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Futebol total é na Premier League

A nova época da Premier League arrancou há dias. Fundada há 25 anos, a liga inglesa transformou-se rapidamente na mais rica, mais poderosa e mais popular no mundo inteiro. Mas será mesmo a melhor de todas?

Paulo Anunciação, em Londres

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A criação da Premier League foi desenhada entre pratos de sushi e copos de saké numa mesa do restaurante Suntory. Numa tarde de 1988, o presidente da ITV Sport, Greg Dyke, almoçou com o vice-presidente do Arsenal, David Dein, num dos restaurantes da moda no centro de Londres. Os dois homens, que não se conheciam, encontraram muitos pontos de sintonia. Dyke, um executivo com uma carreira ascendente na televisão britânica (chegaria ao topo da BBC em 2000), era um negociador nato e um adepto obcecado do futebol. Dein, acionista importante do clube londrino, combinava um fascínio por tudo o que dizia respeito ao desporto profissional norte-americano com a frustração que sentia — enquanto dirigente do Arsenal — por ter de lidar com a estrutura pesadíssima da Football League, a organização que desde o século XIX geria as várias divisões do futebol profissional em Inglaterra.

O futebol inglês, nessa altura, vivia um dos momentos mais negros da sua história. Os melhores futebolistas britânicos jogavam no estrangeiro. As ligas de Itália e de Espanha tinham mais receitas, mais espectadores e, sobretudo, mais dinheiro. Os clubes ingleses tinham sido banidos das competições europeias na sequência dos incidentes no estádio de Heysel (Bruxelas), em 1985, quando adeptos do Liverpool empurraram para a morte quase quatro dezenas de espectadores, na maioria italianos adeptos da Juventus. Os estádios ingleses eram arcaicos e desconfortáveis. A violência e o hooliganismo eram frequentes. Ainda em 1985, um fogo destruíra uma bancada do campo do Bradford City, causando a morte de 56 pessoas. Em 1989, outro desastre impressionante, numa meia-final da Taça de Inglaterra, no estádio de Hillsborough, em Sheffield, tirou a vida a 96 espectadores, que morreram esmagados ou asfixiados, na pior tragédia da história do desporto britânico.

Quando se sentou à mesa do Suntory, Greg Dyke tinha como objetivo principal convencer o Arsenal e, por arrastamento, os restantes quatro ‘grandes’ do futebol inglês — na altura, Liverpool, Manchester United, Everton e Tottenham — a vender os direitos de transmissão televisiva dos seus jogos do campeonato. A ideia era revolucionária e chocava com os fundamentos da Football League. Depois daquela reunião introdutória, seguiram-se outros encontros nos bastidores. Dyke falou com os patrões de todos os ‘cinco grandes’. Dein serviu de ponte no relacionamento, difícil, com a Football League. Mas logo ficou claro que a única hipótese de êxito implicaria uma medida radical: a secessão, o corte total com a liga e a criação de uma entidade autónoma e mais profissional.

No verão de 1991, os clubes da divisão de topo do futebol inglês assinaram um acordo preliminar cujos princípios básicos eram a criação dessa tal entidade nova, com independência comercial e capacidade para negociar um contrato televisivo próprio. O argumento principal, usado na altura, foi a necessidade de aumentar as receitas, de forma a poder competir com os clubes do resto da Europa. A Football League opôs-se e ameaçou com processos judiciais. Mas a decisão era irreversível. Em maio de 1992, os clubes deixaram mesmo a divisão principal e criaram a Premier League (o nome escolhido de início, Super League, foi abandonado por ser considerado “algo arrogante”). A Premier League foi constituída como sociedade comercial e assinou um contrato televisivo com a Sky Sports (a ITV Sport de Dyke, curiosamente, acabaria por perder o comboio). No dia 15 de agosto de 1992 disputou-se a primeira jornada da primeira época da Premier League. O Suntory já não existe em Londres, mas a casa ganhou um lugar na história. Aquele almoço de 1988 foi a rampa de lançamento para a criação de uma organização que em pouco tempo se transformaria na liga de futebol mais rica, mais poderosa e mais popular no mundo inteiro.

