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Neymar, o poeta do ano

Com a transferência milionária do Barcelona para o PSG, Neymar terá de justificar em Paris quanto vale a poesia do seu futebol. Conheça a história do internacional brasileiro que já é o jogador mais caro de sempre

Plínio Fraga, no Rio de Janeiro

FOTO Shaun Botterill - FIFA/FIFA via Getty Images

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O futebol de Neymar é poesia. Em dias inspirados, o atleta prova que a variedade de estilos de cabelo só compete com a de jogadas líricas. Os passos em direção ao golo têm métrica, os passes são estruturados como versos, seus remates têm mudanças tónicas — por vezes fortes, por vezes delicadamente colocados — a enriquecer a beleza do poema.

A metáfora do futebol como poesia é um teorema, uma proposição que pode ser demonstrada por um processo lógico.

Sua origem está na agudeza de pensamento do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975), diretor de filmes como “Teorema” e “Saló”. Em artigo publicado no periódico italiano “Il Giorno”, em janeiro de 1971, Pasolini diferencia o estilo europeu de “futebol de prosa” do brasileiro, que define como “futebol de poesia”. Não aponta superioridade de um sobre outro, apenas características.
Pasolini afirmou que o golo é um momento poético, porque cada golo é invenção, subversão, fatalidade, fulguração, espanto e irreversibilidade. “O artilheiro de um campeonato é sempre o poeta do ano”, escreveu. Assim, o futebol que exprime mais golos é o mais poético.

Sucesso. O internacional brasileiro foi considerado pela revista “Forbes” o atleta jovem mais bem pago do mundo

Sucesso. O internacional brasileiro foi considerado pela revista “Forbes” o atleta jovem mais bem pago do mundo

FOTO Ryan Pierse - FIFA/FIFA via Getty Images

O futebol prosa, definiu ele, tem a sua força no sistema, no esquema, na organização do jogo coletivo, sendo mais geométrico e rígido. São marcas históricas do futebol europeu. A seleção da Alemanha é futebol prosa. O Barcelona é futebol prosa, apesar de Lionel Messi ser futebol poesia.

Em 1970, ano anterior ao do artigo escrito por Pasolini, a seleção brasileira vencera a Copa do Mundo do México, em final contra a Itália, tornando-se a primeira seleção tricampeã mundial. Pasolini concluiu que os jogadores brasileiros — e latino-americanos em geral — são os mais poéticos, porque concentram seu jogo no drible e no golo.

Pasolini dizia que o sonho de todo o jogador, compartilhado pelos espectadores, é partir da metade do campo, driblar os adversários e marcar. “Se, dentro dos limites permitidos, é possível imaginar algo sublime no futebol, trata-se disso.”

Foi com um tento sublime como o sonhado por Pasolini que Neymar obteve o Prémio Puskas de 2011, aquele que escolhe o golo mais bonito do ano. Neymar venceu sete adversários desde o meio-campo, com um drible espetacular ao último defesa e um toque seco no momento do golo, como se fosse um experiente jogador de snooker introduzindo a bola no buraco com elegância. Tinha então apenas 19 anos. O golo que marcou pelo Santos, o clube que o revelou, contra o Flamengo em 2011, projetou o seu nome pelo mundo.

Neymar da Silva Santos Júnior, 25 anos completados em 5 de fevereiro, trocou Barcelona por Paris na semana passada, na maior negociação da história do futebol mundial. O Paris Saint-Germain desembolsou 222 milhões de euros para tirar Neymar do Barcelona. O clube francês pagou quase três vezes mais do que o espanhol investira para levar o jogador do Santos para a Europa em 2013.

Com o valor que o PSG depositou, seria possível fazer as quatro maiores contratações deste ano no futebol mundial. O passe de Neymar vale os passes somados do avançado-centro Romelu Lukaku (Manchester United), do avançado-centro Álvaro Morata (Chelsea), do lateral-esquerdo Benjamin Mendy (Manchester City) e do avançado-centro Alexandre Lacazette (Arsenal).

Antes mesmo dessa transação, Neymar havia sido apontado pela revista “Forbes” como o atleta jovem mais bem pago do mundo. O grupo é composto por atletas profissionais com menos de 26 anos de basquete, golfe, futebol e futebol americano. Apenas três jogadores de futebol aparecem na lista: Paul Pogba, James Rodríguez e Neymar, que ficou em primeiro lugar, com vencimentos anuais avaliados em 37 milhões de euros, superando nomes como o golfista Jordan Spieth e a estrela da NBA Kyrie Irving.

