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A lesão, as zangas com Ferguson e a má forma física: de quem é a culpa do declínio de Rooney?

É difícil saber como é que isto aconteceu: cedo batizado como prodígio precoce do futebol mundial, Wayne Rooney vê-se agora obrigado a sair da equipa de quase sempre, o United, para poder jogar. Uma lesão quase fatal, a forma como (não) tratou da sua forma física e as zangas com Ferguson marcaram o início do declínio. “Rooney tem 31 anos, mas joga como se tivesse 35”

Mariana Lima Cunha

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A jovem esperança do Everton. A nova estrela do United. O capitão indiscutível. O Pelé dos nossos tempos. Todos estes títulos pertenceram, em tempos, a Wayne Rooney, que os foi conquistando ano após ano a partir da sua oportunidade precoce, aos 16 anos, na equipa principal do Everton. Hoje, o melhor marcador de sempre do Manchester United e da seleção inglesa parece só ter direito a cognomes de desânimo: a estrela em queda, a desilusão rápida, uma memória boa de outros tempos, um observador desapontado na linha lateral.

Ninguém sabe exatamente como é que isto aconteceu – numa altura em que Rooney parece encaminhado para voltar ao Everton, a sua primeira casa, sucedem-se as análises sobre a carreira da estrela inglesa. O que correu mal? Será que a culpa é do seu próprio talento, que surgiu demasiado cedo e atingiu um pico precoce? Será da lesão mal curada em 2010, ou dos maus hábitos a tratar do seu corpo? Ou será que um cocktail de motivos, misturado com má sorte, o tornou o que é hoje?

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As notícias desta semana dão conta do provável regresso de Rooney de Old Trafford, palco de todos os seus grandes sucessos, ao Everton, a casa de onde saía há treze anos para rumar à aventura no Manchester United. Em agosto de 2004, altura em que assinou com o United, Rooney estava no topo do mundo: não só se tornava uma estrela precoce depois da transferência de 27 milhões de libras (31 milhões de euros), como rapidamente se tornaria também indispensável para a seleção inglesa, então liderada por Sven-Gorak Eriksson, que o convocou para o Euro 2004.

De essencial a dispensável

Neste momento, ambas as posições outrora indiscutivelmente ocupadas por Rooney estão a ser postas em causa – pelos treinadores, pela imprensa, pelo próprio jogador. Rooney já admitira antes que, na liga inglesa, os únicos clubes pelos quais jogaria seriam o United e o Everton, e este último parece agora interessado em tornar-se a provável última casa do futebolista, mesmo que ainda falte um ano para acabar o contrato com o United.

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“Há muitas ofertas a considerar, tanto em Inglaterra como no estrangeiro, e é isso que tenho de decidir”, resumia em maio, citado pelo “The Guardian”. Questionado sobre as recusas de Mourinho em pô-lo a jogar e as duas últimas convocatórias de Gareth Southgate, atual selecionador inglês, das quais não fez parte, Rooney encheu-se de uma modéstia difícil de imaginar noutros tempos: “Primeiro, sempre fui um jogador de equipa. Este ano, nunca me afundei nem baixei a cabeça. Percebi o que era melhor para a equipa, tentei ajudar quando o treinador me pôs a jogar”. E acrescentou: “Quero estar em campo, claro. Uma versão mais jovem de mim estaria muito mais frustrada. Acho que percebo e aceito o que é preciso para o clube, e respeito isso. É a decisão que tenho de tomar agora - se quero continuar a fazer isso ou mudar e jogar futebol mais regularmente”.

O início do fim

Talvez o Rooney mais novo não imaginasse chegar a fazer declarações destas: “Se me perguntarem se sou melhor jogador que há dez anos, obviamente não sou, mas sinto que tenho outras qualidades que podem ajudar a equipa”. Há dez anos estávamos em 2007, ainda em plena era de ouro para Rooney, então no United ao lado de Ronaldo. O português sairia da equipa em 2009, voltando a colocar o inglês no centro da equipa – na época seguinte, Rooney marcaria 34 golos, formando par com Antonio Valencia.