Verbas astronómicas

Muitos fatores contribuíram para o enorme êxito da Premier League. Em primeiro lugar, o facto de ter começado do zero, com possibilidade de criar estruturas de governança modernas e eficazes. A Premier League continua a ser uma empresa privada detida pelos 20 clubes (eram 22 em 1992) que todos os anos a integram. Cada clube tem um voto, e as decisões mais importantes requerem uma maioria de dois terços. Outro ponto importante é o facto de a negociação dos direitos televisivos ser coletiva e de o mecanismo de repartição do ‘bolo’ ser bem mais equitativo do que em países como a Espanha ou a Itália. Em 2016-17, por exemplo, a Premier League pagou quase 151 milhões de libras (166 milhões de euros) ao novo campeão nacional, o Chelsea. O Sunderland, último classificado — uma equipa que marcou 29 golos e somou apenas seis vitórias em 38 jornadas —, recebeu, mesmo assim, 93,4 milhões de libras (103 milhões de euros). Este valor é muito superior à soma das receitas televisivas de Benfica, FC Porto e Sporting na Liga NOS no mesmo ano.

A Premier League reparte cerca de metade das receitas televisivas nacionais de forma igual por todas as equipas. A outra metade é dividida consoante o mérito desportivo (classificação final no campeonato) e o número de transmissões televisivas em que cada clube efetivamente participou. Este mecanismo de repartição equitativa fortalece a competitividade do campeonato e o equilíbrio entre as equipas. As receitas provenientes da venda dos direitos televisivos no estrangeiro — uma área do negócio que está a revelar-se cada vez mais lucrativa — são também divididas de forma igual por todos os clubes. Em 2016-17, por exemplo, a Premier League distribuiu pelos 20 clubes cerca de 782 milhões de libras (860 milhões de euros) provenientes de direitos pagos por dezenas de redes televisivas estrangeiras, como a NBC (Estados Unidos da América), a beIN Sports (Médio Oriente) ou a portuguesa Sport TV. Os jogos da Premier League são transmitidos em direto para mais de 210 países ou territórios (a Coreia do Norte é uma das exceções).

Em 1992, a aposta na parceria com a recém-criada Sky Sports — um cadeia de televisão por satélite e assinatura, propriedade do magnata australiano Rupert Murdoch — foi certamente arriscada. Mas foi uma aposta ganha. O apetite dos telespectadores pelo produto futebol ultrapassou as expectativas. A Sky aproveitou esta explosão de interesse pelo campeonato inglês e cresceu de mãos dadas com a Premier League. Explorou os avanços tecnológicos e tirou proveito da queda dos preços dos serviços por satélite. A ligação íntima entre a Sky e a Premier League mantém-se até hoje. Em 1992, a cadeia televisiva pagou 191 milhões de libras (210 milhões de euros) por um contrato de cinco anos que previa a transmissão para o Reino Unido de 60 jogos da Premier League cada temporada. Os valores nunca pararam de crescer. E dispararam a partir de 2007, depois de a Comissão Europeia ter quebrado a posição dominante da Sky e forçado a entrada em cena de outros operadores televisivos concorrentes, como a Setanta, a ESPN ou, mais recentemente, a BT Sports. O atual contrato prevê a transmissão de 168 jogos por época, ao longo do triénio 2016-19, nos canais britânicos da Sky Sports e da BT Sports e envolve um total de 5136 milhões de libras (5649 milhões de euros). Em 1992-97, a Sky pagou, em média, pouco mais de 600 mil libras (660 mil euros) por cada jogo transmitido. Em 2016-19, Sky/BT Sports pagam, agora, mais de 10 milhões de libras (11 milhões de euros) por partida.

Com a viragem do século, a Premier League afirmou-se como uma ‘marca’ a nível global, a brand de futebol mais famosa e reconhecida no planeta. Uma marca de sucesso que aproveita o predomínio da língua inglesa. Tira proveito, igualmente, do facto de a Inglaterra continuar a ser vista historicamente como a pátria do futebol, com uma tradição mais do que centenária de jogos em estádios cheios, com ambiente vibrante, público barulhento e muito próximo do relvado. “Os nosso jogos [da Premier League] são transmitidos em mais países do que os jogos das ligas de Espanha, Alemanha ou Itália. São vistos por mais gente. Ocupam mais horas de transmissão”, diz Richard Scudamore, de 59 anos, ex-CEO e agora presidente executivo da Premier League (salário mais prémios: 3,2 milhões de euros anuais). “Não será, talvez, a liga europeia com a qualidade técnica mais elevada. Mas no estrangeiro dizem que é a liga mais empolgante, mais barulhenta, mais ‘física’ — e que, por isso, é mais interessante do que todas as outras.”