O brasileiro foi o único jogador de futebol a ganhar mais dinheiro de patrocinadores do que no campo. Tem contratos com gigantes globais como Nike, Gillette, Panasonic e Beats by Dre. Inspirada na experiência com Michael Jordan, a Nike fez para Neymar chuteiras personalizadas.

A MÁGICA DE PARIS

Como “poeta do ano”, Neymar mudou-se para Paris, a cidade cujas lembranças Charles Baudelaire dizia que pesavam mais do que rochedos. O ensaísta brasileiro José Miguel Wisnik apelidou Neymar de “Baudelaire” do futebol. O poeta e o atleta dividem, em sua visão, o gosto pelo sucinto, pela sugestão do verso ou da jogada em movimentos elípticos.

“É um jogador da linhagem que mantém vivo o futebol poético. Neymar tem um extraordinário repertório de dribles. É um repertório que choca pela inventividade e frescura. É um repertório de movimentos não-lineares que podem ser considerados elipses, um conceito que é geométrico e retórico. Os seus movimentos são baseados em curvas ou congelamento do tempo. Neymar é pura elipse.”

Wisnik aponta qualidades extracampo de Neymar que o tornam um popstar. “Além da sua habilidade mágica com a bola, tem um carisma natural, extraordinária afabilidade e habilidade para manipular a sua imagem pública como artista. O cabelo dele, a forma como usa o colarinho das camisas e o modo como comemora os seus golos fazem parte da performance poética de Neymar.”

Para cumprir o projeto para o qual foi chamado, Neymar terá de destruir muitas pedreiras para levar o Paris Saint-Germain ao título da Champions League, na qual só chegou à semifinal uma vez, na temporada 1994-1995.

Ao anunciar a sua ida para Paris, justificou a escolha: “A vida de um atleta é movida por desafios — alguns são impostos a nós, outros são fruto de uma decisão nossa — para mantermos a luz que ilumina a nossa carreira, que é intensa, mas curta.” Afirmou que contrariou a pessoa que mais respeita ao trocar a Espanha pela França: “Um atleta precisa de desafios. Pela segunda vez na vida, contrariei meu pai.”

Neymar chegou ao Barcelona há quatro anos, cumprindo um desejo antigo. “O Barcelona foi um sonho de criança, porque jogava videogame com aqueles craques”, lembrou. Ao se despedir, foi gentil com aquele que o manteve na sombra no período catalão: “Tive a honra de atuar com o maior atleta que vi na vida e tenho a certeza de que não verei outro enquanto viver: Leo Messi.”

FOTO Aurelien Meunier/Getty Images

Por trás da mudança, está também o mal-estar provocado pela investigação judicial que apura a fraude fiscal nos pagamentos feitos pelo Barcelona ao Santos e à família de Neymar. “A minha família sofreu muito com alguns problemas que ocorreram neste período da minha carreira. Hoje merece paz”, disse Neymar, evidenciando que o processo é uma das razões que o fizeram deixar a Espanha.

No Brasil, o jogador enfrenta uma investigação com a mesma origem. Entre 2011 e 2013, nos dois países, Neymar é acusado de não ter declarado ganhos que chegam a 30 milhões de euros. Sintomático é o que disse ao assinar o contrato com o PSG: “Nunca fui movido por dinheiro.” Mas o dinheiro, por certo, move-se em torno de si com grande frequência.

Neymar é um novo símbolo do futebol em diversas frentes. É símbolo da era, por exemplo, em que um fundo de investimento suportado pela monarquia do Qatar usa o futebol para fazer diplomacia simpática. Em 2011, o fundo comprou o controlo do PSG e assumiu uma postura agressiva no mercado de transferências. Não há sector relevante da economia intocado pelos dirigentes do Qatar, a família Al Thani, com mais de 335 mil milhões de dólares em investimentos pelo mundo. Estão em ramos tão díspares como petróleo e gás, automóveis e moda, além do futebol.

Neymar é um símbolo da nova geração do futebol brasileiro, que tenta superar em campo os atrasos estruturais que o país enfrenta na política e na economia. Até o primeiro título mundial, em 1958, o escritor Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro sofria do complexo de vira-latas. Essa aceitação do fracasso como inscrito na alma teria levado à dolorosa derrota na final da copa do mundo de 1950, frustrando o que seria o primeiro título mundial.

