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Canguru rima com o "buuu!" para tanto aborrecimento

Aconteceu o que todos esperávamos e a Alemanha ganhou à Austrália no último jogo da primeira jornada da Taça das Confederações. Só que jogou pouco, desperdiçou oportunidades, foi lenta e acabou assustada perante a seleção do país dos cangurus, a qual deixou encurtar o resultado (3-2)

Diogo Pombo

FRANCK FIFE

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Uma seleção vem do país cujos feitos no futebol deram ao senso comum o ditado de que, no fim, ganham sempre eles. Os alemães, de cara séria, aquela cara de que há um trabalho para ser feito e há de o ser, porque eles nunca estão para brincadeiras, não são os que costumamos ver. Os jogadores grandes, com nome, os melhores, foram de férias. Empurrados pela ideia de dar oportunidade a miúdos, a jogadores para quem uma internacionalização era coisa que só acontecia aos outros, ou que, simplesmente, jogam pouca pela Alemanha por haver sempre alguém melhor para a mesma posição.

A outra seleção é da ilha que é um continente. Da terra gigante que flutua no canto do mundo, onde pontapear uma bola redonda aparece no quarto ou quinto lugar da lista de prioridades de desporto quem lá mora. Os australianos têm o futebol deles ("footy"), têm o críquete, têm o râguebi, têm o surf e só depois têm o futebol do resto do mundo. Um futebol em que já não cabem Tim Cahill, Harry Kewell ou Mark Viduka, nomes que associávamos a bons jogadores a jogarem em boas equipas. Agora têm jogadores razoáveis a jogarem em equipas com razões a menos para serem conhecidas.

Depois há um país a arder, a olhar para uma tragédia, com pessoas a morrerem e a tentarem não morrer nas chamas. Cheio de um calor com que a natureza não nos deixa pensar em algo mais que não seja o inferno em que está a envolver uma terra chamada Pedrógão Grande. As preocupações estão aí, na 64ª morte causada pelos incêndios, e não no que poderia acontecer nesta espécie de Alemanha B-Austrália, durante o qual esse número é confirmado.

A este contexto juntou-se o jogo em que os alemães, dos quais apenas um, ou dois, seriam titulares na Alemanha como dever, pareciam estar num jogo-treino que nem sequer pareciam estar a levar a sério. Eles acertaram quase todos os passes que apontavam para a frente, conquistavam espaço nas costas dos adversários a cada aceleração, e trocavam o centro de jogo - que é o sítio onde a bola está - com a facilidade com que se apanha um escaldão no verão australiano. Que é muita, porque o país dos cangurus está debaixo de buracos enormes na camada de ozono.

E a seleção australiana, caída no pecado de erros como o de ter jogadores a pressionarem uns ao lado de outros, a jeito de serem arrumados de uma jogada com um simples passe, ou de ter seis homens a defenderem na área enquanto só olham para a bola, é um buraco gigante quando a Alemanha tem a bola. Foi assim no golo de Lars Stindl, logo aos 5’, e na meia dúzia de oportunidades que se seguiram, construídas de várias formas, mas, no fundo, todas vindas do mesmo facto: a Austrália perdia uma de cada três bolas que tentava passar para a frente.

Dean Mouhtaropoulos

Os processos simples que deixavam os alemães livrarem-se de tudo com passes fáceis parecia tê-los num concurso de quem rematava melhor à baliza. Brandt, Wagner, Goretzka, Draxler e Stindl, todos tentarem, mas só voltariam a marcar depois de se deixarem relaxar por toda esta facilidade e de sofrerem um golo no primeiro contra-ataque que a Austrália conseguiu montar. Rogic, um médio grande, alto e canhoto, viu um alemão devolver-lhe a bola que ia rematar para a bancada para ele, com o ressalto, rematá-la de novo e Bernd Leno dar uma ajudinha (41’).

O resultado deixaria de ser enganador três minutos volvidos, quando Luongo ceifou Goretzka, na área, por trás e sem um pingo de prudência, para Draxler bater o respetivo penálti. Menos ainda quando, mal começou a segunda parte, um simples passe picado de Kimmich mostrou como marcar ao homem é coisa da Idade Média e deixou Goretzka a rematar, sozinho, na cara de Matt Ryan, o guarda-redes australiano (48’).

O 3-1 parecia o início da história de uma goleada inexorável. Só que não. Porque neste “não” coube outra jogada a viver à base de ressaltos. Mooy, um médio careca que corre com os pés para fora, única semelhança com Iniesta para se imaginar os porquês de a imprensa australiana o comparar ao craque do Barcelona, bateu um livre contra a barreira, à entrada da área. A recarga foi desviada no peito de um australiano, na área, e abrandou tanto a bola que Leno não tem desculpa por a ter largado - e deixado Juric marcar. A Alemanha não sofria dois golos desde março de 2016.

Os alemães, melhores à unidade e como equipa, assustaram-se, encolheram-se, passaram a defender mais atrás e deixaram de pressionar. Os australianos, piores em tudo, pareceram melhores. Tiveram a bola mais tempo e, mesmo lentos, remataram um par de vezes, bolas que talvez entrassem se Tim Cahill lá estivesse. E estava, só que sentado no banco até cinco minutos do fim, quando entrou numa altura em que a Alemanha só atacava pelas correrias de Timo Werner, que ainda rematou uma bola ao poste.

No fim, ganhou o país que todos esperávamos que ganhasse. Mas foi feio, desinteressante, lento e quase vazio de emoção. O animal da Austrália é o canguru e vem a calhar, porque rima com "buuu!", a onomatopeia perfeita para responder ao tédio que, apesar dos golos, este jogo nos deu.