A invasão estrangeira

Mas será a Premier League uma liga verdadeiramente inglesa? O crescimento da marca a nível global despertou o interesse crescente dos estrangeiros. O padrão típico do proprietário de clube de futebol inglês mudou a uma velocidade incrível. Os antigos patrões — em geral, donos de pequenas fortunas locais, com uma ligação sentimental ao clube da terra — começaram a ser substituídos por milionários vindos de países tão distantes como a China ou os EUA (os quatro clubes da zona de Birmingham, por exemplo — Aston Villa, Birmingham City, West Bromwich e Wolverhampton —, estão nas mãos de chineses).

Estes investidores estrangeiros endinheirados são atraídos, em primeiro lugar, pelas oportunidades de negócio puro e simples. Querem deitar a mão a uma fatia do bolo da liga inglesa. Outros serão movidos pela vontade de ganhar respeitabilidade e popularidade. Ou por pura paixão futebolística. “Nos últimos anos, o número de ‘novas fortunas’ aumentou muito em todo o mundo. Uns gostam de colecionar iates, jatos e palácios de luxo. Outros decidem divertir-se com o futebol, um produto na moda. E nada está mais na moda do que o futebol inglês”, diz Keith Harris, de 64 anos, um consultor financeiro com longa experiência em takeovers de clubes de futebol.

Milionários . As transmissões televisivas renderam quase 151 milhões de libras (166 milhões de euros) ao novo campeão nacional, o Chelsea. O Sunderland, último classificado, recebeu 93,4 milhões de libras (103 milhões de euros)

Milionários . As transmissões televisivas renderam quase 151 milhões de libras (166 milhões de euros) ao novo campeão nacional, o Chelsea. O Sunderland, último classificado, recebeu 93,4 milhões de libras (103 milhões de euros)

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O que têm em comum um oligarca russo, um vice-primeiro-ministro árabe e um milionário tailandês com um império de duty-free shops? Todos eles são atualmente donos de um clube da Premier League. Dos 20 clubes que vão disputar o campeonato de 2017-18, apenas sete — como o londrino West Ham, propriedade de David Sullivan e David Gold, antigos barões da indústria pornográfica — permanecem totalmente em mãos britânicas. Todos os clubes que conquistaram o título nacional no século XXI pertencem a milionários estrangeiros. O Manchester United foi comprado em 2005 pela família Glazer, dos Estados Unidos. O Arsenal é propriedade de outro norte-americano , Stan Kroenke — um bilionário casado com uma das herdeiras da fortuna Walmart —, desde abril de 2011. O Chelsea foi comprado em 2003 pelo russo Roman Abramovich. O Manchester City, campeão inglês em 2012 e em 2014, pertence desde 2008 a um grupo de Abu Dhabi, controlado pelo xeque Mansour bin Zayed Al Nahyan, membro da família real de Abu Dhabi e vice-primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos. O Leicester City, inesperado campeão em 2016, pertence desde o verão de 2010 a um dos homens mais ricos da Tailândia, o bilionário Vichai Srivaddhanaprabha.

A influência estrangeira estende-se igualmente ao pessoal. Na primeira jornada da época inaugural da Premier League, disputada a 15 de agosto de 1992, não havia mais do que 11 jogadores estrangeiros repartidos pelas várias equipas. O Arsenal tinha dois (John Jensen e Ander Limpar), tal como o Manchester United (Peter Schmeichel e Andrei Kanchelskis). O Leeds empregava o francês Éric Cantona. Dez anos mais tarde, em 2002, a maioria dos jogadores utilizados pelas equipas da liga era já importada do estrangeiro. Em dezembro de 2009, o Portsmouth-Arsenal foi o primeiro jogo da história da Premier League que não contou com um único titular inglês (o Portsmouth, onde alinhava o argelino Hassan Yebda, emprestado pelo Benfica, perdeu 1-4). Em janeiro de 2011, os jogadores que participaram no Blackburn-West Bromwich Albion eram provenientes de 22 nações diferentes.

