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Quando se é bom no que se faz o género torna-se irrelevante. Foi assim que Bibiana Steinhaus chegou à Bundesliga

Domingo, às 14h30, no Hertha de Berlim-Werder Bremen, Bibiana Steinhaus torna-se na primeira mulher a arbitrar um jogo na Bundesliga. A árbitra alemã é um exemplo para as colegas, incluindo a portuguesa Ana Sofia Aguiar, que explica à Tribuna Expresso que o futuro é feminino

Lídia Paralta Gomes

Bibiana Steinhaus é alemã e tem 38 anos

Friedemann Vogel/Getty

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A frase que serve de título não saiu da nossa cabeça. É a transcrição livre de um tweet escrito pela secretária-geral da FIFA, a senegalesa Fatma Samoura, quando em maio a Federação Alemã de Futebol anunciou que entre o grupo de árbitros de elite que iria arbitrar na Bundesliga na época 2017/18 estava uma mulher.

A primeira da história a arbitrar na divisão principal de um dos cinco principais campeonatos europeus.

Bibiana Steinhaus teve de esperar pela estreia: a Bundesliga arrancou no final de agosto, com o Bayern Munique-Bayer Leverkusen, mas a juíza de 38 anos não foi nomeada para a 1ª jornada. Mas a história está prestes a ser feita por esta polícia de Hanover, ela que diz que nunca “planeou quebrar barreiras da emancipação”, mas apenas fazer o que ama. Conseguiu as duas coisas.

Chegar à Bundesliga é mais “um passo em frente” para Steinhaus, que desde 2007 arbitra jogos na 2ª divisão. “Trabalhei de forma intensa, mas certamente, enquanto árbitra e mulher, vou estar debaixo de um escrutínio particular, principalmente por parte dos media”, disse a árbitra à AFP.

Em meados de agosto, já teve o primeiro teste de fogo, ao arbitrar o encontro entre o Bayern de Munique e o Chemnitz, para a 1ª ronda da Taça da Alemanha.

Talvez tivesse mesmo de ser a Alemanha a casa deste momento histórico para a arbitragem feminina: estamos a falar de um país com mais de 200 mil praticantes e onde o futebol feminino é uma realidade desde 1970. A seleção alemã tem oito títulos europeus e é a atual campeã olímpica.

“Ver que a arbitragem feminina pode chegar aos mesmos patamares que a arbitragem masculina é um momento marcante, histórico. Fica a esperança que esta realidade se alargue a outros países”, diz à Tribuna Expresso Ana Sofia Aguiar, uma das três árbitras portuguesas com insígnias da FIFA e uma das poucas que já arbitrou jogos masculinos nacionais, na antiga 3ª Divisão Nacional.

Um alargamento que Ana Sofia não vê chegar ao nosso país a curto prazo: “Infelizmente. Mas acredito que com o tempo possa acontecer. Será inevitável.”

Ana Sofia Aguiar a apitar um jogo da Liga dos Campeões feminina

Ana Sofia Aguiar a apitar um jogo da Liga dos Campeões feminina

DR

Atualmente existem cerca de 200 árbitras em Portugal, 46 nos quadros nacionais e as restantes nos regionais. De acordo com informações a que a Tribuna Expresso teve acesso, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) tem em marcha um projeto de desenvolvimento da arbitragem feminina, de modo a que este sector possa acompanhar o crescimento de 35% de praticantes femininas que se registou na última época.

Um projeto focado no recrutamento e retenção de novas árbitras e no acompanhamento de novos talentos com potencial internacional. O objetivo é duplicar o número de árbitras nacionais até 2020. Ou seja, chegar às 400 nos próximos três anos.

Para tal, a FPF desafiou as 22 associações distritais a abrirem cursos de arbitragem. Todas as associações responderam positivamente e as formações deverão acontecer ainda este ano.

Árbitros(as) em tudo semelhantes

Jurgen Klopp com Bibiana Steinhaus, na época 2012/13

Jurgen Klopp com Bibiana Steinhaus, na época 2012/13

DANIEL ROLAND/GETTY

Árbitra há mais de uma década, Ana Sofia Aguiar sublinha que as diferenças entre homens e mulheres são marginais e que apenas se notam “na parte da condição física, que obriga a que uma mulher tenha de trabalhar mais do que um homem para conseguir chegar aos mesmos patamares”.

No resto, ou seja, “em termos de competências técnicas, psicológicas ou sociais”, tudo são semelhanças. Aliás, Ana Sofia garante que em muitos jogos da Liga Allianz, a principal divisão do futebol feminino português, o nível de exigência que se pede a um árbitro já se aproxima muito do futebol masculino: “Tive a oportunidade de no ano passado arbitrar um Sporting-Sp. Braga e é um exemplo de um jogo em que a velocidade já se aproxima muito de alguns jogos masculinos.”

Até 2012, as árbitras não podiam integrar os quadros masculinos em Portugal, mas hoje não há limitações. Ainda assim, o reduzido número de juízas acaba por ser um entrave ao desenvolvimento da arbitragem feminina no nosso país. Esse será o primeiro passo: ter mais árbitras. E, depois, seria importante “um novo ingresso de uma árbitra nas competições nacionais masculinas”, diz.

Ana Sofia Aguiar guarda boas recordações dos jogos masculinos que arbitrou. “Sempre foi algo a meu favor, o facto de ser uma árbitra no meio de tantos homens. Há o efeito surpresa, mas as pessoas facilmente percebem que o meu papel é desempenhado da mesma forma”, começa por explicar, sublinhando que os jogadores sempre foram corretos: “Acho que até há uma certa vantagem em ser mulher, porque muitas vezes o que acontece é que os homens se moderam na forma de abordar a árbitra.”

A juíza recorda um episódio na última época, em que foi nomeada para um jogo distrital potencialmente difícil, devido à rivalidade entre as equipas. “Era um jogo normalmente complicado e decorreu com uma grande tranquilidade... não se passou absolutamente nada e mostrei muito poucos cartões. Acho que a minha nomeação teve essa consequência positiva no jogo”, conclui.

Atualização de texto originalmente publicado na edição de 19 de agosto de 2017 do Expresso

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