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Welcome to Miami Beckham United, o provável novo clube de futebol nos EUA

Os donos das equipas da Major League Soccer (MLS) vão decidir, esta quarta-feira, se deixam que um novo clube seja criado em Miami, com um estádio de raiz, numa cidade onde o futebol não costuma pegar. Por trás dessa equipa está David Beckham, o ex-jogador-pop que, há 10 anos, quando foi jogar para os EUA, tinha uma cláusula no contrato que lhe permitia fazer o que está, agora, prestes a concretizar

Diogo Pombo

Clive Brunskill

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Chega o momento de sentar na cadeira, à beira de uma mesa anormalmente grande, vazia, enorme em espaço para apenas acolher umas quantas folhas de papel, agrafadas umas nas outras. É um contrato - precisa de ser assinado. O tipo que tem a caneta na mão e uma decisão na cabeça, já tomada, mas por confirmar, preto no branco, varre o conteúdo com os olhos. As mães e o bom-senso ensinam a que nunca se assine o que seja sem antes ler o que lá está escrito.

Nesse momento, prudente, David Beckham tem o especial cuidado de verificar se, no meio de linhas e alíneas de juridiquês, está a cláusula em que se lê algo parecido com isto:

- Caso aguentes jogar, no mínimo, cinco temporadas na MLS, terás a oportunidade de comprar a licença de uma franchise por 25 milhões de dólares.

O ano é 2007 e o inglês, nos seus 32 anos, assina um contrato com a Major League Soccer e muda-se para Los Angeles. Fala-se, escreve-se e discute-se a opção de Beckham, porque ele é um dos jogadores que mais dinheiro recebe no futebol, um dos mais conhecidos - e um cuja imagem é das mais rentáveis de sempre.

Está trintão, com as melhores épocas da carreira já pelas costas, mas não deixa de ser o médio para quem livres são penáltis, o primeiro futebolista a ter um filme inspirada na forma como bate na bola - “Bend It Like Beckham” -, o jogador-pop que, talvez, tenha sido o único que o Real Madrid comprou mais pelo que lhe daria fora do relvado do que no campo. Ele é o futebolista preferido dos anúncios, das marcas de roupa, das câmaras fotográficas e das revistas cor-de-rosa.

Laurence Griffiths

E também é o jogador-vidente que tem olho para adivinhar onde vão estar os potes de ouro.

David Beckham foi para os EUA jogar com uma bola redonda, longe de ser uma das formas favoritas dos americanos, para quem a lógica no desporto é mais oval e com armaduras (futebol americano), mais pequena e com tacos (beisebol), ou mais saltitante e a viver de cestos (NBA). O inglês foi a primeira grande estrela a ir jogar futebol para os EUA, depois do tempo das extravagâncias, dos estádios cheios e do furor dos anos 70, quando tipos como Pelé, Beckenbauer, Cruijf, Carlos Alberto Torres, Gerd Müller ou Eusébio foram espremer as carreiras para o soccer.

Quando assinou o tal contrato, com a tal cláusula, Beckham não saberia, a dez anos de distância, que hoje a MLS teria nomes como David Villa, Kaká, Andrea Pirlo, Giovinco, Schweinsteiger ou Ashley Cole. São todos trintões, verdade, mas entre eles há três campeões do mundo e com eles atraem-se adeptos, joga-se (em teoria) melhor futebol e engrandece-se o nome de uma competição que, desde 2007, tem acrescentado à liga, pelo menos, uma nova equipa por ano. Ou seja, as condições mudaram.

E o inglês, de 42 anos, foi guardando o trunfo na manga até esta quarta-feira, dia em que a MLS e os dirigentes dos 23 clubes que a perfazem vão votar a entrada de uma nova franchise na liga - a de David Beckham.

Fruto da cláusula que assinou, o antigo mestre dos cruzamentos teleguiados vai pagar 25 milhões de dólares para adquirir a franchise - uma licença que a MLS atribuiu para que seja criado um novo clube. Uma pechincha, se o valor for comparado aos 150 milhões que, em média, a liga exige aos interessados em criar uma nova equipa. Dizer que este negócio está abaixo do valor de mercado é subestimar o valor das palavras.

Os proprietários dos clubes, contudo, não olham apenas para o elementar, que é quase factual: David Beckham, como dono de uma equipa de futebol vai chamar a atenção, puxar pelas pessoas, elevar o nome da MLS, fazer com que se fale mais vezes na liga. Coisas que são basilares há cinco anos, tempo a que a vontade de Beckham em criar e ser dono de clube já é conhecida.

A culpa é de Miami, onde quer fixar a equipa.

Situada no estado da Florida, a cidade é tipicamente avessa ao futebol, como a generalidade do resto dos sítios americanos. As pessoas que lá vivem, retrata o New York Times, tendem a preferir o beisebol, o futebol americano ou, simplesmente, usar o tempo para estarem com os pés na areia e perto do mar. O clima, muito quente e muito húmido, não convida a que a vontade de ir para um estádio seja maior do que de ir ao mar molhar os pés.

O futebol nunca teve sucesso por ali - o Fusion, criado em 2001, em Fort Lauderdale, durou apenas quatro anos; o Miami FC fundou-se em 2015 e ainda joga num estádio universitário, com uma média de espetadores a rondar os 6 mil por jogo na North American Soccer League, a segunda divisão do futebol norte-americano.

Jayne Kamin-Oncea

Depois, há o facto de Miami ser uma terra onde o metro quadrado de terreno é caro e põe muita gente à bulha no mercado imobiliário.

Beckham, por isso, sempre sofreu oposição da parte dos grandes e influentes empresários da região, e só à terceira tentativa conseguiu comprar um terreno - num bairro chamado Overtown - para construir um estádio para a suposta nova equipa. E aí entram os transportes públicos, o estacionamento, o trânsito, o quão longe ficará o estádio de blocos de apartamentos ou o poder de compra médio do bairro onde se localiza. “Quero o Beckham na liga e ele é o tipo que pode fazer com que [uma equipa de futebol em] Miami resulte. Mas, quando entramos na sala e nos sentamos, são essas as coisas das quais falamos”, resumiu um responsável da MLS, não identificado, ao New York Times.

Caso dessa reunião saia um sim, a Major League Soccer terá 28 equipas em 2020 - é esse o objetivo - e, também este ano, a liga vai atribuir outras duas licenças. E uma delas será a Miami Beckham United.

Sim, porque esse é o nome que a MLS adotou para o grupo de trabalho que está a lidar com a proposta do tatuado e milionário ex-internacional inglês, que parece estar prestes a ser dono de uma equipa de futebol.