A Premier League transformou-se assim numa verdadeira Liga das Nações, com uma larga maioria — 61,8%, segundo os cálculos que o CIES Football Observatory fez em 2016 — de talento importado. A nível europeu, este número é suplantado unicamente pelos campeonatos nacionais do Chipre (onde 65,4% dos jogadores provêm de outro país) e da Turquia (62%). Em Portugal, a marca rondou os 53,5%.

A invasão de jogadores estrangeiros é um fenómeno relativamente recente, impulsionada pelos milhões na tesouraria e, sobretudo, pela sentença do chamado ‘Caso Bosman’ — a resolução histórica do Tribunal de Justiça da União Europeia, de dezembro de 1995, que proibiu as restrições sobre a utilização e circulação de jogadores comunitários e aboliu o pagamento de transferências por jogadores em final de contrato. Os ingleses guardaram na gaveta a desconfiança feroz, histórica, por tudo o que chega do outro lado do canal da Mancha. Os jogadores continentais, e mais tarde os treinadores, também, deixaram de ser olhados com desdém.

No período anterior à criação da Premier League, apenas um técnico nascido fora do Reino Unido ou da Irlanda treinara alguma vez um clube da divisão principal do futebol inglês: o checo Josef Venglos, que esteve no Aston Villa em 1990-91 (Venglos passara igualmente sem glória pelo Sporting em 1982-83). Em 1993-94 chegou o primeiro treinador estrangeiro à Premier League, o argentino Osvaldo Ardiles, para o Tottenham. Em 2004-05, os técnicos estrangeiros ainda eram uma minoria: apenas cinco, incluindo o português José Mourinho.

Vedeta. Éric Cantona, o francês que se tornou uma estrela do futebol global com a camisola vermelha do Manchester United, uma das principais equipas da Premier League

Vedeta. Éric Cantona, o francês que se tornou uma estrela do futebol global com a camisola vermelha do Manchester United, uma das principais equipas da Premier League

FOTO Anton Want/Allsport/Getty Images

A desconfiança de certa forma ainda se mantém. Quando o português Marco Silva foi contratado pelo desesperado Hull City, em janeiro do ano passado, as críticas choveram de todo o lado. Como é que um português que ninguém conhecia e sem experiência de futebol inglês poderia salvar o Hull? “Ele não sabe o que é o clube ou a cidade [de Hull]. A contratação de Marco Silva é um insulto para todos os treinadores britânicos que trabalharam arduamente nas ligas inferiores”, protestaram Paul Merson e Phil Thompson, antigas estrelas da bola agora transformadas em comentadores da Sky Sports.

Marco quase salvou o Hull City. E não lhe faltaram convites para continuar a trabalhar na Premier League. Em 2017-18, o campeonato inglês tem uma maioria de treinadores estrangeiros (13), incluindo os portugueses José Mourinho (Manchester United) e Marco Silva (Watford). Entre os sete que nasceram nas ilhas britânicas, apenas quatro são ingleses. E todos eles estão em equipas que não discutem o título. Os técnicos ingleses, aliás, nunca venceram a Premier League ao longo dos 25 anos de história da competição. A lista de campeões é liderada pelo escocês Alex Ferguson (13 títulos) e inclui o francês Arsène Wenger (3), José Mourinho (3), quatro técnicos italianos, outro escocês e um chileno.

Receitas lucrativas

A Premier League está muito à frente de todas as outras ligas de futebol em termos financeiros. No mundo do desporto profissional, aliás, apenas as ligas milionárias do basebol (MLB) e do futebol americano (NFL) geram receitas maiores. Além de ser uma máquina geradora de contratos televisivos muito lucrativos, a Premier League domina igualmente em termos de receitas de bilheteira, patrocínios, merchandising e outras receitas comerciais. De acordo com a Deloitte, as receitas dos clubes da Premier League atingiram os 4865 milhões de euros em 2015-16 — um número fabuloso que deixa a Bundesliga alemã (2712 milhões) e a liga espanhola (2437 milhões) a milhas de distância. Oito dos 20 clubes de futebol mais ricos do mundo são ingleses. O ranking, elaborado todos os anos pela Deloitte, confirmou o Manchester United como o mais rico entre os mais ricos do mundo, com receitas de quase 690 milhões de euros em 2015-16. Nessa mesma época, 17 dos 20 clubes da Premier League encerraram o ano com lucros.

