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Pochettino, o melhor amigo dos ingleses (o perfil do treinador fetiche da Premier League)

É o treinador que na última década mais jogadores ingleses lançou e que acabaram por chegar à seleção. Mauricio Pochettino convenceu-os, e fê-los acreditar, que o futebol também se joga em torno da bola e com os jogadores juntos, perto dela. O argentino está há sete anos na Premier League, já foi vice-campeão com o Tottenham e não quer ir embora tão cedo: "Acreditámos mais neles do que eles próprios"

Diogo Pombo

Mike Hewitt

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Fim do jogo e o campo vai sendo vazado através do túnel, o som dos pitons de alumínio a baterem no chão de azulejo, tac, tac, tac. O treinador está no meio do fluxo de gente e, entre os ruídos, deteta um desabafo de um jogador seu: “Comecemos a jogar, sim, mas depois dos primeiros cinco minutos, todas as bolas para o sete e onze”. As palavras que ouve são o gatilho que lhe pára a marcha, o vira para trás e faz ir ao encontro do futebolista que fala assim. Ou pior, que pensa assim.

É inglês e acredita que arranjar forma de colocar a bola diretamente nos pés de um extremo para que ele a cruze para o avançado grande e forte que está na área. Na cabeça dele, fazer isto o mais rápido possível, é a melhor forma de se jogar futebol. Kick and rush 2.0.

Quando o treinador dá meia volta e o fita nos olhos diz que não, não senhor, e repreende-o. “Mas qual sete e onze? Isso tira-me do sério, aqui jogamos da primeira à última bola!”, exclama Mauricio Pochettino, ríspido embora compreenda de onde vêm aquelas palavras. Entende que está a falar com um jogador nascido onde se gosta do futebol de correrias e de muito coração e de esforço.

Pochettino, não. Pochettino nasceu na Argentina, foi argentino na forma como jogou uma carreira a defesa central e espanhol é na maneira em que aprendeu a ser treinador - e está na terra do kick and rush.

Não é que os ingleses só pensem em chutar a bola para a frente e partir a correr atrás dela. É, sim, uma questão cultural, de identidade, de estarem programados para jogarem à inglesa sem quase se darem conta disso: “Não se pode ir contra a sua cultura. O futebol inglês tem paixão inata. Um canto ou um lançamento lateral são celebrados como um golo e isso faz-te ir para a frente. Isso não se pode, nem se deve, perder”.

Quando repreende o jogador inglês, Pocchetino está em Southampton, nas catacumbas do estádio, em 2013. A as palavras saem-lhe na altura em que os ingleses estão a aprender a gostar dele.

O argentino ainda é rudimentar a expressar-se numa língua que não a sua, demora quase um ano a dominar o inglês deles, sem tradutores. Mas a equipa do sul do país, com tradição de ficar a meio do campeonato e de competições, sempre segura e arrojada q.b., começa a ser diferente. O jogador que Pochettino contraria, mas compreende, como conta ao El País, é um no meio da equipa que, aos poucos, aceita o argentino e percebe o que ele quer.

Mike Hewitt

Pochettino chegara à fria e chuvosa Inglaterra vindo do desemprego. Ficara sem trabalho depois de aguentar o Espanyol de Barcelona, clube pelo qual mais tempo estivera de chuteiras calçadas, na liga espanhola durante três épocas e meia. Despedido por dirigentes quererem mais do que simplesmente sobreviver. A temporada de 2013/14 vai a meio quando é contratado pelo Southampton e lá chega a exigir coisas diferentes.

- Vamos ter um jogo combinativo, rapazes, mais respeito pela bola, jogar desde trás, tratar de jogar mais pela relva do que atirar a bola pelo ar e para a frente.

A equipa do sul, aos poucos, joga com os seus próximos uns dos outros, a tocarem a bola e a darem-lhe uma vida rasteira, prioridade que mistura com a dinâmica, a velocidade e a intensidade que lhes está na natureza. “O jogador inglês é muito intenso e há que melhorar-lhe a resistência e o sofrimento, para estender a sua agressividade durante mais tempo”, defende Pochettino.

Surge o burburinho de ser um promotor de treinos que puxam o pêlo aos jogadores. Os frutos caem mais no 8º lugar no campeonato da segunda época, do que o 14º em que termina a primeira. Já falador de inglês e com reputação de treinador meticuloso, insistente no futebol bonito e intenso, é contratado pelo clube que, em White Hart Lane, velho estádio já demolido para dar lugar ao novo que está a ser construído, tinha um lema escrito: “É melhor falhar almejando o alto, do que suceder apontando para baixo”.

O Tottenham quer um treinador que o faça crescer para lá das possibilidades, além do que é expectável do quinto ou sexto orçamento da Premier League; quer mais do que baloiçar entre a Liga Europa e a Liga dos Campeões.

