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Celebrar ou... jogar? Ingleses revoltam-se contra jogos na véspera de Natal

A Sky Sports queria transmitir o Arsenal-Liverpool na tarde de 24 de dezembro, mas teve de recuar nas intenções, depois das críticas contra o calendário

Mariana Cabral

Jürgen Klopp, treinador do Liverpool

LINDSEY PARNABY/GETTY

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Não há nada como a emoção do futebol inglês, os jogos deviam ser todos tão competitivos como no futebol inglês, devíamos deixar jogar como se faz no futebol inglês, blá-blá-blá o futebol inglês.

Quem nunca ouviu algo semelhante a uma destas frases, provavelmente não gosta de futebol. É que é habitual ver o futebol inglês como o pináculo da modalidade na Europa, mas, na verdade, há muita coisa pouco recomendável na ilha - começando pela calendarização das competições (e pela qualidade do jogo, mas essa discussão fica para outra altura).

José Mourinho já se queixou, em tempos, da falta de tempo de descanso entre jogos ingleses e jogos europeus, mas, desta vez, o problema é outro: jogar na véspera de Natal.

É (ou melhor, era, mas já lá vamos) isso mesmo que a Sky Sports, a televisão que transmite os jogos ingleses (com a BT Sports - ambas pagaram €7 mil milhões por esse privilégio, válido ate 2019), queria fazer, algo que não acontece desde 1995. E logo com um Arsenal-Liverpool. "Não consigo imaginar alguém que queira ver futebol nessa noite", criticou recentemente Jürgen Klopp, quando confrontado com a vontade da estação televisiva.

"Se tivermos de jogar no dia 24 de dezembro... não sei se podemos recusá-lo. A Sky tem de decidir se quer mesmo fazer isto, se quer que os adeptos saiam de casa nessa noite, se quer que todas as pessoas que trabalham nas televisões estejam longe de casa nessa noite. Se calhar podemos jogar sem comunicação social, até era bom, só com uma câmara", acrescentou.

A falta de 'peso' dos clubes nas decisões em questão tem muito a ver com o mais recente negócio de direitos televisivos, que deixou a Sky (e a BT) a pagar mais de €1 milhão por jogo transmitido em direto - pelo que é a estação, juntamente com a Premier League, claro está, a decidir quais as melhores datas para as transmissões.

Getty

Mas as críticas de Klopp - às quais se juntaram as do Arsenal, que se queixou das dificuldades em arranjar staff suficiente para trabalhar no estádio numa véspera de Natal - surtiram efeito. A Sky decidiu recuar nas intenções iniciais, remarcando então o jogo para dia 22 de dezembro, sexta-feira, com a restante 19ª jornada da Premier League a ser disputada no sábado, dia 23.

O diretor da Premier League, Richard Scudamore, agradeceu a "flexibilidade" das televisões, mas, ainda assim, a nova data não é propriamente a melhor no que diz respeito ao descanso necessário para os jogadores recuperarem da fadiga, já que, em princípio, o Arsenal jogará a 19 ou a 20 de dezembro para os quartos de final da Taça da Liga (caso elimine entretanto o Norwich, na próxima terça-feira).

Já o Liverpool tem mais tempo de descanso, uma vez que já foi eliminado da prova, mas - tal como o Arsenal - volta a jogar a 26 de dezembro - o 'boxing day' -, na 20ª jornada. E a 21ª jornada está alinhavada (ainda não são conhecidas as horas e dias exatos) para 30 de dezembro...

A equipa de Klopp (e não só) já está habituada a calendários alucinantes (alucinados?): na época passada, recebeu o Manchester City às 17h30 de 31 de dezembro de 2016 e foi jogar a casa do Sunderland às 15h de 2 de janeiro de 2017. "Digo sempre que quem transmite os jogos tem de considerar o magnífico produto que vende - e dá muito dinheiro aos clubes - e isso depende da qualidade e da frescura física dos jogadores", avisou o treinador alemão.

É o futebol inglês. O que, às vezes, não é necessariamente bom.