Não surpreende, portanto, que os clubes ingleses de topo sejam ano após ano os campeões do mercado. Nas últimas semanas, o Manchester City investiu 241 milhões de euros na contratação de jogadores, incluindo 50 milhões no português Bernardo Silva, de 22 anos. Os 20 clubes da Premier League gastaram, até agora, mais de 1100 milhões de euros — um montante que provavelmente aumentará antes do encerramento do período de contratações, marcado para as 23h do próximo dia 31. Clubes modestos da Premier League, como o Huddersfield (43 milhões de euros) ou o Brighton (29 milhões), por exemplo, gastaram até agora verbas que seriam impensáveis para os ‘grandes’ da liga portuguesa.

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Os clubes da Premier League empregam alguns dos melhores treinadores do mundo, como Jürgen Klopp (Liverpool) e Antonio Conte (Chelsea), sem esquecer o trio José Mourinho (Manchester United), Pep Guardiola (Manchester City) e Rafa Benítez (Newcastle), todos eles antigos campeões da Europa. Os clubes investem milhões, igualmente, nas academias, nos centros de treinos e noutras infraestruturas. Os estádios da Premier League estão quase sempre cheios, registando uma taxa de ocupação de 96% e uma média de 35.800 espectadores por jogo em 2016-17 (apenas a Bundesliga tem uma média superior, porque autoriza a venda de lugares em pé). O Liverpool aumentou a capacidade do estádio no ano passado, e tanto Tottenham como Everton e Chelsea contam inaugurar recintos novos nos próximos anos. O estádio do Tottenham, cuja construção já começou, deverá custar 750 milhões de libras (825 milhões de euros).

História, tradição, ambiente, competitividade, estádios cheios, receitas de milhões, técnicos e jogadores de topo. Mas será tudo isto suficiente para fazer da Premier League a melhor liga do mundo? Neste século, os clubes ingleses conquistaram por três vezes a Champions League, enquanto os espanhóis venceram oito. Para ser a melhor liga, teria de contar com os melhores jogadores do mundo, e esses não estão, definitivamente, em Inglaterra. Desde 2010 que nenhum jogador de um clube inglês é um dos três finalistas na votação dos prémios Ballon d’Or ou Best FIFA Football Awards. “A Sky bombardeia-nos diariamente com a treta da melhor liga do mundo. De facto, temos mais milhões do que os outros. Qualquer clube da Premier League é mais rico do que o Botswana. E o Crystal Palace tem mais receitas televisivas do que o Barcelona”, diz, meio a brincar, o escritor e colunista desportivo Hunter Davies. “Mas os nossos clubes de topo, apesar dos recursos [financeiros] enormes, não são considerados como os melhores da Europa, ao nível de um Real, um Barcelona ou um Bayern. Essas são as equipas onde os jogadores de classe mundial querem realmente jogar. Eles não querem vir para a Inglaterra”, diz Davies.

Do “Special One” ao golo-que-não-foi-golo. Seis histórias de portugueses na liga inglesa

Portugal é um dos países que exportou mais jogadores para a Premier League. A lista de portugueses que participaram em pelo menos um jogo inclui presentemente 48 nomes. No topo está Luís Boa Morte (296 jogos com as camisolas de Arsenal, Southampton, Fulham e West Ham). O segundo mais experiente, Cristiano Ronaldo, participou em 196 jogos (84 golos) pela equipa do Manchester United. O craque esteve seis épocas no clube e foi tricampeão (2006-09). A lista inclui muitos outros internacionais portugueses, como Nani (147 jogos), Paulo Ferreira (141), Ricardo Carvalho (135), Deco (43) e Tiago (34), todos eles campeões na Inglaterra.

