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O tempo que Jermain Defoe deu a quem tem pouco tempo (a história que está a comover Inglaterra)

Esta é a história de dois amigos. Entre um dos melhores avançados ingleses, cujos golos não evitaram a despromoção do Sunderland, da Premier League, e da criança de seis anos, com um cancro terminal, que o tinha como ídolo e passou horas e horas com ele. É a história do tempo que Jermain Defoe passou com Bradley Lowery

Diogo Pombo

SCOTT HEPPELL

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Há quatro anos que não estava ali, no túnel, vestido de branco, equipado para representar o país. Tem 34 anos, é inglês e sabe que há muitos avançados mais novos, com melhor futuro e, provavelmente, com mais golos vindouros do que ele. Jogar pela Inglaterra não é uma oportunidade que, por estes dias, lhe surja muitas vezes. Está despreocupado com isso, nota-se na cara, por estar preocupado com uma pessoa. Mal sai do balneário e se tem de perfilar para, com a equipa, entrar no relvado de Wembley, procura um amigo.

Vê-o, aproxima-se, estica-lhe a mão. Os dedos entrelaçam-se e já não se largam. “Não, vais tu à frente”, diz-lhe Joe Hart, o capitão que tem o protocolo do seu lado, é suposto que lidere a equipa e a fila de jogadores.

Mas quem entra primeira é Bradley Lowery, de mãos dadas com Jermain Defoe.

Toca o hino inglês. Bradley, que está à frente de Jermain, vira-se para trás e abraça-o, enterrando a cabeça na barriga. Pode ser vergonha e embaraço por estar ali, ser o foco de câmaras, pessoas e atenção. Ou, mais provável, pode ser o carinho que um miúdo de cinco anos nutre por um futebolista que joga, é o melhor e marca golos no clube que ele apoia. “Adoro marcar golos, jogar pelo meu país e fazer o melhor pela minha família. Mas, sempre que jogo, tenho sempre algo na minha cabeça a dizer-me que tenho de marcar golos pelo pequeno Bradley. É uma motivação extra”, diz o avançado, à CNN, entre suspiros conformados por não encontrar as palavras certas para descrever o que isto é.

Shaun Botterill

É uma história entre um menino de cinco anos, com um cancro terminal e sorridente apesar dos hospitais, dos tratamentos, dos tubos no corpo e das dificuldades em respirar, e um futebolista que lhe tenta dar o que pode.

O seu tempo.

O episódio aconteceu em março, no dia em que Jermain Defoe marcou um golo no regresso à seleção inglesa. Um golo para Bradley, que, menos de 24 horas depois, já estava deitado, de volta à cama do hospital, a receber mais um tratamento de quimioterapia para abrandar o que já era inexorável - o avanço do neuroblastoma, um tipo de cancro raro, que lhe encheu o pequeno corpo de tumores.

Nascido perto de Hartlepool, a cerca de 30 quilómetros de Sunderland, a criança conheceu o adulto que tinha como ídolo em setembro, quando o clube a convidou para ser a mascote do jogo contra o Everton. “Quando nos conhecemos, ele entrou no balneário, veio ter comigo e saltou logo para o meu colo. Pela energia que tinha e a forma como não parava no balneário, nunca pensei que houvesse algo de errado com ele”, contou o avançado. Mas havia, e muito.

Com ano e meio de vida, foi diagnosticado a Bradley o neuroblastoma, devido a um tumor que se desenvolveu perto de um rim. “Não havia um médico, uma enfermeira, que achasse que ele fosse sobreviver”, lamentou a mãe, Gemma, ao The Sun. O filho sobreviveu, findos dois anos de tratamentos e de luta. Achou-se que tudo esteve bem até julho do ano passado, quando outro tumor se desenvolveu, nas costas. Em dezembro, a família recebia a pior das notícias. O cancro era terminal e os tratamentos tão agressivos que, mais do que ajudar Bradley, iriam enfraquecê-lo.

Aí surgiu Jermain Defoe. E o futebol.

O avançado foi marcando golos, dedicando-os a Bradley. Entrou com ele em campo, aqueceu com ele, brincou com ele. Visitou-o todas as semanas, trocou e troca mensagens e chamadas com a mãe, para saber como ele está. Dedicou-lhe o que podia, que era tempo: “Sinto-me impotente por o ver assim. Não há nada que possa fazer a não ser passar o máximo de tempo possível com ele”.

O exemplo que Defoe e o Sunderland deram foi pegado pelo Everton, que doou 200 mil libras à família para pagarem um tratamento. Pelo Match of the Day, programa da BBC que, em janeiro, escolheu como golo do mês a bola que Bradley chutou para dentro da baliza, antes do Sunderland-Chelsea. Ou pelo adepto do Sunderland que tatuou na perna o símbolo do Newcastle, clube rival e de uma rivalidade odiosa, para angariar mais fundos.

Naquele dia, em Wembley, no relvado, Jermain diz que lutou para não se “deixar levar pelas emoções” de estar ali, de volta, e ter os abraços de pequeno amigo com ele. Bradley celebrou seis anos há dias e cumpriu o aniversário ao qual os pais faziam questão de o levar. A saúde de Bradley “está a deteriorar-se rapidamente”, informou a família, dias antes de Jermain Defoe se despedir do despromovido Sunderland.

Ele vai para o Bournemouth, quase 600 quilómetros a sul de Sunderland, clube e terra que jogarão na Premier League e celebrarão, se tudo correr bem, os seus golos. Não os terá, porque esses serão sempre de quem deu a Defoe “o melhor momento” das duas épocas e meia que passou em Sunderland.

O momento em que entrou com o pequeno Bradley Lowery em campo, pela primeira vez.