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México, futebol. Nova Zelândia, râguebi, certo? Nem por isso

Ainda não foi desta que os neozelandeses ganharam um jogo na Taça das Confederações, mas estiveram a ganhar aos mexicanos durante mais de uma hora. Perderam, sim (1-2), só que mostraram que Portugal não pode pensar que a vida deles é apenas o râguebi

Diogo Pombo

Buda Mendes

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Assim de repente, eis quatro coisas pelas quais a Nova Zelândia pode ser conhecida:

É um país onde existem mais ovelhas do que pessoas (é mesmo verdade); o primeiro humano a escalar os mais de oito mil metros do Monte Evereste, um senhor chamado Edmund Hilary, nasceu lá; uma das trilogias do cinema mais famosas de sempre, "O Senhor dos Anéis", foi filmada por lá e por Peter Jackson, um realizador que é neozelandês e ganhou um Oscar; e é da Nova Zelândia que vem a equipa com maior sucesso na história do desporto e de um desporto, os All Blacks, que têm uma percentagem de vitória de quase 80% no râguebi.

O que dá toda a razão à Lídia Paralta Gomes, que anda atrás da seleção nacional na Rússia e, após a vitória contra os russos, escreveu uma frase que tinha isto pelo meio - “nos nossos antípodas, a malta tem mais jeito para jogar com as mãos do que com os pés”.

A Lídia e nós sabemos que o último jogo de Portugal, na fase de grupos, será contra a Nova Zelândia, que se equipa toda de preto, cor com que a gíria popular veste a metáfora do patinho feio, que é usada para, no fundo, resumir o que todos esperariam deles para esta Taça das Confederações - serem um saco de pancada, de só defender e de futebol a menos para contrariar seja quem for.

Os mexicanos, seguros deles próprios, terão pensado o mesmo e trocaram oito jogadores na equipa que jogou contra Portugal. Uma confiança cega na lógica de que ter onze homens que, individualmente, são melhores que os adversários diretos, lhes chegaria para ganhar com conforto. Uma lógica que uma batata lhes terá sussurrado, porque cada mexicano parecia estar a jogar ao jogo do “eu sozinho contra o mundo”. Sem nexo, desorganizados a ocupar os espaços, com pouca velocidade no passe e criatividade quase nula, apesar de ter gente como Giovanni dos Santos, Javier Aquino ou Marco Fabián em campo.

E os neozelandeses, tidos como toscos que até pareceram toscos, ao chutarem para a frente as primeiras quatro ou cinco bolas que tiveram, foram melhorando. Com os minutos, pressionando mais à frente, passando pela relva, sendo mais simples, rápidos e diretos a atacar os espaços entre as linhas do México, que eram tão confusas como um filme de Terrence Malick.

Nem eles pareciam entender a espécie de 3-5-2 em que jogavam e foi uma questão de tempo até os tipos com fama de toscos, trapalhões e donos de jeito suficiente só para jogar uma bola com as mãos perceberam como chegar à baliza. E à terceira vez que teve uma oportunidade, o avançado Chris Wood marcou um golo e a Nova Zelândia foi a ganhar para o intervalo.

FRANCK FIFE

Os nossos antípodas ganhavam, mereciam-no e até podiam estar a ganhar por mais. Tudo isto surpreendia. E tudo deve ter tocado na ira do treinador mexicano e no orgulho dos jogadores, que pareceram outra equipa na segunda parte. Mais intensos, mais rápidos a fazerem tudo, a acelerarem os passes e a jogarem com outra rotação.

O jogo ficou como esperávamos. O México encostava a Nova Zelândia e, por vezes, viam-se onze tipos de preto comprimidos em 20 metros ou, até, dentro da própria área. A cabeça de Reyes, o pé direito de Fabián e o esquerdo de Aquino rematavam e Marinovic começava a ser o melhor neozelandês em campo, como o fora contra os russos. A este ritmo, o dificilmente evitável aconteceu quando Raúl Jiménez recebeu um passe à entrada da área, rodou e rematou logo uma bomba para a baliza (54’).

Os mexicanos empatavam e, minutos depois, já havia neozelandeses a queixarem-se de cãibras. Por acaso não era Ingham, os 18 anos de lateral direito sobre o qual Javier Aquino carregou com toda a velocidade e todas as fintas que tinha, até inventar a jogada que resultou no golo (72’) de Omar Paralta. Houve festa mexicana e uma roda de abraços em torno do avançado, que olhou para o céu e suspirou de alívio. Só ali a equipa o pode fazer.

Os neozelandeses pareciam moribundos, uma esponja para tantos e tantos ataques e remates que os mexicanos continuaram a disparar. Não conseguiam acompanhar o ritmo e apenas chegavam perto da área com faltas ou lançamentos laterais. Como a cinco minutos do fim, quando Thomas aproveitou uma bola ressacada da área para a bater, em força, contra a barra. Foi o último susto que os nossos antípodas pregaram aos mexicanos, que quase viram o avançado que gosta de brincar com máscaras, e é nosso conhecido, a marcar mais um.

Os All Whites, como são alcunhados, perderam com a cor dos All Blacks, equipa da terra deles e que não podia ter menos a ver com eles. A Nova Zelândia não é conhecida por ser famosa a jogar futebol e Portugal terá sempre obrigação de a vencer, sim.

Mas não convém levar o jogo da maneira como os mexicanos fizeram questão de o encarar, durante muito tempo. Os neozelandeses têm mais jeito para jogar à bom com as mãos do que com os pés (verdade, Lídia), mas a vida deles, como o mostraram, não é só o râguebi.