Special. Nenhum outro português deixou uma marca mais vincada na Premier League do que Mourinho

Special. Nenhum outro português deixou uma marca mais vincada na Premier League do que Mourinho

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A mais recente estreia de um português na Premier League foi a do guarda-redes Joel Pereira, do Manchester United. O treinador José Mourinho convocou-o para o último jogo da temporada de 2016-17, no passado dia 21 de maio (o United bateu o Crystal Palace por 2-0, e Joel, com 20 anos na altura, jogou os 90 minutos). Além deste internacional português, nascido na Suíça, as equipas da Premier League empregam presentemente seis outros portugueses: o guarda-redes Eduardo (Chelsea) e os jovens Paulinho (Liverpool) e Domingos Quina (West Ham), que ainda não jogaram, além das estrelas Bernardo Silva (Manchester City), José Fonte (West Ham) e Cédric Soares (Southampton) — estes dois últimos são defesas que foram campeões da Europa com a seleção de Portugal em 2016.

Além de Mourinho (Chelsea e United), dois outros portugueses treinaram equipas da Premier League: Marco Silva (Hull e atualmente Watford) e André Villas Boas (Chelsea e Tottenham, despedido a meio da época nos dois).

1 O primeiro português a jogar (e também a marcar) na Premier League foi Daniel Cruz Carvalho, Dani, num dérbi Tottenham-West Ham, numa noite fria de fevereiro de 1996. O treinador do Sporting, Carlos Queiroz, perdera a paciência com Dani (19 anos na altura) e emprestou-o ao West Ham. O treinador Harry Redknapp aparentemente ficara impressionado com a estreia do miúdo na seleção portuguesa, num jogo particular Inglaterra-Portugal (1-1) disputado no Estádio de Wembley umas semanas antes. “Gosto dele, mas a minha mulher ainda gosta mais do que eu”, brincou Redknapp na conferência de imprensa de apresentação. Dani brilhou na estreia, marcando o golo (algo fortuito) da vitória por 1-0 em casa do Tottenham. A dupla que fazia com o avançado Iain Dowie foi carimbada carinhosamente pelos tabloides como “Beauty and the Beast” (Dowie era cliente habitual da lista dos desportistas mais feios do país). Mas, tal como aconteceria tantas vezes ao longo da breve carreira de Dani (arrumou as botas aos 27 anos), a passagem pelo clube de Londres foi fugaz. E dececionante. Desesperado com as suas múltiplas noitadas, o assédio das namoradas e as ausências dos treinos, Redknapp recambiou o português de volta para Lisboa. Dani fez apenas nove jogos (dois golos) com a camisola do West Ham na Premier League.

2 Nenhum outro português deixou uma marca mais vincada na Premier League do que José Mourinho. Senhor de um ego inabalável, cativou os media britânicos desde o dia de apresentação como treinador no Chelsea, a 2 de junho de 2004. “Não me chamem arrogante”, disse ele aos jornalistas. “Sou campeão da Europa e acho que sou especial.” A verdade é que não demorou a demonstrar o seu enorme talento. Mourinho somou êxitos e arrebatou troféus (incluindo três títulos de campeão da Inglaterra) dentro do relvado. Mas também somou inúmeras polémicas — por vezes com soundbites tão memoráveis quanto venenosos — fora dele.

3 Uma das transferências mais curiosas da história da Premier League foi a contratação, no verão de 2010, de Tiago Manuel Dias Correia, mais conhecido como Bebé, pelo Manchester United. Não só pelo preço surpreendente — uma bagatela de 9 milhões de euros por um jogador totalmente desconhecido — mas também por causa dos comentários que o lendário Alex Ferguson fez na altura. O treinador do United confessou que dera luz verde à contratação relâmpago apesar de nenhum membro da sua equipa técnica ter visto, ao vivo ou em gravação, qualquer jogo de Bebé. O português tinha então 20 anos. Ao longo de quatro épocas, Bebé esteve longe de impressionar com a camisola do Manchester United. Somou apenas 75 minutos de jogo na Premier League, repartidos por duas partidas do campeonato. O seu contributo, sempre como suplente, ficou imortalizado num vídeo intitulado “The Bebé Crossing Show”, um êxito de popularidade que soma mais de 600 mil visualizações no YouTube. O vídeo dura quase três minutos e inclui 11 cruzamentos ou distribuições de Bebé — oito vão para fora e três esbarram em defesas.

