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Nove anos depois, a bola deixou de ser do Barcelona

O 7 de maio de 2008 acontecera há 31 jogos, o tempo e os duelos que passaram com os bons, os pequenos, os técnicos e os viciados no passe sempre do mesmo lado do campo. Quase uma década volvida, o Barcelona foi inferior ao Real Madrid em muitas coisas, mas sobretudo numa, que explica grande parte delas - o tempo com a bola

Diogo Pombo

GABRIEL BOUYS

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Sergi Samper Montaña é um rapaz loiro, cabelo fino e impecavelmente penteado, como se uma escova invisível pairasse sempre sobre ele. Nasceu em Barcelona e nunca cresceu em mais lado algum. É catalão nas entranhas, culé de corpo inteiro e a vida moldou-o com o sonho de triunfar na equipa de futebol da cidade.

Sergi tinha jeito para a bola, aprendeu a ser-lhe natural ser um médio de passar, mexer, tocar outra vez, procurar o espaço, voltar a trocar de posição, e tocar a bola tendo-a como o centro de tudo o que de bom pode acontecer no campo.

Sergi, um bom menino, faz as coisas tão bem que é o primeiro rapaz a jogar em todos os escalões de futebol do Barcelona e a chegar à equipa principal. Estreou-se há dois anos, uma palmada de Luis Enrique no rabo e diverte-te, miúdo. Faz uns jogos, nota-se que é bom e tem inculcada nos pés e na cabeça a ideia de como um clube quer jogar futebol desde que Johan Cruijff ditou que esta é a maneira certa de ser jogado. Sergi é bom, só que, bolas, há gente melhor que ele na equipa e vai emprestado, na época passada, emigra para o Granada e chega a dizer a Arsène Wenger e ao Arsenal, nomes que já se confundem, que nem os quer ouvir.

Ele quer jogar e vingar e ter sucesso no Barcelona, o único clube que lhe interessa. Mas Sergi Samper Montaña fica a saber que tem direito a um número na camisola, não é para ficar no plantel.

O desgosto repetido a este rapaz acontece há dois dias, antes de o clube dele perder, de vez, a Supertaça de Espanha contra quem mais odeia ficar a dever, em Madrid, e depois de já ter sido derrotado, em Barcelona. A história de Sergi Samper podia ser uma brisa a soprar de lado num barco que, cada vez mais, tem de navegar à bolina - não fosse ela uma das formas de mostrar como os ventos que estão a ir contra o clube que nos habituámos a ver dominar, a ter como dominador e a quase nunca ser dominado, na última década.

Alex Caparros

Muito menos pelo Real Madrid dos euros gastos aos milhões, o rival que não rivalizava por estar ofuscado e não se aperceber que olhava o sol de frente ao contratar jogadores pelo nome, a imagem e o apetite nas camisolas, ao apostar em treinadores de estratégia e não de risco, ao pensar que o futebol é luta, batalha, suor, raça e correr mais que o outro e fúria, e esquecer a bola e cercá-la com quem melhor a trata. Porque os outros, montados por Cruijff, secundados por uma escola que ensina miúdos de uma maneira e uma maneira só, ressuscitados por Pep Guardiola, não eram melhores apenas por terem um fenómeno em Lionel Messi.

Eles ganhavam, dominavam, eram melhores e apenas sentiam cócegas dos rivais de Madrid.

Estavam cheios de gente com a cabeça no lugar certo - perto da bola, sempre com ela, a respeitar o facto de ser a coisa que mais rápido se pode movimentar num campo de futebol. E Xavi, Iniesta, Busquets e Messi sabiam-no e quem tinham à volta prosperava com eles. “Juntou os pequenos. Trocámos a fúria pela bola e demonstrámos ao mundo que podíamos ganhar, jogando bem”, escrevia Xavi, no El País, sobre Luís Aragonés, o treinador que respeitou o que viu nesse Barcelona e aplicou-o na seleção espanhola que também tudo ganhou e dominou.

Dentro dos pequenos, dessa descrição, cabem tipos viciados em passe a bola, tocar e depois ir, no jogo de jogadas muitos toques na bola, mas poucos a tocá-la muitas vezes seguidas. É o jogo que Modric, Kroos, Marcelo, Isco e Asensio jogam hoje com um sorriso na cara e nos pés, sempre perto uns dos outros, que os fez ganhar por 5-1 ao Barcelona que antes só beliscavam com velocidade, garra, contra-ataques e luta.

