Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Neymar pelos dois

E, de repente, o brasileiro rebentou com o teto do futebol: duplicou o valor pago pelo United por Pogba. Como?

Diogo Pombo

Partilhar

Nem dinheiro, nem fama. A decisão de ir para Paris foi emocional: “Foi onde o meu coração pediu para ir”

Nem dinheiro, nem fama. A decisão de ir para Paris foi emocional: “Foi onde o meu coração pediu para ir”

FOTO Christian Hartmann/reuters

De todos os aviões que há no mundo, pensem no Airbus 330-300. Existem pouco mais de 1300 a voar, hoje em dia. É um modelo enorme e este pedaço de metal gigante que faz batota no ar, com as distâncias, leva, por norma, 277 pessoas a bordo. Agora, imaginem que lá dentro, confortavelmente sentado, está um passageiro com ar excêntrico, tatuagens e brincos a adorná-lo, que sai do avião com um cheque no bolso quando aterra em Barcelona. Vai direto ao banco e deposita 222 milhões de euros na conta da liga espanhola, onde joga o clube dele.

Esse passageiro é Neymar, imaginemos, porque é assim que funcionam as coisas em Espanha: os clubes protegem os grandes futebolistas com cláusulas de rescisão ainda maiores que, para serem acionadas, o dinheiro tem de cair, primeiro, no cofre da La Liga, para que o jogador seja libertado do seu contrato; depois, os cifrões passam para a conta do clube que detém o seu passe. E, num instante, o brasileiro deposita dinheiro que seria suficiente para comprar o avião em que viajou e ainda lhe sobrar algum.

Fora aviões, no interior desta exorbitância caberiam dois Pogbas, um par de Bales e dois Ronaldos e meio. Ou as quantias de cada um dos clubes que mais gastaram no mercado de verão, nas últimas sete épocas (ver gráficos). Também haveria muito espaço para ‘ene’ parágrafos sobre o que daria para fazer com os 222 milhões que Neymar vai custar ao PSG, porém, há toda uma vida depois de o dinheiro ser gasto. Há que reavê-lo — e aqui começam as perguntas sobre como vai o clube francês ganhar euros assim que Neymar sair de um avião com destino a Paris.

Ele terá sempre Paris

O brasileiro vai aterrar num sítio muito diferente. O PSG e a Ligue 1 estão longe de ser o Barcelona e a La Liga. Os parisienses, mesmo comprados, em 2011, por investidores do Qatar, que os transformaram em novos-ricos do futebol, continuam a ser apenas o 11º clube mais valioso da Europa e a estar no quinto campeonato que mais dinheiro gera, em direitos televisivos. O Paris Saint-Germain é uma marca que vale menos de um terço do Barcelona, lucra menos com as pessoas que o veem e tem muito menos gente a vê-lo, disse um estudo que a auditora KPMG divulgou, no final de maio.

Neymar, é certo, será sempre Neymar — o primeiro brasileiro a aparecer na capa da “Time”, o solitário futebolista incluído pela revista na lista dos 100 atletas mais influentes do mundo, o único a ganhar mais dinheiro fora do que dentro de campo, garantiu a “Forbes”. Mas os 222 milhões de euros que o fizeram dizer que sim a Paris vão levá-lo para um contexto bem diferente. “A realidade é que o PSG não é um clube global e não me parece que, só por ter comprado o Neymar, possa vir a ter essa projeção internacional. Dar 222 milhões por um jogador na liga francesa não é o mesmo que fazê-lo em Inglaterra ou em Espanha”, resume João Baluarte.

Olhando para os números, o especialista em marcas e publicidade de Brand Finance Portugal crê que “muito dificilmente” haverá “uma racionalidade económica por trás” deste negócio. Porque o contexto é feito pelos números e estes limitam o PSG em várias coisas. Nos direitos televisivos, o contrato da liga francesa com o Canal Plus dura até 2020, logo, os valores para cada clube não oscilarão. Em receitas de bilheteira, tão-pouco, pois o Parque dos Príncipes, estádio do clube, tem 48.583 lugares e não vai alargar com um estalar de dedos — o Camp Nou, já agora, tem 99.354. O PSG, em suma, ainda é apenas o PSG, e está forçado a tentar crescer, apenas, pelo lado das receitas comerciais. E isso faz “elevar brutalmente o risco de retorno de investimento”.

