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Que Isco continue a divertir-se. E a divertir-nos

O pequeno, talentoso e sobredotado médio espanhol do momento é Isco, que começou a jogar na praça à frente de casa com o irmão mais velho e os amigos. E esta poderia ser a forma como um desses amigos contaria a história do mágico das pernas tortas que já rouba o espetáculo no Real Madrid e na seleção espanhola

Diogo Pombo

Gonzalo Arroyo Moreno

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Falta-nos um jogador e, já devias saber, mesmo que não falte, tens que trazer o teu irmão. Se for para a minha equipa, melhor ainda. O que me rio quando, às vezes, aparecem aqui uns tipos que até podem ser cá da cidade, mas não aqui de perto, da praça à frente de tua casa.

Se fossem, não seriam como ovelhas do rebanho a que já acrescentámos tantas, iguais nos olhos que reagem ao verem um miúdo assim, como o teu irmão: baixo e magro, embora com um rabo espetado e grande, desproporcional, que faz parecer ainda menos natural a silhueta que já tem as pernas arqueadas e os pés tortos, para dentro, e grandes demais para a altura.

Ele tem oito anos a menos que nós e a idade é a única coisa que temos a mais. Os dribles que têm curvas como as pernas, a bola que lhe é como um quinto membro, impossível de desmembrar, os caños que dá a torto e a direito. Mesmo que estejas em casa nós vamos lá bater, truz-truz até alguém abrir a porta e deixar que o levemos para a praça e tiremos à sorte. Boa expressão essa, porque era mesmo uma sorte ver quem fica com o diminutivo de Francisco Román Alarcón Suárez.

Sortudo sou por partilhar praça, calçada, pedras e jogo de rua com ele, enquanto parvo me sinto quando me dizes que, na escola, não o deixam jogar na equipa de futebol por ser demasiado pequeno. Foi tentar à equipa aqui de Benalmádena, a 12 quilómetros de Málaga, onde a simbiose entre ele e a bola convenceu a gente de lá a falsificar-lhe os documentos e inscrevê-lo com mais um ano do que, realmente, tinha. Passado pouco tempo disseste-me que foi para o Atlético Benamiel, sorte a deles.

David Ramos

O Isco deixou de aparecer na praça. Deixámos de o ver a rir e a sorrir e a gozar connosco pela distância a que nos via ao longe, só ouvíamos como, nos benjamins e iniciados, dava 70 assistências por época. Como a equipa goleava tão cedo que, para não roçar o gozo, os treinadores o tiravam. “Decidíamos não abusar do adversário e tirávamo-lo quando já ganhávamos por sete ou oito. Com o Isco éramos invencíveis”, dirá, mais tarde, um dos que o teve na altura.

É uma estória como tantas outras, creio, de uma criança que passa a miúdo e salta para adolescente vidrado na bola e no futebol, sendo, sempre, o melhor da aldeia dele. Se essa aldeia aumenta em área à medida que ele cresce, é porque o jeito, o talento e a aptidão são anormais e o tornam especial. Isco é assim e se ele não lograsse ser futebolista, então não sei quem o lograria. Foi com 14 anos, a largar as boas notas e o empenho na escola, para o Valência, terra onde cresceu e se desenvolveu, mas sem lhe darem o devido valor.

Ficou cinco anos a levar patadas, a cair e a levantar-se, a sentir como os que mais querem, pedem e têm a bola, são quem mais leva. Ele não é muito rápido, não é forte, é pequeno, então “põe o corpo e faz-se de forte com a bola”. Palavras do próprio. O Isco sempre a quer e quis, a jogar atrás dos avançados e à frente dos médios, na terra de ninguém por tão difícil haver alguém para quem tão natural seja estar ali, como respirar.

Gosta de fazer coisas novas, de arriscar sem forçar, de experimentar arriscando, de não reprimir o lado valente que muitos têm, mas que só é consentido a quem é inato como ele - elegante, gracioso, cabeça levantada, peito feito, descontente com o banal.

Isco é esperto e percebe que ali não é o seu lugar. Não vai ser aposta, mesmo com dois golos na estreia pela equipa principal, a equipa e o treinador não lhe dão a bola sem a qual o seu futebol é discreto e passa despercebido. A coincidência de o clube de que gosta, o da terra, ser um novo-rico e de o querer, fá-lo voltar a Málaga. Sorte a nossa que ele regressou para perto de nós e nos deixou irmos ver ao estádio como um miúdo de pernas arqueadas e pés tortos se tornava o gerador de coisas bonitas.

Aos poucos, o rapazito de cabeça pequena, encolhida pelo cabelo sempre rapado, mostrou o jeito natural em lidar com a bola, mestre de uma variante de valsa que apenas ele domina, encostado à esquerda de uma equipa falsa como ele, um falso extremo que conduziu o tímido Málaga quase até às meias-finais da Liga dos Campeões. Acabou esse verão de 2013 a ganhar o Europeu de sub-21, imerso numa seleção com tantos miúdos auspiciosos como ele, que disfarçava o quão distante Isco está, e estava, de quase todos.

