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Nem sequer foi preciso Ronaldo. Só um bocadinho de inteligência

O Real Madrid conquistou a Supertaça Europeia, perante o Manchester United de José Mourinho, por 2-1. Cristiano Ronaldo só entrou nos últimos minutos, quando os merengues já venciam

Mariana Cabral

Vê bem, Pogba: Isco mostra como se faz

Dan Mullan/Getty

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Esta terça-feira, em entrevista ao jornal "A Bola", Bas Dost revelava o seguinte: "Gosto de ler um livro ou fazer puzzles. Trago sempre muitos puzzles da Holanda para treinar a minha inteligência. Um jogador de futebol não treina a inteligência. A única coisa que faz é dar pontapés na bola e quando a cabeceia está a matar o cérebro."

Pese embora o exagero do avançado holandês ao dizer que um jogador não treina a inteligência - no treino, a inteligência específica é treinada, se o treinador assim o entender (quando há que perceber o que se joga e não apenas repetir analítica e mecanicamente) -, a verdade é que, hoje em dia, a vida dos jogadores que não têm a inteligência como principal atributo está cada vez mais complicada.

Com a crescente complexidade dos respetivos modelos de jogo das equipas e a falta de espaço e tempo para jogar, fica sempre muito mais difícil para um jogador menos inteligente ter sucesso, quando os atributos físicos e técnicos já não são suficientes para se superiorizarem.

Ou, como se costuma dizer: se o futebol se joga com os pés, então o xadrez joga-se com as mãos.

Surge isto a propósito do 17º minuto do Manchester United-Real Madrid. Depois de, num canto, Casemiro cabecear uma bola à trave da baliza de De Gea, o Manchester aproveitou a transição rápida para se colocar em vantagem numérica já bem perto da área do Real. Pogba conduzia a bola, tinha um colega à esquerda, um colega à direita, e apenas dois defesas pela frente.

Isto é, um três para dois. Com o resultado em 0-0, convém acrescentar.

O que faria um jogador inteligente? Simples: continuava a conduzir a bola até fixar um dos defesas adversários, o que, por sua vez, iria deixar um dos colegas livres, porque o outro defesa apenas podia estar na zona de um adversário. Caso os defesas ficassem a marcar ambos os adversários, aí sim, haveria caminho livre para a baliza.

E, então, o que fez o homem que custou €105 milhões? Nem conduziu, nem sequer tentou passar: rematou, dali mesmo, contra o defesa. Obviamente, não deu em nada. Como, aliás, praticamente toda a partida do médio francês de 24 anos.

Pogba tem 24 anos e é internacional francês

Pogba tem 24 anos e é internacional francês

ROBERT ATANASOVSKI/GETTY

Fast forward para o 52º minuto de jogo. Já dentro da área do Manchester United, Isco conduziu a bola (às vezes parece que tem cola no pé) e, perante um adversário, num espaço reduzido, utilizou o melhor artifício do futebol para ultrapassá-lo: passou a um colega - no caso, Gareth Bale -, e continuou a correr para receber na frente. Isto é, uma tabela. Simples. E eficaz: deu golo e o Real ficou a ganhar 2-0.

Não foi apenas por isto que Isco foi, de longe, o melhor em campo, mas é (também) assim que se ganham os grandes jogos, onde o nível físico e técnico dos executantes é de capacidade superior - depois, é a parte cognitiva e tática que acaba por decidir e destrinçar quem é bom de quem é excelente.

Na realidade, até foi o Manchester United a começar melhor o ataque (bom, talvez seja melhor dizer "a defesa") à Supertaça Europeia, ou não fosse José Mourinho o grande estratega que sabemos bem que é. Fechado num 1-5-4-1 (sim, é um sistema que voltou para ficar) com a aparente intenção de não permitir espaço de criação aos "inteligentes" do Real - Isco, Modric e Kroos (Bale e Benzema jogaram na frente, com Ronaldo a ficar no banco, por ainda não estar em condições para entrar de início) -, o Manchester ia tentando aproveitar o espaço concedido pelo Real nas transições e conseguindo inclusivamente ligar várias jogadas com perigo, como a tal de Pogba.

Só que isto de oferecer a bola a adversários enquanto se espera por oportunidades para contra atacar nem sempre funciona como se quer, porque do outro lado podem estar executantes de qualidade ímpar. Aos 23', os médios do Real podiam estar sem bola no meio-campo do United, mas o lateral Carvajal fez de médio e lançou um passe na profundidade para Casemiro, que se desmarcou em rutura - qual Benzema - para fazer o 1-0 já dentro da área (ainda que aparentemente parecesse algo adiantado - na Supertaça Europeia não houve videoárbitro).

Por esta altura, a posse de bola já ia em 65%/35% a favor do Real e, mesmo quando o United parecia que ia criar perigo, havia algo a estragar. Depois de uma excelente pressão de Henrikh Mkhitaryan, Kroos perdeu a bola e o arménio ia ficar isolado para a baliza, mas apareceu Lukaku a roubar-lhe a oportunidade. É que o avançado do Manchester fez-se ao lance e estava... fora de jogo. Lá está, inteligência específica - ou falta dela.

Como aos 53', quando Pogba cabeceou para defesa de Navas e, na recarga, em cima da linha da pequena área, Lukaku não encostou - rematou em potência em vez de em jeito, e a bola saiu por cima.

O Real Madrid continuou por cima do jogo e só com o 2-0, já com Rashford em campo (Mourinho tinha optado pela titularidade do mais contido Lingard), é que o Manchester conseguiu criar mais perigo junto da baliza adversária - ainda que sempre com muitas dificuldades em encontrar soluções quando assumia o jogo (porque normalmente não quer fazê-lo, bem entendido). Aos 61', pouco depois de Bale enviar uma bola à trave, Matic (vai entrar que nem uma luva no jogo do Mourinho) rematou de longe e Navas defendeu, e, desta vez, Lukaku conseguiu encostar para golo.

O 2-1 ainda deu algum alento ao United - Rashford, isolado, permitiu a defesa de Navas -, mas nem com a saída de Isco, o principal criativo do ataque do Real, o jogo equilibrou. Talvez porque, quando olhou para o banco, Mourinho pôs Fellaini. Do outro lado, quando Zidane olhou para o banco, pôs... Ronaldo - para os últimos dez minutos.

E a comparação também serve, por exemplo, para Valencia ou Smalling. O que serve para a Premier League, é difícil de servir para jogos de nível superior - nível Champions League, como dizia Mourinho na conferência de imprensa de antevisão. É que aí, é preciso bem mais do que força e fé. Pelo menos para ganhar de forma consistente.

DIMITAR DILKOFF/GETTY