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Banca empurra Iker Casillas para o banco

Embirração de Sérgio Conceição e pressão das contas no vermelho colocam Casillas nos supranumerários

Depois da provação madrilena, Casillas revive o dilema do banco ou da partida forçada

Rafael Marchante/ Reuters

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Por mais que jure, Sérgio Conceição não enxotou Iker Casillas para o banco, na Alemanha, por opção técnica. O guarda-redes portista é o menos batido da Liga, o segundo melhor da Europa, e não regista esta época ‘frangos’ dignos do YouTube, como o que deu a vitória ao V. Guimarães, em abril, tendo no banco adversário o seu atual treinador. “Não foi opção técnica, é um caso”, garante fonte afeta ao clube, que afirma que Sérgio nunca foi à bola com o guardião-vedeta, aficionado das redes sociais e do telemóvel, até nas concentrações. “É uma exposição que a administração tolerou mas que o Sérgio leva a mal”, refere a mesma fonte, embora frise que “a atração por outras redes” seja apenas “o pretexto mais à mão” para relegar Casillas para o lugar até agora cativo de José Sá.

Após a derrota em Leipzig, a grande dúvida agora é se o jovem Sá mantém a titularidade, hoje, em casa, frente ao Paços de Ferreira (20h30, SportTV1). Na liderança da Liga com 22 pontos — mais dois do que o Sporting e mais cinco do que o Benfica —, o FC Porto, a nível interno, supera as melhores expectativas face aos últimos quatro anos, mas a pressão da banca e do fair play financeiro é um garrote que não irá afrouxar até 2019/20, época em que a SAD terá de chegar ao break-even para ter uma saída limpa da monitorização da UEFA em 2021. Embora tenha baixado os prejuízos para €35,3 milhões nas contas anuais apresentadas há uma semana, a SAD portista viu o capital próprio cair para terreno negativo (-€9,135 milhões) e apenas reduziu €2,5 milhões aos custos com o pessoal (de €75,7 milhões para €73,2 milhões), em parte devido à queda das indemnizações de Helton e Lopetegui de €4 milhões para quase €1 milhão. A perda de titularidade de Maxi Pereira, apenas titular frente ao Moreirense, e a estreia de Casillas no banco são por isso apontadas como uma estratégia de pressão da administração para baixar a massa salarial já no mercado de inverno. Os jogadores mais bem pagos do plantel são o uruguaio de 33 anos e o espanhol de 36 anos, que auferem juntos mais de €5 milhões por ano — daí o clima de mal-estar para Iker antecipar a saída de junho para janeiro e Maxi em ano e meio.

Chefe troca ingredientes

Inibido de apresentar, no acordo com a UEFA, mais de €20 milhões negativos no exercício em curso, Fernando Gomes, administrador financeiro da SAD, já pediu uma correção para €24,6 milhões de prejuízo, benesse que revelou ter sido concedida mas que é sintomática do aperto de cinto no Dragão, numa altura em que os empréstimos obrigacionistas subiram de €19,6 milhões para €44,7 milhões, a liquidar em maio. Com empréstimos bancários correntes de €72,6 milhões, a pressão para valorizar e vender jogadores é a tábua de salvação da SAD, que encaixou em junho mais-valias de €40 milhões com as transferências de André Silva (AC Milan) e Rúben Neves (Wolverhampton). É neste cenário que surge a aposta em Sá, guarda-redes dos sub-21 à espreita da internacionalização na seleção A, bem como a compra de Vaná ao Feirense, na presunção de que Casillas estaria de partida para o Liverpool ou o Las Palmas.

Ao que o Expresso apurou, quando Sérgio chegou ao Dragão, Iker nem entrava nas suas contas — mas estas saíram furadas, porque Casillas acionou a opção de mais um ano de contrato, anunciando-a no Twitter antes de o FC Porto a divulgar. O equívoco de Sérgio terá sido fazer a experiência na Champions e não na Liga, sabendo-se que a receita da UEFA, de €30,8 milhões em 2017 por ter ultrapassado a fase de grupos, é fundamental para o equilíbrio financeiro. É uma mudança de agulha que contraria o propósito da SAD para esta época, apontado no Relatório & Contas: “Os mesmos ingredientes, mas um novo chefe, receita que se espera venha a ser bastante mais saborosa para os sócios e adeptos do FC Porto.”