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As últimas 24 horas de Arda Turan: um jornalista, uma agressão no avião e o adeus à seleção

O médio do Barcelona anunciou, esta terça-feira, que não voltará a jogar pela seleção da Turquia, por ter feito “coisas equivocadas” com camisola do país. Essas coisas foram estas: durante uma viagem de avião, agarrou um jornalista turco e esmurrou-o devido um artigo que ele escrevera sobre Arda Turan

Diogo Pombo

STR

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Jogadores, treinadores e staff da seleção, mais o presidente da federação, todos turcos, estavam no mesmo avião. Regressavam de Skopje, onde, na segunda-feira, tinham jogado e empatado sem golos contra a Macedónia. O voo ia aterrar em Trieste, norte de Itália, para dali seguirem rumo à Eslovénia, para jogarem contra o Kosovo. Assim contada, a história, banal e entediante, tem tudo nos conformes. O problema está na história que aconteceu dentro do avião.

Porque Arda Turan, o barbudo turco, de cara simpática, que é uma meia-estrela para nós e um pequeno deus no país dele, por jogar no Barcelona e ser capitão, há anos, da seleção, viu lá alguém. E o problema começou quando ele reparou que Bilal Mese, um jornalista desportivo turco que escreve para o “Hürriyet”, também estava no avião, sentado entre ele e os restantes jogadores da seleção.

Foi aí, contou o mesmo jornal turco, que as coisas aqueceram.

Arda reconheceu-o e ter-lhe-ão chegado à cabeça as coisas que o jornalista escrevera e que ele lera, e não gostara. No verão passado, antes de a Turquia jogar no Europeu 2016 e ser eliminada na fase de grupos, Bilal Mese escreveu que Turan e outros jogadores da seleção estariam a exigir à federação turca prémios de jogo mais elevados para a participação na prova. “Diz-me, Bilal Mese, estavas lá? Estavas connosco quando escreveste sobre o assunto do dinheiro? A quem pedimos o dinheiro? Porque não falas agora? Pergunto-te aqui: quem te mandou escrever essas coisas”, terá perguntado o jogador, assim que viu o jornalista.

OZAN KOSE

A certa altura, o jogador terá agarrado no pescoço do jornalista, enquanto o esmurrava. A cena de pancadaria teve de ser terminada por alguns dos restantes passageiros do avião. Depois, Arda Turan terá continuado a gritar palavras dirigidas a Bilal Mese e até ao presidente da Federação Turca de Futebol: “Não percebo deixaram uma pessoa tão desonrosa como tu entrar neste avião. Posso deixar no futebol, mas não te vou deixar desonrar a minha família. O teu chefe é o Demirören. Trabalhas para o jornal do presidente da federação?”.

Um incidente destes só podia ter consequências, mesmo que Turan fosse, há muitos anos, o capitão da seleção e o melhor jogador do país. A meio da tarde desta terça-feira, Arda compareceu numa conferência de imprensa, onde a maior parte dos jornalistas se levantou e abandonou a sala no momento em que o jogador lá entrou. “Creio que chegou o momento. Faço o que tenho de fazer e ponho fim à minha carreira na seleção nacional”, garantiu o médio turco.

Antes, Turan tentou explicar-se. Admitiu o erro, reconheceu ter feito “coisas equivocadas” ao representar o país, e lembrou que “há que pagar o preço quando se faz algo de errado na vida”. Assegurou que se sente “livre como um pássaro” e, para “evitar danos”, dá “um passo atrás”.

Com 97 internacionalizações e 18 golos, o turco despede-se da seleção e tentou explicar essa decisão e as que teve dentro do avião. “Não se pode atacar o caráter, a família e os valores de uma pessoa. Há pessoas que não se podem esquecer de certas coisas. Agradeço aos jornalistas que criticam o meu futebol - isto é uma profissão, é normal. Mas não vou permitir ataques à minha família e aos meu valores. Quem o tentar, vai receber uma resposta com todo o poder das capacidades que Deus me deu”, argumentou o jogador do Barcelona, que esta época marcou 13 golos em 30 jogos pelos catalães.

Agora, em qualquer coisa como 24 horas, agrediu um jornalista dentro de um avião, obrigou-se a abandonar a seleção e piorou a sua imagem no país - pelo menos, segundo o olhar dos jornalistas.