Gonzalo Arroyo Moreno

Um tipo de futebol em que há sempre alguém próximo, todos correm para dar solução de passe e mantêm a bola na relva, feliz nos pés deles, craques crescidos e miúdos espanhóis da cantera, a pressionarem o adversário onde seja e a não terem medo, a arriscarem.

Os pequenos do Real Madrid não duvidam deles mesmos, nem com Ronaldo na bancada e Bale no banco de suplentes. Como o Barcelona duvida do corpo e dos pés de Iniesta, já não reagem à velocidade de luz que tem do génio que tem na cabeça; como duvidou da certeza de que nada no futebol é certo e se deixou apanhar na curva da vontade de Neymar em querer mais; como deixou Xavi ir-se em um alguém para lhe pegar no legado; como está a deixar que a equipa e os adeptos duvidem de Suárez, Rakitic ou Mascherano, craques provados que parecem estar a desvanecer com o rumo confuso que o clube está a tomar.

Porque, antes de se deixar Neymar ir, já ninguém segurou Daniel Alves enquanto se pensava em André Gomes, Vermaelen, Paco Alcácer ou Paulinho, bons jogadores, mas não bons que cheguem para segurar o nível a uma altitude que resista ao lento definhar de uma ideia de jogo, à medida que os sucessores de Guardiola se sucedem, os anos apanham toda a gente e os jogadores que rodeiam Messi vão, aos poucos, piorando. E o argentino, como ontem no Santiago Bernabéu, piora com eles, lento, apático e cabisbaixo, estado em que só um catalão não estava, em campo:

Sergi Roberto.

CURTO DE LA TORRE

Ele também é um rapaz loiro, catalão e culé, e foi o único que passou a bola rápido, a quem tinha perto, para se mexer a seguir e ser uma solução no espaço. Enérgico, ativo, a querer associar-se à equipa. Nove anos depois, ele e os restantes foram a equipa do Barcelona que voltou a ter a bola durante menos tempo que o Real Madrid. O dia 7 de maio de 2008 foi há 31 clássicos entre os rivais e desde aí que a bola era de quem mais queria, conseguia e estava disposto a fazer amor com ela.

Hoje, os catalães já não conseguem e assistiram, destroçados do coração, à forma como Modric, Kroos, Isco, Kovacic, Asensio e até Ceballos a seduziam, sob ordem de um dos maiores sedutores por quem a bola já se deixou levar. Zidane, o génio que teve a sensatez de juntar os pequenos e bons e deixá-los serem felizes vivendo no risco e na ousadia. Uma nova forma de viver que lhes deu sete títulos em ano e meio.

Ou um a cada 13 jogos, ou o mesmo número de canecos e derrotas, porque até as estatísticas já lhes sorriem.

Enquanto isso, Josep Maria Bartomeu, o presidente, diz que está tranquilo e relaxado com a saída de uma parte do tridente (Messi-Suárez-Neymar) que o fez ganhar as eleições, em 2015 - "Temos triplete, temos tridente", foi o lema da campanha - e despreocupado com o clube em que está a misturar alhos com bugalhos, como quem diz, jogadores à Barça com jogadores que são tudo menos isso. É cada vez mais criticado, com direito a hashtags na modernidade das redes sociais, pela passividade com que tem encarado o estado geral das coisas.

E um tipo loiro, alto, catalão de vida e culé de amor, crescido no Barça e chamado pelo clube, há nove anos, para ser feliz em casa, assiste a tudo isto e não quer acreditar. “É a primeira vez, desde que aqui estou, que sentimos que o Real Madrid era superior a nós”, lamentou o Gerard Piqué, uma das poucas histórias que restam para servirem de exemplo, de miúdos que cresceram no clube para serem adultos, viverem-no e sentirem-no para neles assentar o suporte do que o Barça quer ser no futebol.

Gente como Munir, Sandro Ramírez, Marc Bartra e Sergi Samper, que, melhores ou piores, estão a cair em desuso por, talvez, se pensar que basta ter Lionel Messi e tê-lo, feliz e motivado, contra tudo o que os rivais possam ter. Nove anos depois, há o perigo de o argentino piorar com quem o rodeia, enquanto o Real Madrid parece ir melhorando sem a omnipresença de Cristiano Ronaldo.

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