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Os chilenos são loucos. Mas, a perder, que se perca sempre como eles

A Alemanha conquistou a Taça das Confederações porque ganhou (1-0) ao Chile, a seleção que mais arriscou, mais deu tudo e mais garra pôs no jogo. Depois de duas Copas Américas, os chilenos não conseguiram vencer uma competição intercontinental. Os alemães, mesmo sem as estrelas, fizeram o que fazem desde 2006 - ganhar tudo, ou andar sempre lá perto. E esta é uma crónica mais sobre os perdedores, do que os vencedores

Diogo Pombo

KIRILL KUDRYAVTSEV

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Os chilenos são loucos.

Disseram-lhes antes do túnel, o meio termo entre o balneário e o relvado, que amanhã o mundo acaba se não ganharam este jogo de futebol. Parece que sim. No hino nacional, que a FIFA desrespeita e corta com a desculpa de ser moroso, eles cantam-no até ao fim, aos berros e de olhos fechados, as pálpebras a cravarem-se uma na outra: “Dulce Patria, recibe los votos, con que Chile en tus aras juró. Que o la tumba serás de los libres, o el asilo contra la opresión”. Começam o jogo a correr mais sem a bola do que com ela, a pressionar em cima da baliza dos outros, a serem os mais rápidos do mundo a reagir a tudo.

A loucura deles é querer recuperar as bolas perdidas imediatamente, cada um a pressionar à maluca, olhando para a bola e quem a tenha, descurando o espaço e quem não a tem. Fora o guarda-redes, deixam apenas dois tipos atrás da linha da bola, para deixarem Aranguiz, Vidal, Alexis e Vargas vaguearem no espaço esticado pelos laterais, como se fossem os últimos homens do mundo livre. No meio do caos de querer tudo e salivar por qualquer bola, cada um deles remata à baliza antes de haver dez minutos no relógio.

A bola, os passes e o tempo passado no meio campo alheio, as estatísticas são deles - só que o risco, também. No caos que é gerado pela loucura, eles encostam o adversário às cordas. Pressionam tanto e com tudo que se fartam de recuperar bolas e de não deixar jogar quem, por ser quem é, dá a razão para ser uma loucura os chilenos jogarem assim.

É a Alemanha.

E os alemães, por mais pressionados, incomodados, privados da bola, encostados à defesa e erráticos no primeiro passe, têm uma particularidade: é muito raro estarem desconfortáveis num jogo de futebol. Permanecem frios, concentrados e a agirem como se tudo fosse uma questão de os minutos passarem até se chegar ao 20’, quando apanharam Marcelo Díaz confiante de mais e atento de menos, à entrada da área chilena, com a bola. Timo Werner e Lars Stindl apertaram-no em cada lado, o primeiro foi o ladrão e o passador para o segundo ser o marcador.

Os chilenos continuaram com oito jogadores à frente da linha da bola, com Isla e Beausejour a serem mais extremos viciados em linha do que laterais prudentes, e com os principais craques a procurarem receber passes entre linhas. Continuaram a ser loucos, portanto. Porque continuaram a confiar que a intensidade, garra e agressividade com que reagem a tudo o que aconteça seria suficiente para anular os momentos em que os alemães tinham a bola.

O golo fez os chilenos arriscarem mais, no passe e no número de homens a sprintarem em desmarcações, logo, a poderem ficar fora das jogadas. Maior o risco, maior a probabilidade de erro, o que levou ao tempo e ao espaço que os alemães passaram a ter para darem corda às corridas de Werner e Draxler, em contra-ataques. O capitão rematou e Goretzka imitou-o, depois, um par de vezes, uma delas depois de a confiança e desatenção de Jara serem como as de Díaz e deixarem o médio alemão com uma bola que só Claudio Bravo não deixou entrar na baliza.

KIRILL KUDRYAVTSEV

E os chilenos são mesmo loucos.

Porque conseguiram tornar o risco ainda maior e porque se portaram contra os alemães como se comportam frente a qualquer seleção que lhe apareça à frente. Parecem só ter medo do virem a sentir que não deram tudo o que tinham, por isso dão tudo o que têm, sempre. Ao estilo de jogo arriscado, juntam a pressa e a urgência e a garra e a raça de quem sabe o que é, e de onde vem.

Se tivesse que os colocar numa metáfora, os chilenos são um pelotão de motas, cada um a conduzir a sua numa estrada que tem lava a persegui-los. Eles fogem da evidência de serem de um país onde não há muitas árvores das quais caiam futebolistas, e aceleram à boleia do facto de terem nascido na mesma era e serem de uma geração de ouro. Jogam assim, com sangue na guelra e o coração nos pés, por saberem que são o melhor que o Chile já teve e por não saberem quando haverá mais chilenos como Alexis, Vidal, Vargas, Aranguiz, Medel ou Bravo. São loucos porque têm de o ser.

E perdem esta final da Taça das Confederações com os alemães, que são como passageiros de um comboio - não têm de fazer grande coisa, porque há um caminho, uma forma de o percorrer e um destino que não são fixados por eles. Mas que eles, sejam quem forem, executam por serem sempre bons.

Ou melhor, por ter havido uma altura, no início deste século, em que a federação de futebol da Alemanha viu o hat-trick de Sérgio Conceição, no Euro 2000, como um sinal de que as coisas estão terríveis. Tiraram lições da formação dos franceses e do Barcelona, alinharam as seleções com os clubes, criaram um modelo para educar o futebol nos jovens e, desde 2006, que chegam, pelo menos, às meias-finais de todas as competições.

Os alemães estão calmos, com uma tranquilidade mecânica, quase sempre no sítio certo do campo, enquanto os chilenos tentam tudo e com tudo. Vidal e Sagan, na área e a poucos metros da baliza, não acertam com os remates, e penso eu que seja por viveram no limite da adrenalina, ansiosos por fazerem com que tudo lhes corra como querem, seja a bem, ou a mal.

Fervem com tudo, como sul-americanos que são, e daí vermos Arturo Vidal a encostar a cabeça e a esbugalhar os olhos para Kimmich, um miúdo com quem convive no Bayern há dois anos, como se ele quisesse assassinar a sua família; o cotovelo de Jara a atirar-se ao queixo de Werder; os vários chilenos a cercarem Emre Can, a agarrarem-no e a pisarem-no, quando o alemão perde tempo com a bola.

Os novos alemães ganharam como os velhos, os Boateng, Hummels, Kroos, Muller, Schurrle, Reus, Khedira ou Ozil, foram os melhores, os mais consistentes, os que tremeram pouco e quem jogou de forma tão mecânica que os fez parecer os habituais compositores da seleção. Os chilenos cerraram os dentes, correram, lutaram, ferveram em pouca água e arriscaram, em todo os jogos que fizeram, como se o mundo acabasse amanhã e apenas fosse possível salvar uma equipa de futebol, para a posteridade.

Os chilenos jogam como loucos e perderam. Mas, perdendo, que se perca sempre como eles perdem.

Buda Mendes