Neymar está noutro patamar. “Aquele complexo de vira-lata de que Nelson Rodrigues falava não existe mais. O que temos é um complexo narcísico de que o Brasil precisa se livrar”, detetou o escritor e artista plástico Nuno Ramos, um dos grandes analistas brasileiros. Ramos diz que, em vez da alegria que representava o futebol de craques do passado como Garrincha, Neymar representa potência e fúria.

Letal. O tridente atacante do Barcelona conhecido por “MSN” (, Suárez e Neymar) fez estragos em Espanha e no resto do mundo. Os catalães vão ter agora de encontrar um substituto para Neymar

Letal. O tridente atacante do Barcelona conhecido por “MSN” (, Suárez e Neymar) fez estragos em Espanha e no resto do mundo. Os catalães vão ter agora de encontrar um substituto para Neymar

FOTO Miguel Ruiz/FC Barcelona via Getty Images

“Neymar junta as habilidades individuais de Ronaldinho e de Robinho, por exemplo, com a enorme capacidade de fazer golos de Ronaldo Fenómeno”, definiu Paulo Vinicius Coelho, um dos melhores comentaristas de futebol do Brasil.

Neymar Jr. foi criado para ser estrela do futebol. Filho de um ex-jogador de futebol, Neymar (pai), com passagens por clubes de pequena expressão e de uma dona de casa (Nadine), o craque nasceu em Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo, onde o pai atuava, mas cresceu em São Vicente, à beira do oceano Atlântico.

O pai conta que sempre acreditou numa máxima de um ex-massagista da seleção brasileira. “O craque é reconhecido desde o jeito de andar”, dizia Mario Américo. Neymar pai jura que percebeu o talento do filho para o futebol quando ele deixara de gatinhar.

“Com uns três anos, Juninho devolvia a bola direitinho quando eu a tocava em sua direção. Aquela coisa de pai e filho brincando com a bola. Para ele, a bola não era um brinquedo qualquer. Era coisa séria.”

O pai começou a treinar Neymar Jr. por conta própria. Dava passes tortos para que Neymar se esforçasse para dominar a bola e repetia exercícios de controlo de bola que incluíam até laranjas.

Como profissional, Neymar pai atuou como extremo-direito. Sabia driblar, mas chutava mal. Fez poucos golos na carreira. Como mentor, foi metódico, rigoroso e avarento, como gosta de relembrar.

Exigia que Neymar soubesse chutar com as duas pernas. O rapaz treinava muito, poupava muito, divertia-se às vezes dançando ou conversando com os amigos. Nunca foi de saídas noturnas nem de bebidas alcoólicas.

A paixão estava mesmo no futebol, que o fazia investir numa coleção de bolas. Tinha 54 no seu quarto. Gostava de esparramar-se por entre elas. Seu mundo era a bola desde sempre.

FOTO Tim Clayton/getty images

Em 1998, a família de Neymar — que tinha então 6 anos — mudou-se de São Vicente para a vizinha Santos, cidade de média dimensão no litoral de São Paulo. O pai trabalhou como auxiliar de serviços gerais, uma espécie de faz-tudo na Prefeitura de Santos. Ganhava mal. Por diversas vezes a família jantou à luz de velas, porque a eletricidade havia sido cortada por falta de pagamento.

Neymar entrou na sua primeira escolinha de futebol e, aos 7 anos, participava em torneios de equipas de futebol de salão na cidade de Santos. O futsal, praticado com cinco jogadores em campo, teve forte influência em Neymar. Com mais velocidade e menos espaços, o jogo exige técnica, agilidade de pensamento e habilidade. São movimentos rápidos e secos em área reduzida. No torneio de estreia pela Portuguesa santista, o menino Neymar marcou 23 golos em 14 jogos, chamando a atenção de olheiros diversos.

Aos 11 anos, Neymar Jr. obteve o seu primeiro contrato com o Santos. Foi indicado por Zito, um médio que foi campeão mundial de futebol pela seleção brasileira em 1958 e 1962. Exercia no Santos a função de olheiro. Zito descobriu Neymar ao assistir a partidas do Gremetal, o clube de futebol dos metalúrgicos de Santos.