David Ramos

E o Tottenham tem o que quer.

Leva um quinto, um terceiro e um segundo lugares dos campeonatos que completa com Pochettino, cheira de perto a fragrância de quem tem hipótese de ser campeão. O melhor perfume, contudo, é o que emana do futebol que a equipa pratica, por mais lamecha que seja esta analogia.

O Tottenham transforma-se numa máquina intensa, com a defesa subida no campo e toda a gente a pressionar os contrários em cima. Com jogadores dinâmicos com a bola, a fazerem-na rolar na relva com poucos toques e muitos passes, costelas latinas que o treinador junta a um corpo de jogo inglês.

É a equipa com mais jogadores ingleses menos inglesa que há. Pressionante, dinâmica, técnica e fluída com bola, e sem a bola, mas sempre com tipos como Eric Dier, Danny Rose, Kieran Trippier, Delle Ali ou Harry Kane.

E com um treinador versátil, que tanto os faz jogar num 4-2-3-1 contra adversários normais, como os altera para um 3-4-3 que trava o Chelsea de Antonio Conte, na época passada, ou um 5-3-2 que bate o pé ao Real Madrid, no Bernabéu, esta temporada. “Somos disciplinados, mas geramos caos. Aspiramos a criar um caos organizado. Não temos jogadores com capacidade para resolverem sozinhos, não temos um Messi. No nosso plantel há muita qualidade, mas a principal é associarmo-nos, criar, combinar. Vamos avançando com a bola gerando movimentos e associações”, explicou Mauricio Pochettino, também ao El País.

O argentino pega e aposta nesses jogadores ingleses. Exigiu-lhes tudo como exige aos jovens que lhes seguem, porque têm de “ganhar o direito de se estrearem” na primeira equipa - “Não lhes ofereço nada”. Pochettino gosta de jogadores rápidos e inteligentes, o futebol é um jogo “para enganar o adversário”, um engano que não se consegue apenas a correr e a sprintar. “Eles têm os conceitos de lutar, de pressionar e de correr, que são importantes no jogo moderno, mas também sabem estar com a bola. Querem-na”, resume.

E o treinador quere-os assim, dá-lhes liberdade e menospreza a idade que têm. O facto de Pochettino apostar tanto em jovens talvez venha dos 19 anos que tinha quando, em 1991, o Newell’s Old Boys foi campeão argentino com ele no centro da defesa. Marcelo Bielsa apostou nele e deu-lhe a confiança para fazer o mesmo quando, um dia, se tornasse treinador.

Richard Heathcote

O que pode explicar que dez dos últimos 18 ingleses que se estrearam pela seleção tenham sido treinados por Mauricio Pochettino.

Ele é o fiel mais crente no que eles podem dar. Já o era no Southampton, onde empurrou Luke Shaw ou Adam Lallana, e continua a sê-lo no Tottenham, onde o médio Delle Ali e o avançado Harry Kane não param de se melhorarem.

O argentino que tinha cabelo de índio quando jogava, longo até aos ombros e preso por uma fita, tanto se dedicou a limar o abono de golos da equipa londrina que isso afetou o seu matrimónio: "A minha mulher tem ciúmes porque eu adoro-o". Percebe-se, logo, pela forma como fala do produtor industrial de bolas que entram na baliza, um "guerreiro" que é dono de "uma competitividade extraordinária" e que "não conhece as palavras frustração e deceção".

Pochetino deposita uma fé semelhante nos muitos e bons ingleses que lhe vão chegando aos treinos. “Acreditámos mais neles do que eles próprios. Aqui menospreza-se um pouco o jogador inglês. Mas era uma questão de confiar neles e assentar a nossa filosofia de jogo”, argumentou o argentino, que também foi precoce nisto de deixar de receber ordens e passar a dá-las - admitiu, à BBC, que começou a pensar em ser treinador aos 27 anos, quando jogava no Paris Saint-Germain.

Ele preocupa-se com a equipa, o jogar bem, o todos fazerem o que lhes compete o melhor que conseguirem, de forma intensa. Foca-se nisso, ao ponto de ignorar quase todas as terceiras partes dos jogos da Premier League - a tradição de o treinador visitante ir beber um copo com o anfitrião, no fim dos jogos.

Disse em tempos que apenas ia se fosse Roberto Martínez, hoje seleccionador da Bélgica, ou José Mourinho, que tem como amigos. Ou Alex Ferguson, que tem como ídolo e com quem, um dia, teve mais de duras horas à conversa num restaurante de marisco, em Londres. "Sempre me vou recordar de todos os detalhes", garantiu.

O escocês tanto lhe apraz que, este mês, deu uma pista de querer imitar o que ele fez no Manchester United, ao dizer que "assinaria um contrato de 10 ou 15 anos com o Tottenham". Até lá, amigo, amigo, só dos jogadores ingleses.