E a alegria que foi na vila, na nossa praça, em ver o Real Madrid pagar milhões para o ter. O puto que ninguém reconhecia na rua e poucos chateavam ia jogar diante das pessoas mais impaciente do mundo, que têm no assobio uma resposta instintiva a um passe mais demorado, a uma vitória que não seja por goleada, a qualquer jogador que falhe quatro golos feitos mesmo que tenha marcado 300 para trás.

Mas, por ser espanhol, gracioso, elegante, um amante que faz amor bonito e sentido com a bola, eles gostam dele.

Matthias Hangst

Com as devidas diferenças - dá-me um desconto, é o teu irmão e o futebol de rua dele era o meu também -, o Santiago Bernabéu voltou a ter alguém como Zidane. Um humano que se equilibra sobre dois pés e parece mais desengonçado sem, do que com a bola no meio deles. Alguém que a conduz a dançar, ultrapassando quem lhe apareça por diante ou protegendo-se, com um passo programado, de quem o quer roubar. “Ao fim de contas, trata-se de ser valente. E creio que o sou, porque arrisco, sem medo de perder a bola”, li-o a dizer, uma vez.

Só que o Isco é dos futebolista que levam a carta de condução para o campo, dentro da chuteira. Ele é um condutor de bola, mas os raides e as curvas bonitas e apertadas em que a leva durante quase quatro temporadas inteiras de Real Madrid vão dar, muita vezes, a becos sem saída. Quem está com ele no balneário, Cristiano, Benzema, Modric, Ramos, Marcelo, chama-lhe “magia”, só isso.

Só que o mágico acaba onde o toque a mais na bola, os segundos de atraso a fazer um passe e a alergia a remates à baliza começam.

O campo não é a rua, até eu já lho disse. Ele nem sempre o tem bem presente na cabeça, por isso é que desde 2013 ele é dos que participou em mais jogos no Real Madrid (mais de 190), mais como o substituto que sempre entra em primeiro lugar ou o titular que é mandado sentar antes dos outros. O nosso Isco ganha três Ligas dos Campeões e um campeonato, mas só há uns meses é que passou a ser o Isco de toda a gente.

O galês do cabelo grande e rabo de cavalo, às tantas, lesionou-se, e o lugar de Bale ficou de Isco, e dá-lhe um abraço por mim, porque ele percebeu que tinha de correr mais, injetar mais resistência no corpo, ser mais prático e simples e parcimónio na distribuição de genialidade por segundo. O Isco que monta um recreio privado para brincar, que não dá passes, não mete golos, não joga de cabeça, não rouba bolas, que é aplaudido por se desviar de um adversário passando a bola de um pé para o outro, já lamentava o Iván Helguera, sumiu.

O Isco que agora vejo é decisivo, pede qualquer bola a quem seja, mas a dá-lhe o uso certo, bate remates só em arco e cheios de jeito, quase nunca é roubado e a embrulha tudo com toques de magia, como o fez há dias, pela Espanha e contra a Itália. Está mais crescido, já foi pai, é um génio mais terreno, como um pintor que se concentra para ser sublime e não um crânio que tem de beber e ser diletante para soltar a genialidade.

O nosso puto da praça tornou-se o íman de jogo à volta do qual tudo gira, e deve girar, para que o futebol de uma equipa vença e seja bom de se ver. Como é hoje o do Real Madrid.

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Claudio Villa

Se ele já fosse assim, prático e consistente, há uns anos, seria titular mais cedo no Real e não teria falhado o último Europeu e Mundial, pela seleção. Custou-lhe, eu sei, mas pareceu não se importar muito, o que me parece ser um sintoma de ele ser auto-crítico, pouco dado a ilusões e consciente do que faz ou podia fazer. A frase que o ouvi dizer há quase um ano não me deixar mentir: “Se não sou titular com Ancelotti, com o Benítez e não sou com o Zidane, não vou ver tonto e procurar problemas onde eles não existem. No final, o responsável sou eu e é com isso que me quero preocupar: onde posso melhorar para ser titular”.

Os túneis, os dribles, aquelas remates em arco como largas curvas de uma auto-estrada, que aparentam ser tão naturais, são agora mais aplaudidas e partilhadas porque o Isco já parece ser consistentemente genial. Não o rapaz que pensa no futebol dele primeiro e no da equipa, depois.

A praça à frente de vossa casa, lá em Benalmádena, não tarda será batizada em nome dele. Eu sou suspeito, tudo bem, mas quando o Cristiano e Lionel, o outro génio que é tão bom que o Isco deu o seu apelido ao nome do cão que tem (sim, chama-se Messi), se reformarem, as Bolas de Ouro e as discussões de café sobre quem governa neste mundo vão cingir-se a ele e a outros três ou quatro.

E bendito seja o nosso Isco, hoje de farta barba, longa cabeleira, pernas arqueadas e pés grandes (calça o 43 e tem 1,76m), que assim joga e existe com a mesma justificação que dava em criança, lá entre nós: “Jogava como agora, tentando divertir-me”.

Que ele se continue a divertir sempre.