Três anos depois de iniciada a carreira no Santos, Neymar foi a Espanha para fazer testes no Real Madrid, clube de Robinho, também santista e seu ídolo. Permaneceu 19 dias em Madrid, mas desde a primeira semana já reclamava da comida e do frio. Assistiu a três jogos do Real Madrid na tribuna de honra do Estádio Santiago Bernabéu. No período de testes, marcou 27 golos nos treinos do Real Madrid. Conviveu com Robinho e Roberto Carlos, mas não se encantou. Pediu para voltar para Santos. O clube paulista comprou-lhe um apartamento e aumentou o seu salário. Aos 13 anos, passaria a ganhar o equivalente a 6000 euros. O seu pai tinha um salário de 700 euros. Os seus colegas da equipa infantil no Santos tiravam no máximo 60 euros por mês.

Badalado, passou a frequentar as listas de apostas de futuro craque. Chegou a dar entrevista para uma emissora de televisão, em vídeo agora famoso. É um menino sorridente, magro e tímido, já manifestando a mania que guarda até hoje de passar a mão nos cabelos enquanto fala.

Em 7 de março de 2009, Neymar, aos 17 anos, fez a sua estreia na equipa profissional do Santos. Vestia a camisola 18 do equipamento de listas brancas e pretas verticais da equipa santista. O Santos teve nas suas fileiras o maior jogador de todos os tempos, Pelé, nº 10 durante 18 anos, nos quais disputou 1116 jogos e marcou 1091 golos. Era essa a expectativa que envolvia Neymar na sua estreia. Poderia ser um novo Pelé? O Santos venceu por 2 a 1 à formação do Oeste, mas Neymar não marcou. Aos 14 minutos, fez um drible e rematou à trave. Saiu aplaudido de pé por 21.918 pagantes.

Até 2010, quando Neymar venceu o primeiro grande torneio no Santos — a Copa do Brasil — ele foi visto tão promissor quanto problemático. Reclamava-se de que simulava muitas faltas, provocava rivais, usava dribles como forma de deboche. O tamanho do ego abriu chance para que o seu talento fosse questionado.

Como craque do Santos, provocou a demissão do treinador Dorival Junior, um dos seus maiores fãs. Neymar perdera três penáltis em partidas recentes, por paradinhas mal executadas. Dorival impediu que continuasse como cobrador de penalidades. Neymar reclamou e chegou a atirar uma garrafa de água no auxiliar de Dorival. O treinador adversário que viu o lance violento de Neymar disse que o futebol brasileiro estava criando um monstro ao adular sua vaidade.

Estrelato. Neymar fez o seu primeiro jogo com a equipa profissional do Santos a 7 de março de 2009. Tinha 17 anos. Apesar do assédio de clubes como o Chelsea e o Real Madrid, optou, em 2013, por mudar-se para o Barcelona. O Paris Saint-Germain é o próximo passo na escalada de sucesso

Estrelato. Neymar fez o seu primeiro jogo com a equipa profissional do Santos a 7 de março de 2009. Tinha 17 anos. Apesar do assédio de clubes como o Chelsea e o Real Madrid, optou, em 2013, por mudar-se para o Barcelona. O Paris Saint-Germain é o próximo passo na escalada de sucesso

FOTO Alex Caparros/Getty Images

Aos poucos, o jogador acalmou-se. Procurou mudar a sua imagem. Abandonou o estilo desafiador, participou de campanhas humanitárias, criou uma instituição de apoio a crianças carentes, assumiu o filho (Davi Lucca) de um relacionamento fortuito que manteve aos 19 anos. Não se casou. A namorada mais famosa foi a atriz Bruna Marquezine, uma relação com indas e vindas constantes.

O Instituto Projeto Neymar Jr. atende hoje 2400 crianças e adolescentes dos 7 aos 17 anos e as suas famílias, atingindo cerca de 10 mil pessoas, integradas por meio de atividades desportivas e educacionais.

Neymar reforçou os laços que mantinha com a igreja evangélica (Ministério Batista Peniel), que frequentava desde os 8 anos. Foi batizado aos 15 anos, na praia de Gonzaguinha, em Santos. Desde de criança, pagava o dízimo cobrado pela igreja. Atleta profissional, optou por fazer doações mensais sem valor fixo. Na comemoração dos seus títulos, usa bandanas e camisas com a mensagem “100% Jesus” — foi assim na medalha de ouro olímpica em 2016, por exemplo.

