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Gary Lineker à conversa com Guardiola dá nisto: risos e futebol

Nunca me deste a tua camisola quando jogavas no Barcelona, eu não gosto de treinar segundas bolas e o sucesso que se mede quase apenas pelos troféus. Este tu cá, tu lá, aconteceu porque a BBC colocou Pep Guardiola a falar com Gary Lineker antes de, no sábado, o Chelsea, 3º classificado e atual campeão, receber o Manchester City (17h30, Sport TV3), 1º da Premier League (com os mesmos pontos do Manchester United, que recebe o Crystal Palace)

Diogo Pombo

OLI SCARFF

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Quão diferente é uma entrevista de uma conversa. A primeira supõe que haja alguém só a querer saber coisas e outra pessoa que apenas as diz, as explica e as conta. As perguntas e as respostas a irem e a virem sempre dos mesmos sítios pode facilitar o aborrecimento, ao contrário de uma conversa, em que se misturam papéis, se troca o sentido das questões, há muitas gargalhadas e pouco formalismo.

E só pode ser bom sinal quando uma conversa arranca desta forma:

- Estás listo?

- Of course I’m ready.

- Estive a ver-te na conferência de imprensa e às vezes irritas-te com as perguntas dos jornalistas ingleses.

- Não, nem pensar. Nunca estiveste em Barcelona.

- Já estive, mas há muito tempo.

- Eu sei. Sabias que fui um apanha-bolas e dei-te muitas durante os jogos?

- Provavelmente não as controlei.

- Talvez não seja correto dizer isto, mas ainda me lembro de te pedir sempre a camisola, no final dos jogos, e tu nunca me dares. Nunca.

Gary Lineker, o primeiro a falar, e Pep Guardiola, quem responde, acabam de se sentar nas cadeiras que há no meio de uma sala, pequena e iluminada, cheia de holofotes e câmaras. O inglês está ali para entrevistar o espanhol; é um antigo jogador virado comentador de televisão, perante um dos treinadores mais admirados de hoje, doido por futebol e careca à sua despesa.

Lineker trabalha para o programa "Match of the Day", da "BBC", Guardiola é técnico do Manchester City e estão ali porque, no sábado, a equipa do espanhol joga contra o Chelsea, para a Premier League.

E a entrevista começa animada, bem-disposta, com piadas e sorrisos. É uma conversa.

Nós, que assistimos deste lado, não sabemos se eles já se conheciam, ou se vão beber chá nas tardes nubladas de Inglaterra, mas há um à-vontade entre ambos. O diálogo inicial acontece pois Gary Lineker jogou pelo Barcelona entre 1986 e 1990 - depois de ser melhor marcador do Mundial de Diego Maradona -, quando Pep Guardiola era um miúdo das escolas do clube e um apanha-bolas nas horas vagas.

As partes da vida que têm em comum dão azo a que falem de como o espanhol está a forçar a sua forma de jogar este desporto no país que o inventou, e pensa bem diferente dele; de como se mede, e medirá, o sucesso do seu Manchester City; do que são as coisas importantes no futebol; e das desvalorização dos milhões de euros que hoje se têm de gastar.

Aqui ficam alguns excertos dessa entrevista. Perdão, conversa:

Richard Heathcote

Ainda sem títulos no City, vai Guardiola manter-se fiel ao seu estilo?

"Gary, ou Sr. Lineker, não sei, mas asseguro-te que vou tentar, sem dúvida. Não tenho dúvida que me vão julgar pelos títulos que conseguiremos levantar, dependerá disso. Mas não vou recuar um centímetro na maneira como o vou tentar fazer. Claro que me tenho de adaptar quando as equipas jogam bolas longas, pelo ar. Não alterei os fundamentos do meu jogo. Adaptei-me à qualidade dos jogadores que tenho.”

Como ele não gosta de bolas pelo ar e de segundas bolas

“No Barcelona, nunca me focava nas segundas bolas, nunca imagina sessões de treino ou análises sobre isso. Foi difícil adaptar-me a isso porque é aborrecido treiná-lo. E porque também gosto de treinar as coisas das quais gosto”.

Será que isso está a retrair o futebol inglês? (e a alfinetada no United de Mourinho)

“Acho que não. Olhas para as seleções e vês o Eric Dier, o Delle Ali, o Marcus Rahsford, o Kyle Walker, o John Stones, são jogadores que querem jogar, o Henderson e o Lallana. Têm qualidade para jogar, querem jogar e gostam de jogar. Tenho muito respeito pelos meus vizinhos, mas quando o United lança bolas longas para o Pogba e o Fellaini quando têm qualidade para jogar e construir.”

O que há de diferente no City desta época

“Neste período da última época estava tão entusiasmado, uau, pensava que isto era fácil, ganhar. E, depois, aconteceu o que aconteceu. Se me perguntares a diferença em termos de sentimento, porque os resultados são bastante similares, a sensação, agora, é que vamos marcar um golo quando chegarmos perto da baliza. Agora temos dois goleadores, mais o Bernardo [Silva], mais o Sterling, que joga mais ao centro. Na época passada não tínhamos isso. Criávamos muito e não marcávamos golos, o que é muito duro”.

Qual é a coisa mais importante no futebol?

“Ter bons jogadores, não há segredos. O papel do treinador é muito importante, claro. Qualquer jogador prefere jogar da maneira que ele gosta, por isso temos de decidir como todos vão jogar. Mas, acredita em mim, é muito difícil fazê-lo. Eles é que jogam. Nós somos importante e damos muitas entrevistas, como esta, e as pessoas acham que nós somos o segredo quando a equipa ganha. Mas não, é a qualidade dos jogadores."

O Manchester City foi a equipa que mais dinheiro gastou em Inglaterra

“Não me estou a queixar. Precisas de bons jogadores para competir e, hoje em dia, os bons jogadores são caros. Tens de comprá-los se quiseres competir.”