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Diz-me como jogas, dir-te-ei de quem és filho (isto é uma história sobre a Fiorentina)

Ter um pai que no seu tempo foi futebolista pode ter mais de mau do que de bom, se a nossa vontade for imitá-lo na profissão. Na Fiorentina, há três jogadores que são filhos quem fez muito, mas muito, no futebol: Simeone, Chiesa e Hagi. E Giovanni, Federico e Ianis estão a tentar dar um novo significado a estes apelidos

Diogo Pombo

Giovanni Simeone marcou 13 golos a época passada e, aos 22 anos, é agora o avançado referência da Fiorentina.

Gabriele Maltinti

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“Há dois tipos de jogadores de futebol - as lendas e os mortais. O meu pai é uma lenda e eu sou um mortal. As lendas, como o meu pai, aparecem, fazem e prevalecem. Faço parte da vasta maioria dos mortais, que aparecemos, fazemos e morremos.”

Os pais vaticinaram que ele não teria uma vida fácil. Deram-lhe Jordi como nome, o equivalente catalão ao português Jorge, discutindo e indo contra a vontade do regime Franquista, abominante de tudo o que emanasse catalão, que proibia crianças batizadas com nomes típicos da região. Jordi ainda estava no ventre e já era um símbolo de luta e resistência.

Cresceu a querer ser futebolista, brincava com a bola, tocava-lhe, tinha jeito e aprendeu a usá-lo em Amesterdão, no Ajax, e a limá-lo no Barcelona, quando a família retornou à cidade a reboque do pai. Jordi era um médio com pés decentes. Mais bom médio do que médio dos bons, era capaz de jogar bem e impressionar nas raras ocasiões em que as lesões, a inconstância ou alguém melhor do que ele não o chateavam.

Até o pai ser despedido e o presidente que o despediu querer o filho fora também. Até ir para o Manchester United com uma ajudinha do pai e pouco jogar por haver tantos que jogavam melhor do que ele. Até chegar ao Alavés e viver, harmoniosamente entre renegados do futebol que se compatibilizaram rumo a uma final da Taça UEFA. Até deixar a carreira perecer em equipas da Ucrânia e de Malta, definhado pelas expetativas que sempre o acompanharam e nunca poderiam ser cumpridas.

Porque Jordi é filho de Johan Cruijff, um dos mais fantásticos, incríveis e génios humanos que jogaram o jogo que ele decidiu jogar.

Jordi é mortal, Johan foi e é uma lenda.

E a citação que arranca este texto é do primeiro, que sabe como o mais provável é aparecer, fazer e morrer quando se nasce para o futebol sendo filho de alguém que já o jogou. Uma coisa não muito comum, muito menos se acontecer no mesmo clube, num plantel em que cabem vinte e poucos jogadores e três deles são filhos de lendas não tão grandes como Cruijff, mas lendas, ainda assim.

Como Diego Simeone, um argentino que fez mais de cem jogos pela sua seleção, foi a três Mundiais, ganhou as ligas espanhola e italiana. Era admirado pelo que corria, pela forma como lutava e pelos pulmões que não o cansavam, num corpo espevitado e batalhador que preservou até hoje, ainda enérgico, efusivo e apaixonante como treinador que ressuscitou o Atlético de Madrid.

Ele é a lenda que teve três filhos a crescerem enquanto o pai crescia no futebol. Giovanni, o mais velho, rápido, corpulento e com jogo de cabeça apurado, teve jeito suficiente para o aceitarem na formação do River Plate durante a última época em que o progenitor treinou a equipa principal.

Aí teve que ouvir e lidar com as crianças a serem crianças - genuínas e sem filtros - e a dizerem-lhe que ali estava um avançado por ser filho de quem é. “Ao início sofri e custou-me, porque quando era miúdo havia companheiros de equipa que encaravam-me mal por acreditarem que jogava por quem era o meu pai. Quando algo me saía mal, sentia como me tivesse saído ainda pior”, disse, já recém-adulto, citado pelo El País, ao lembrar esses tempos.

Falava com o pai todos os dias, uma conversa rotineira que se alterou quando Giovanni fez 18 anos e se tornou profissional. Antes falavam dos jogos dele, do bom e do mau que fizera, de correções e conselhos. Hoje falam “sobre a vida, que é muito importante”, revelou, há um ano, Diego Simeone, porque não gosta de analisar “aspetos específicos” do jogo do filho e, ao invés, dá-lhe conselhos que apontam quase sempre para o mesmo: “Que nunca baixe os braços e, por mais que jogue só cinco ou dez minutos, que faça com que o treinador fique com boa opinião minha”.

Giovanni estreou-se pelo River Plate, foi emprestado ao Banfield para jogar mais e, retornado e apercebido de que em Buenos Aires seria difícil, transferiu-se para o Génova. Marca 13 golos em 16 jogos na época passada, um deles à Juventus, vindo da sua cabeça galopante que rematou uma bola cruzada para o espaço, como o pai fizera 6.084 dias antes, como jogador da Lazio.

