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Algo está mal no reino da Catalunha

A saída atribulada de Neymar, o motim do “Instagram”, a possibilidade de Messi ir para o Manchester City - o Barcelona vive um período de balbúrdia interna e quanto mais Josep Maria Bartomeu, presidente do clube, a tenta controlar, maior ela se torna. Tudo lhe foge das mãos. Para se jogar ao “tika-taka”, para ganhar como o Barcelona gosta de ganhar, é preciso harmonia dentro da equipa. A questão é: quem é que vai dar ordem à casa?

Fábio Monteiro

Messi e Neymar foram colegas no Barcelona durante quatro épocas

LLUIS GENE/GETTY

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Despeça-se o presidente, pedem - exigem - os adeptos do Barcelona, já há algum tempo.

“Nobita [personagem da série de desenhos animados Doraemon] vai-te embora, és o pior presidente que o Barcelona já teve, e, para bem do clube, tem dignidade e demite-te”, escreveu um adepto mais ‘fanático’ do clube catalão na página da Wikipedia de Josep María Bartomeu, ainda esta semana.

Ao que tudo aponta, estamos a falar de uma ideia consensual: não são poucos os adeptos que culpam Josep Maria Bartomeu, presidente do Barcelona desde 2014, pela falta de rendimento e vitórias do clube nas últimas épocas (e, lá iremos, nem os jogadores do clube parecem estar do seu lado). Nas redes sociais, Bartomeu passou o verão todo a ser “crucificado” pela falta de triunfos ou contratações vistosas… mas a saída atribulada de Neymar veio piorar tudo.

Da saída de Neymar...

Falta harmonia no Barcelona - aquela coisa que Zinedine Zidane parece ter semeado no Real Madrid nas últimas duas épocas. Falta espírito e vitórias. E, claro está, isto não agrada nem um pouco aos adeptos. Com o Barcelona a marcar passo, Neymar decidiu “mudar de ares” e assinar pelo Paris Saint-Germain; o clube francês foi obrigado a pagar o valor da cláusula de rescisão, €222 milhões, pois o Barcelona não se mostrou, em nenhum momento, disposto a vender o brasileiro.

Em parte, isto fez de Neymar um “jogador ingrato” para com o clube catalão, mas por outro, todas as limitações e problemas levantados pelo Barcelona durante a transferência (e nome de Bartomeu esteve sempre no centro deste furacão) também não ficaram bem na fotografia.

O clube catalão, durante as negociações de venda, chegou a bloquear o prémio de renovação de contrato do internacional brasileiro - cerca de €26 milhões - para o forçar a ficar no clube. E, mesmo depois de vendido, o Barcelona fez estender ao máximo a chegada da certidão de transferência do jogador a Paris, para que este pudesse jogar. Faltou “fair-play”, digamos.

Descontado o cheque do PSG, continuaram a chover críticas de carácter sobre Neymar, por parte de vários nomes ligados ao Barcelona. Foi tecida uma narrativa de traição, com a intenção de retratar o internacional brasileiro como o mau da fita. Mas as críticas foram tantas que acabaram por resvalar para dentro, transformando o ofendido em ofensor: a equipa, os ex-colegas de Neymar, ficaram cansados da história que estava a ser escrita e saíram do guião em defesa do brasileiro.

Para eles, como para os adeptos, o problema é interno.

... ao motim do “Instagram”

O que aprendemos esta semana: a vingança, no século XXI, serve-se no Instagram.

Veio a público na terça-feira que o Barcelona avançou com um processo sobre Neymar e está a exigir €9 milhões por imcumprimento do contrato. Coincidência das coincidências, não foi Neymar estar em… Barcelona naquele dia, para comemorar o aniversário do seu filho, Davi Luca, e ter convidado alguns dos antigos colegas de equipa para estarem presentes.

Instagram

Poucas horas depois de ter sido avançada a notícia do processo do Barcelona a Neymar, o brasileiro foi para o “Instagram” publicar fotos do evento familiar, onde aparece ao lado de Messi, Suárez, Piqué - uma forma indireta de dizer ao clube catalão que conta com o apoio dos ex-colegas de equipa.

O Barcelona foi apanhado de surpresa e os media espanhóis, que fizeram manchete com as fotografias na quarta-feira, apelidaram esta situação como o “motim do Instagram”.

Instagram

“Alguma coisa esta direção [do Barcelona] tem de estar a fazer muito mal ou errado no tratamento dos jogadores, para eles responderem assim. Ao ponto de merecer esta bofetada? Esta vingança pública de Bartomeu, onde aparecem alguns dos jogadores mais simbólicos da equipa, chega a parecer-me cruel”, escreveu o comentador desportivo espanhol Alfredo Relaño, no desportivo “AS”.

Mais uma vez, os olhos dos adeptos voltaram a virar-se para Josep Maria Bartomeu, para pedir a sua demissão.

E se Messi fosse para o Manchester City?

Se a situação do presidente do Barcelona já era complicada, esta quinta-feira pode ter-se tornado ainda pior. Pois se o clube catalão perder Messi, o diamante do plantel, não haja dúvidas que nenhum adepto o vai perdoar.

De acordo com o “The Sun”, Jorge Messi, pai do internacional argentino, voou nos últimos dias para Inglaterra e esteve a conversar com Txiki Begiristain, diretor de futebol do Manchester City (que já trabalhou no Barcelona), sobre a possibilidade do internacional argentino mudar-se para a equipa orientada por Pep Guardiola na próxima época.

Messi tem contrato com o Barcelona até junho de 2018 e uma cláusula de rescisão de €300 milhões. Os sultões do ‘City’ não devem estar dispostos a pagar este valor pelo jogador, mas estão mais do que disponíveis para o receberem no seu clube de graça. Para isso, basta que Messi rejeite renovar o contrato e assim, no final da próxima época, possa sair a custo zero.

Bartomeu tinha dito em junho que a renovação de Messi estava garantida, mas passados quase três meses a situação continua a mesma. Segundo o “Mirror”, o argentino vai voar esta quinta-feira com Josep Maria Bartomeu, para o Mónaco, onde decorrerá o sorteio da Liga dos Campeões, para os dois falarem sobre a sua renovação de contrato.

O presidente do Barcelona arrisca ter más notícias: Messi pode fazer-lhe uma “paradinha” estratégica, como quem se prepara para bater um penálti, e não aceitar (já) renovar. E ninguém sabe para onde é que ele vai atirar o seu futuro. Certo é que um vai definir o futuro do outro.

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