Os anos de glória na seleção e no United não durariam para sempre. Um dos momentos mais apontados como o início do declínio de Rooney aconteceria logo em 2010, ainda contava 24 anos, quando se lesionou no tornozelo nos quartos-de-final da Liga dos Campeões, num encontro com o Bayern de Munique, e voltou logo a seguir para jogar. “Ele nunca mais foi o mesmo depois dessa lesão, que lhe estragou o Mundial de 2010”, assegura ao Expresso Jack Pitt-Brooke, jornalista de desporto do “The Independent”.

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Foi no mesmo ano que Alex Ferguson, o quase eterno treinador do United, se viu obrigado a castigar Rooney depois de este ter festejado e bebido álcool após um jogo no final do ano, apresentando-se em má forma no treino seguinte. Na sua biografia, Ferguson escreveria sobre este episódio: “Wayne precisava de ter cuidado. Tem grandes qualidades, mas poderiam ser engolidas pela falta de forma física. Vejam a forma como Cristiano Ronaldo ou Ryan Giggs se cuidam”.

“Semi em forma e frustrado”, recorda o ESPN FC, Rooney quis sair do United logo em 2010, dizendo-se preocupado com a gestão da equipa feita por Ferguson, e convencido depois pelo jogador a ficar por outros cinco anos. Ainda assim, quando Ferguson se reformou, em 2013, revelou que Rooney voltara a demonstrar vontade de abandonar o clube, depois de uns quantos maus jogos e de se tornar uma segunda escolha em relação a Rob Van Persie. “Ele tentou deixar o clube em 2010 e 2013, quando precisavam dele”, explica ao Expresso John Brewin, jornalista de desporto do ESPN FC. “Isso acabou com algumas pontes. E agora, assim que deixa de jogar bem, tudo isso volta para o assombrar”.

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Os números não mentem

Pelos comandos da equipa passariam ainda David Moyes e Louis van Gaal, que o tornaria capitão no verão de 2014. Só depois chegaria Mourinho, que começou por valorizar e dar protagonismo a Rooney para passar depois a preferir Zlatan Ibrahimovic e Marcus Rashford. O declínio é traduzível por números: segundo as contas do “The Telegraph”, Rooney precisou, nesta época, de 478 minutos para marcar cada golo (foram 144 em 2013/2014, 240 em 2014/2015 e 301 em 2015/2016); a taxa de conversão entre remates para golo e golos foi de 8,3% (contra 15,1% no ano passado e 22,6% no anterior); e marcou 8 golos nesta época, o número mais baixo desde a época de 2004/2004, ainda no Everton.

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“Acho que Rooney está acabado”, declara Pitt-Brooke. “Ele jogou tantos jogos desde os 16 anos que isso o desgastou. Só tem 31 anos, mas joga como se tivesse 35”. O jornalista especializado em desporto recorda os tempos em que a queda de Rooney se começou a tornar óbvia: “Acho que Ferguson sabia que Rooney teria dificuldades na casa dos 30, por isso tentou vendê-lo quando se reformou, em 2013. É uma pena, porque entre 2004 e 2010 foi um jogador incrível, mas jogou o seu melhor futebol aos 26 anos”.

Sobre as negociações que Rooney teve no estrangeiro – China e Estados Unidos -, Pitt-Brooke acredita que o melhor a fazer é ficar em casa: “Acho que ficar no Everton é uma boa jogada. A família dele sempre apoiou o Everton, e ele adora o clube e os seus fãs. Ele não precisa do enorme salário que ganharia na China”. A mesma opinião parece ser partilhada pela própria estrela cadente, que pondera agora fechar o longo capítulo do United regressando à sua primeira casa, passados os anos de glória mundial.

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