Esta época, com 22 anos, chegou à Fiorentina, onde joga e marca com a tatuagem de um “G” num braço e do símbolo da Liga dos Campeões no outro, lustros das ambições que tem - que o conheçam pelo nome e não pelo pai que tem e que, um dia, ganhe a prova de clubes com mais prestígio do mundo.

Federico Chiesa tem 19 anos, joga a extremo e vai na segunda época a ser muitas vezes titular na Fiorentina

Federico Chiesa tem 19 anos, joga a extremo e vai na segunda época a ser muitas vezes titular na Fiorentina

Gabriele Maltinti

Ao lado, sobretudo no direito, já é costume ter um rapaz alto e muito rápido, extremo de muita corrida e feito como se faziam no antigamente e já se fazem pouco: alguém com olho para ir até à linha e arranjar espaço para cruzar a bola para a área.

Federico Chiesa é muito diferente do que foi o pai, um avançado técnico, calmo, com a classe e o carisma que antes só tinham os italianos que queriam marcar golos no país mais difícil de os marcar.

Enrico Chiesa fez carreira em equipas como a Sampdoria, a própria Fiorentina e o Parma, com quem venceu uma Taça UEFA e o catapultou para ser jogador de seleção, presente num Europeu (1996) e um Campeonato do Mundo (1998). E também era conhecido por muita cabeça ter.

Enquanto o filho insistia em ser jogador e lutava, na adolescência, quando os treinadores o punham a jogar com mais novos por não lhe reconhecerem potencial, o pai mantinha-o numa escola internacional em Florença, a ser leccionado em inglês e focado nos estudos.

Sabia que o futebol pode ser o início, mas não é o fim, uma educação que manteve Federico interessado em outras coisas. Adora Física e seria um fisicista se um treinador não o tivesse passado de avançado para extremo, posição em que agora, com 19 anos, finta, corre e é decisivo na Fiorentina, com os olhos pregados na relva, quase sempre a titular.

Não tem tatuagens, é alérgico a comprar carros pomposos e caros e o pai acha que está no bom caminho. “Não mudou apesar de se ter tornado tão popular. Ainda é humilde e mantém as mesmas amizades. Quer sempre crescer e estuda os seus adversários em vídeo. Nunca se cansa de aprender. O seu segredo é treinar todos os dias no duro”, descreveu-o, à Gazzetta dello Sport, quiçá babado nas palavras.

Ianis Hagi está com 18 anos, é um médio ambidestro e ainda não se estreou esta época pela equipa de Florença

Ianis Hagi está com 18 anos, é um médio ambidestro e ainda não se estreou esta época pela equipa de Florença

Gabriele Maltinti

O mais novo e menos visto dos três mortais filhos de lendas é Ianis Hagi.

É filho, talvez, de quem mais rasto deixou no futebol. Era um pequeno genial, concentrava toda a genialidade no pé esquerdo, munindo-se de um corpo pequeno, ágil e profético na forma como antecipava o que ia acontecer e o que os outros iam fazer. Porque apareceu numa época em que a mesma descrição se podia aplicar a um argentino que lhe era semelhante na morfologia, Gheorghe Hagi era conhecido como o Maradona dos Cárpatos.

O romeno é dos privilegiados que jogou no Real Madrid e no Barcelona, marcou golaços e deixou um vasto legado no You Tube, cheio de vídeos que agrupam os rasgos de genialidade que só o traíram durante a carreira por serem mais esporádicos do que constantes. Fez mais de 120 jogos pela Roménia, levou a seleção a seis fases finais e, há oito anos, fundou o Viitorul Constanta.

Na época passada, esse clube foi campeão romeno e, no ano anterior, tinha como capitão de equipa um miúdo de 16 anos. O que poderia ser encarado como um sintoma de nepotismo familiar era, para Gheorghe, prova de uma das qualidades inatas de quem está agora na Fiorentina. “Tem uma personalidade incrível. É um líder e pode ser muito importante no futuro do futebol romeno”, resumiu, em julho, ao The Guardian, quando falou sobre o filho.

Tem o pai como referência e Stephen Curry, basquetebolista dos Golden State Warriors, como ídolo. “Gosto muito dele por ter sido capaz de vingar na NBA apesar de ninguém acreditar nele, por ser tão pequeno. A sua história é um exemplo de que, trabalhando muito, podemos conseguir resultados extraordinários, o que é uma valiosa lição para o desporto e para a vida”, justificou Ianis Hagi, que ainda não jogou esta temporada pela Fiorentina.

Ele é o mais novo (18 anos) dos três herdeiros de grandes jogadores. Ainda são todos incertos, jovens e prometedores, impossíveis de prever, mas iguais no peso que se habituaram a suportar nos apelidos que agora estão juntos na Fiorentina.

A história manda pensar que há mais casos como os de Edson Cholbi, Diego Sinagra e Jordi, filhos de Pelé, Maradona e Cruijff - que foram engolidos pelas expetativas e desigualdades de talento -, do que o de Paolo Maldini, que fez mais do que Cesare, pai que vencera campeonatos italianos e uma Taça dos Clubes Campeões Europeus na década de 60.

Como Jordi Cruijff uma vez disse, é mais provável acabar como mortal ou prevalecer como uma lenda. A bola está agora com Giovanni, Federico e Ianis.