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Não sou eu, és tu. Os chineses estão fartos de Tevez e Tevez está farto dos chineses

Chegou em janeiro com aura (e salário) de craque, mas Carlos Tevez só tem desiludido no Shangai Shenhua, onde dizem que está "com peso a mais". O internacional argentino não se ficou: “Os chineses nem daqui a 50 anos vão ser competitivos”

Mariana Cabral

Carlos Tevez tem 33 anos e está na China desde janeiro de 2017

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Quando, em 2015, Carlos Tevez voltou ao clube que o formou, o Boca Juniors, a história do internacional argentino parecia estar a chegar full circle, como dizem os nossos amigos anglo-saxónicos.

Tevez já não apreciava particularmente viver na Europa (em 2006/07 esteve no West Ham; nas duas épocas seguintes no Manchester United; entre 2009/10 e 2012/13 no Manchester City; e em 2013/14 e 2014/15 na Juventus), como um dia revelou o ex-colega Roque Santa Cruz: "Ele quer estar com as pessoas mais próximas dele, que estão na Argentina. Os irmãos dele e as filhas dele estão lá... Quando sentes que o teu país te está a chamar, podes acabar a abdicar de tudo para regressar."

E assim foi. Perante 40 mil adeptos satisfeitos, Tevez regressou: beijou o relvado de "La Bombonera", com a camisola '10' (de Maradona, que também estava no estádio) vestida, e disse isto: "O Boca é único, ninguém consegue compreender o que sentimos pelo clube. Não há melhor dia do que este. Esta é a minha casa, do início ao fim".

O problema é que a vida dificilmente é um círculo completo - habitualmente parece-se mais com uma série de linhas e rabiscos imperfeitamente impercetíveis (como estes, vá).

Foi assim que, dois anos depois de ter voltado a casa, Tevez decidiu voltar a abandoná-la. Desta vez, não para emigrar para o Brasil, à procura de uma carreira melhor - como fez em 2005, quando entrou no Corinthians, antes de chegar à Europa -, mas para a China, à procura de uma carteira melhor.

Tevez começou a jogar no Boca Juniors com 13 anos, saiu aos 21 e voltou com 31

Tevez começou a jogar no Boca Juniors com 13 anos, saiu aos 21 e voltou com 31

ALEJANDRO PAGNI/GETTY

Em janeiro deste ano, a troco de €10,5 milhões, o avançado argentino de 33 anos foi apresentado como o maior reforço do Shangai Shenhua, clube chinês que procura voltar a conquistar o campeonato que não vence desde 1995 (a bem da verdade, conseguiu-o em 2003, mas o troféu acabou por ser devolvido quando as autoridades descobriram que muitos dos resultados tinham sido combinados).

Com um salário anual de €24 milhões, Tevez esqueceu as saudades de casa e partiu para Xangai, mas nada tem corrido bem ao argentino na China. Assim que chegou, lesionou-se e aproveitou um dos dias de "folga" para ir visitar a Disney com a família. Até aqui tudo certo, não fosse dar-se o caso de, no mesmo dia, os companheiros deTevez estarem em Changchun a disputar um jogo.

A comunicação social questionou o compromisso do jogador, os adeptos também e, desde então, tem sido sempre a descer. Dos 31 jogos da equipa, Tevez só completou 14, estando frequentemente indisponível por lesão. Terça-feira, frente ao Shandong Luneng (0-0), não foi utilizado, ainda que, no dia 16, tenha entrado para marcar um golo, frente ao Shangai SIPG de André Villas-Boas. O problema é que o Shenhua perdeu... 6-1, e está em 11º da Superliga (entre 16 equipas).

É certo que a crise no clube não se limita a Tevez - o treinador Gus Poyet apresentou a demissão há duas semanas, depois de quatro derrotas consecutivas - mas é ao avançado argentino que se tem apontado o dedo.

"Não vou convocar Tévez nesta altura porques ele não está preparado a nível físico. Não está apto para jogar", disse Wu Jingui, o diretor técnico do clube, que sucedeu a Poyet. "Tévez está com peso a mais e o mesmo se passa com Freddy Guarín", acrescentou, sendo apoiado por Wu Xiaohui, líder do clube, que disse que o reforço não tinha "cumprido as expectativas" até agora.

E, se a situação já estava má, pior ainda ficou depois de Tevez ter dito o seguinte, em entrevista à televisão francesa SFR Sport: "Os jogadores chineses não tem técnica como os sul-americanos ou os europeus, porque não jogavam desde miúdos. Nem daqui a 50 anos serão competitivos".

Tevez tem contrato até dezembro de 2018, mas não é nada provável que o cumpra. Na semana passada, chegou a admitir que gostaria de voltar (novamente) ao Boca, mas... "Ainda que tenha essa vontade, o meu contrato é muito complexo e não é fácil. Os chineses não são estúpidos". E não sabem escolher bem os reforços estrangeiros.