O clube, antecipa João Baluarte, tem de se virar para a imagem global de Neymar. Pega em tudo o que ele já vale, e representa, com o tempo que passou no Barcelona e na seleção brasileira, e “levar o PSG atrás”. O problema é que isso, além de difícil de fazer, pode não chegar.

Porque há uma coisa chamada fair-play financeiro, inventada pela UEFA para apertar com os clubes e garantir, basicamente, que eles não despendem mais do que lucram. E os 222 milhões de euros gastos, de uma vez, em Neymar, mais os 30 milhões que, diz-se, o brasileiro vai auferir por ano, obrigarão o PSG a ter o jogo de cintura de uma ginasta para manter as contas equilibradas.

O fair-play

Fora as cláusulas no contrato, que desconhecemos, mais a carga fiscal em França, que não é magra e vai engordar o salário bruto do jogador, António Samagaio estima que o clube tenha de amortizar, por época e durante os próximos cinco anos (duração do contrato), quase o preço que James Rodríguez custou ao Bayern de Munique. “O desafio do fair-play financeiro obrigará o PSG a arranjar qualquer coisa como 75 milhões de euros por época só para cobrir os custos associados a este jogador — 45 milhões para amortizar o custo do passe, mais os 30 milhões em ordenados, que serão mais, por haver a parte fiscal que cai sobre o valor em bruto”, explica o professor e economista do ISEG.

A tarefa, augura, será “uma enormidade”. E o contexto, lá está, dá-lhe razão. O ano passado, de acordo com a “Forbes”, o PSG teve um resultado operacional de 92 milhões de euros, pouco mais que o valor que terá de amortizar só com Neymar. Terão de “existir receitas adicionais”, acrescenta, e voltamos à necessidade de puxar pelo lado das receitas comerciais que o clube poderá fazer com o seu novo craque brasileiro. António Samagaio fala em promovê-lo fortemente e trabalhar em patrocínios que resultem em eventos, ações de marketing, jogos particulares ou torneios de pré-época. João Baluarte sugere que se carregue nos mercados asiáticos e norte-americano, geografias onde terá de tentar “potenciar” a imagem que Neymar.

E esperar que a marca do PSG, que lhe andará atrelada, se valorize e comece a crescer, para um dia ser o que é o Manchester United. E o clube inglês é uma marca global que tem “uma máquina fortíssima na gestão do merchandising e patrocínios”, que fatura e rende receitas quase independentemente do que consiga fazer no que, para os adeptos, mais interessa — os resultados desportivos.

O clube parisiense tem que os ter, pois sem eles valerá menos e, por consequência, Neymar será menos falado e visto e repetido por quem consome futebol. Ou menos apetecível para marcas que pensam no PSG para se promoverem. Logo, menos receitas a serem geradas. Ou melhor, estimuladas, já que, como sublinha António Samagaio, “ao nível de resultados desportivos na UEFA, os valores anuais de que o clube necessita só serão suficientes se ganharem, todos os anos, a Liga dos Campeões”.

É (im)possível?

Fazer render Neymar para ter retorno do investimento, portanto, parece ser algo hercúleo de concretizar. Não aos olhos de Paulo Barbosa, que em dois ou três anos perspetiva que o PSG consiga rentabilizar o jogador mais caro de sempre. O agente FIFA prevê que a imagem de Neymar e, por conseguinte, o seu valor, sejam amplificados “a partir do momento em que corta o cordão umbilical com o Barcelona e com Lionel Messi”. O brasileiro torna-se um jogador mais importante, argumenta, e os parisienses vão potenciar a sua imagem ao ponto em que apenas Messi “o pode ofuscar”. Não é só pela qualidade que os clubes contratam estrelas — “é também para criar ambições”.

O empresário vaticina que se trata da melhor transferência de sempre, para todos os envolvidos. Neymar foge da sombra de Messi e vai tentar fomentar um clube faminto de títulos e de projeção. O PSG quer “mudar o epicentro do futebol” para uma cidade, lembra, que é a única capital europeia a não ter de dividir atenções por vários grandes clubes. Há que reaver o dinheiro, haver retorno de investimento, respeitar o fair-play financeiro, evitar dívidas, tudo isso, mas é mais ou menos como diz João Baluarte: “Se há alguém a passar um cheque, então haverá alguma expectativa” que o avião tenha uma aterragem segura...

Partilhar