4 O português Pedro Mendes, antigo médio do Tottenham, foi protagonista de um dos mais caricatos erros de um árbitro na história da Premier League. Na noite de 4 de janeiro de 2005, ao minuto 88 do jogo Manchester United-Tottenham (0-0), Mendes topou que o guarda-redes da equipa da casa, Roy Carroll, estava adiantado. O português arrancou um remate formidável de quase 50 metros. Carroll conseguiu recuar a tempo, mas atrapalhou-se. A bola fugiu-lhe das mãos e entrou descaradamente na baliza. Mendes festejou. A Sky Sports, que transmitia o jogo, atualizou o marcador. Toda a gente viu o golo. Ou melhor, quase toda: tanto o juiz de linha como o árbitro da partida, Mark Clattenburg, estavam muito longe e não validaram o golo. “Em toda a minha carreira, nunca vi uma coisa assim, com a bola tão dentro da baliza”, disse Mendes. O incidente do ‘golo-que-não-foi-golo’ ainda hoje é relembrado. O remate de Mendes teria valido, provavelmente, uma vitória histórica dos Spurs em Old Trafford. O ex-árbitro Keith Hackett, na altura patrão da PGMOL — a empresa que gere os árbitros profissionais da Premier League —, estava no estádio. Segundo ele, o ‘golo’ de Mendes levou-o a apresentar as primeiras propostas sobre a chamada “tecnologia da linha de golo”, que entraria em vigor na Inglaterra a partir de 2013. Pedro Mendes somou 88 jogos na Premier League (2004-08) com as camisolas do Tottenham e do Portsmouth. Marcou seis golos — mas toda a gente sabe que foram sete.

Inesquecível. Ronaldo ficará na história como um dos melhores de sempre da Premier League. Aqui disputa um lance com Pedro Mendes, outro português em destaque no futebol inglês

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FOTO Jamie McDonald/Getty Images

5 Protagonista na zaragata que culminou com a expulsão de Wayne Rooney no jogo Portugal-Inglaterra do Mundial de 2006, Cristiano Ronaldo enfrentou, depois, um período algo complicado. As câmaras apanharam-no a piscar o olho para o banco da seleção quando Rooney — colega dele no Manchester United — recebeu o cartão vermelho. A imprensa britânica não perdoou. E não perdeu tempo a crucificar o jovem português (então com 21 anos), transformando-o, de imediato, em inimigo público número um. Ao longo de 2006-07, a cada jogo fora de Manchester, a cada toque na bola, era recebido com um coro de assobios. Mas, tal como aconteceu tantas vezes ao longo da sua carreira, Ronaldo respondeu às vaias monumentais com exibições de sonho no relvado. O Manchester United conquistou o título nacional nessa época, o primeiro de Ronaldo, depois de um interregno de três anos. Cristiano passou pela primeira vez a marca dos 20 golos. Nessa mesma época arrebatou cinco troféus de Jogador do Ano. Foi uma temporada memorável de um jogador que ficará definitivamente na história como um dos melhores de sempre da Premier League.

6 Antigo campeão europeu pelo FC Porto (1987), o internacional Paulo Futre foi um dos primeiros portugueses a jogar na Premier League. Contratado pelo West Ham no verão de 1996, Futre recusou-se, no entanto, a jogar na primeira jornada do campeonato, frente ao Arsenal. O motivo? Ele achou que vestir a camisola com o número 16 era um insulto. “Futre, Eusébio, number 10! Que se f*** o número 16!”, gritou ele, já dentro do balneário, poucos minutos antes de o jogo começar. E saiu porta fora. O assunto foi resolvido na semana seguinte, após uma reunião que envolveu jogador, treinador, advogado e empresário. Futre sugeriu solucionar o problema com uma oferta de dinheiro e de uma estadia de 15 dias na sua casa em Portugal (praia e golfe incluídos) — uma oferta suficiente para convencer o avançado John Moncur a prescindir do número 10. Futre acabou por fazer apenas nove jogos (zero golos, uma assistência) na Premier League, entre agosto e novembro de 1996.