A partir de 2011, tornou-se o maior jogador da seleção brasileira de futebol. Comandou a conquista da Copa das Confederações em 2013 e aumentou a esperança dos brasileiros de vitória na Copa do Mundo de 2014, disputada no país. Neymar contundiu-se nos quartos de final e foi cortado da equipa. Na semifinal, o Brasil perdeu para a Alemanha por 7 a 1. A geração de Neymar teve o seu valor questionado pelos torcedores.

OLHOS NO FUTURO

Da safra mais recente de craques brasileiros, Neymar foi o que mais atuou no país. Disputou cinco temporadas. Romário ficara apenas três, antes de ir para a Europa. Ronaldo Fenómeno e Ronaldinho Gaúcho, apenas duas. O Chelsea tentou levar Neymar em 2010. O Real Madrid retomou a carga em 2011. Diante da abissal diferença económica entre o futebol brasileiro e europeu, Neymar foi jogar ao lado de Messi em 2013. Escolheu o Barcelona, clube do qual sempre foi fã.

Neymar aguarda a chance de recuperação do Brasil na Copa do Mundo de 2018 e investe na conquista da Champions League pelo PSG para tentar se tornar o melhor jogador de futebol do mundo. Em 487 jogos como profissional, marcou 293 golos, média de 0,60. Pelé encerrou a carreira com média impressionante de 1,02 golos por jogo.

Ex-parceiro de Pelé no tricampeonato mundial de 1970, Tostão, atual comentarista desportivo, analisou o futuro de Neymar. “Se Neymar poderá se tornar o melhor jogador do mundo, eu não sei, mas não há dúvida de que ele é um fenómeno, um espetáculo de jogador. Ele faz muito bem tudo o que um atacante precisa fazer. Chuta bem, dribla bem, é inteligente. Passa bem, bate falta e é veloz. Ele ainda não é, mas ele tem grande chance de se tornar o segundo maior jogador da história do futebol brasileiro. Só vai estar abaixo de Pelé.”

Tostão enumera pontos em que Neymar precisa melhorar. “Ainda fica muito irritado em campo, cava muita falta, às vezes ele cria muito atrito com os adversários. Mas os números dele são uma coisa impressionante.”

Em sua autobiografia “Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos”, Tostão levantou a tese de que a cada 12 anos surge um selecionado brasileiro excecional. “Não é coincidência. É o tempo de iniciar e terminar uma geração. 1958, 1970, 1982. Em 1994, não foi assim tão boa, mas foi vencedora e tinha Romário e outros jogadores excelentes. Em 2006, o Brasil tinha sete jogadores na lista dos melhores do mundo. Nessa conta, a próxima grande geração seria a de 2018. Liderada por Neymar.

Na apresentação em Paris, Neymar mostrou-se bem-humorado quando um repórter perguntou: “E o peso de ser o jogador mais caro do mundo? Como fica?” Neymar respondeu: “Continua a mesma coisa. Continuo pesando 69 quilos.”

Quatro anos depois de chegar a Barcelona, Neymar disse adeus - e o clube já o retirou de todos os posters e imagens

Quatro anos depois de chegar a Barcelona, Neymar disse adeus - e o clube já o retirou de todos os posters e imagens

JOSEP LAGO/GETTY



Quanto vale Neymar?

O valor pago pelo Paris Saint-Germain ao Barcelona pela transferência de Neymar — €222 milhões ($262 milhões ou R$820 milhões) — é gigante e cruel em um país desigual como o Brasil. Seria suficiente para custear a sobrevivência de 420 mil dos 14 milhões de famílias que vivem à custa do Bolsa Família, programa de complementação de renda. Cada família recebe por ano 600 euros para ajudar na sua sobrevivência.

Mesmo na comparação com os ganhos de grandes empresas brasileiras impressiona. Ficou muito próximo do lucro líquido da Gol, gigante do sector aéreo, no ano passado (€247 milhões) e acima do resultado da operadora de telefonia móvel TIM (€218 milhões).

Se tomado o faturamento das grandes companhias brasileiras apenas no primeiro trimestre de 2017, a soma paga por Neymar ficou perto daquele registado pela Alpargatas, dona da Havaianas, uma das marcas brasileiras de maior sucesso em todo o mundo (€238 milhões).

As cifras são grandes também quando se considera o orçamento público. O valor de R$820 milhões é maior que o orçamento previsto para o Ministério da Cultura em 2017, de R$721 milhões.

Texto originalmente publicado na edição de 12 de agosto de 2017 da revista E