em paz

Nelson Marques

Renato Sanches não teve uma época feliz no Bayern de Munique

Foto Michael Dalder/Reuters

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Os abutres não largam o Renato Sanches. Rondam-no a toda a hora, à espera de se abaterem impiedosamente sobre a sua carcaça. Primeiro era a idade do então jogador do Benfica: se jogava tão bem, então não podia ser tão novo. E se era de facto tão novo, então seguramente não podia ser tão bom. A cada perda de bola, a cada passe que não chegava ao destino, a cada remate sem direção, lá estavam os abutres: o Renato não joga nada, é um produto da imprensa e do marketing do Benfica.

Depois, veio a mudança para o Bayern de Munique, da Alemanha. 35 milhões de euros, 80 milhões no horizonte caso fossem atingidos determinados objetivos. Um embuste, gritaram os abutres. E a cada vez que o jovem médio ficava no banco, eles regozijavam. "É um flop!", sentenciavam. Que importa que seja um dos nossos, que importa que tenha ajudado à página mais bonita da história do futebol português?

Agora que Fernando Santos o deixou de fora da Taça das Confederações depois de uma época apagada na Alemanha, os abutres aí estão de novo. São os mesmos que criticaram quando foi convocado para o Europeu de França. Os mesmos que depois vibraram com a arrancada triunfal de uma área à outra que resolveu o jogo com a Croácia nos oitavos de final e berraram o golo à Polónia que nos manteve na prova, nos quartos.

Com 19 anos, Renato é campeão nacional em Portugal e na Alemanha, o mais novo campeão europeu de sempre, o melhor jovem jogador da prova e acabou o ano de 2016 com o prémio de melhor futebolista da Europa com menos de 21 anos, um troféu que já foi conquistado por Lionel Messi, Wayne Rooney, Cesc Fabregas e Paul Pogba, entre outros. Foi o único português a receber essa distinção (sim, nem mesmo Cristiano Ronaldo, o papa-troféus, a conseguiu). Nada mau para um flop.

tiago miranda

Às vezes esquecemo-nos de que ainda não fez 20 anos, que está na sua primeira época fora de Portugal, num país onde não domina a língua, numa equipa onde disputa o meio-campo com jogadores como Xabi Alonso, Arturo Vidal ou Thiago Alcântara. O Bayern de Munique, pentacampeão da Alemanha, colosso do futebol europeu, não é propriamente o deprimido Inter de Milão, que está no 7.º lugar do campeonato italiano e falhou a classificação para as provas europeias. João Mário, transferido do Sporting, também terminou a época no banco da equipa transalpina, mas há alguém que, honestamente, possa duvidar do seu valor?

Com a idade de Renato, João Mário, andava pela equipa B do Sporting, onde marcou 1 golo em 31 jogos, antes de ser emprestado ao Vitória de Setúbal no ano seguinte. Gelson Martins, a nova pérola de Alvalade, também jogava nos "bês", na II Liga portuguesa. Alguém acredita mesmo que hoje tirariam o lugar a Robben no Bayern? Ou que André Silva, do FC Porto, remetesse Lewandowski para o banco?

É provável que Renato tenha saído cedo demais do Benfica, mas aqueles que torcem pelo seu insucesso não se apressem a fazer-lhe o funeral. Ainda vai muito a tempo de confirmar todo o talento que revelou na época passada. Talvez esteja na hora de regressar à Luz, onde é reconhecido e acarinhado. Mas isso, estou certo, nem eles que duvidam do valor dele querem.