Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Valência, o clube que já (re)aprendeu a ser estável

Os últimos dois anos do Valência foram passados a sofrer, a perder, a trocar de treinadores e diretores e, no fundo, a sobreviver no meio de um caos. Mas, esta época, com contenção e Marcelino Garcia Toral, um bom técnico, o clube está no segundo lugar da liga espanhola e a dar espetáculo - porque, ao fim de tanto tempo a mando de um magnata da Singapura que é amigo de Jorge Mendes, já sabe o que é ter estabilidade

Diogo Pombo

CRISTINA QUICLER

Partilhar

Cada bola mal controlada, todo o passe errado, uma opção tomada quando havia uma melhor - tudo era uma ignição para assobios, insultos, apupos, para o tipo de ruído que a ninguém lhe apraz receber. Parecia estar ali em causa a descoberta da fórmula para erradicar todas as doenças, guerras e maleitas da existência humana, e que essa cura milagrosa estava dependente do campo. Jogar no Mestalla “era como tirar uma moeda ao ar”.

Se esses primeiros passes “saíssem bem, tudo parecia fluir um pouco”, as gentes ficavam dormentes e esqueciam os problemas. Mas, se saíssem mal, “era padecer durante os 90 minutos” que dura um jogo, hora e meia tortura. “Já sabíamos que íamos sofrer”, resume o capitão, que olhava à volta e via os companheiros lá longe, escondidos no campo, nenhum a mostrar-se e a querer a bola, enquanto ouvia os assobios que o castigavam por estar mais um segundo sem a passar. O ambiente no estádio do Valência, mau e sempre a piorar, até nem era o pior.

As coisas chegaram ao ponto de Dani Parejo, o capitão, um dos melhores jogadores, com meia década de casa, estar a passear na rua com a mulher e ver pessoas a pararem para o insultarem. Pessoas que era adeptos do Valência e estavam fartas do que o contexto lhes dava.

O clube que, na primeira metade do século, foi bicampeão de Espanha e chegou a um par de finais da Liga dos Campeões, reputado por ter uma escola que ensina bem e ensinou craques como David Silva, Juan Mata ou Jordi Alba a jogarem futebol, estava a definhar - culpa da gestão de quem, supostamente, aparecera para salvar o Valência.

JOSE JORDAN

No verão de 2014, desesperado por uma passivo a rondar os 400 milhões de euros, o clube negociou a venda de 70.4% das suas ações a Peter Li, um singapurense com sangue chinês, ambições magnatas e leviano nos conhecimentos futebolísticos. O milionário asiático contrata Nuno Espírito Santo para treinador, injeta milhões para serem contratados jogadores e o quarto lugar no campeonato põe gelo nos anos de instabilidade em que o clube vinha embalado.

Só que, a partir daí, muito foi piorando ao mesmo tempo, tanta coisa que fica difícil resumir em apenas um parágrafo. Nuno, confiante pela amizade com Jorge Mendes e pela que o empresário nutre com Peter Lim, e faminto por poder, começa às turras com Rufete e Ayala, antigas glórias do clube e assessores de Amadeo Salvo, o diretor desportivo que se demite com eles, em julho de 2015. Vendem-se mal jogadores, compra-se ainda pior, a equipa perde jogos em cadeia e NES é despedido, em novembro.

Seguem-se dois treinadores - três se contarmos com as fases interinas em que se pede ajuda a Voro, lenda do clube que faz de tapa-buracos - e um deles simboliza o que caos que é o Valência - Gary Neville, cativante comentador televisivo, mas porta-aviões ao fundo como treinador, chegara ao posto por ser amigo de Lim e dele saíra como o técnico com a pior percentagem de vitória da história do clube. A última época começou com Paco Ayestarán, que saiu ao fim de um mês e quatro derrotas, passou o lugar a Cesare Prandelli, que se demitiu com três meses de trabalho após criticar jogadores, estrutura, direção e de tudo um pouco.

O velho Voro segurou o barco cheio de água até ao fim da temporada enquanto Peter Lim, sempre à distância e decretando ordens por telemóvel, ia trocando de diretores treinadores (cinco), diretores desportivos (três), jogadores (às dezenas) e enfurecia as gentes do Valência que vociferavam a irritação no estádio e na rua, quando se cruzavam com Dani Parejo. O Valencia terminou as duas temporadas anteriores no 12º lugar.

No início desta época, o Valência, o terceiro clube com mais adeptos em Espanha, um histórico, estava em cacos.

Manuel Queimadelos Alonso

Agora, no fim de novembro, está no segundo lugar da liga, a quatro pontos do Barcelona, vai na sexta vitória seguida que não conseguia há 11 anos, tem uma dupla de avançados que marca tanto como Messi e Suárez e, numa frase - é a equipa mais entusiasmante em Espanha. “Os golos entram porque há estabilidade. O clube está estável, deixam o mister trabalhar, a sua ideia é clara”, resumiu Parejo, hoje feliz, descansado e certo do que o rodeia.

Porque já existe certeza no Valência.

Começou a existir em janeiro, quando Anil Murthy, um engenheiro elétrico, com carreira feita no governo da Singapura, se tornou no novo presidente do Valência. Ou seja, no homem que atende o telemóvel e responde aos sms de Peter Lim. Um homem sem experiência no futebol, mas com noção, dono de um bom-senso que lhe permitiu logo ver o que estava mal. “Cometemos dois erros em 2014: confundimos do Valência por uma convencional e não colocámos o foco no aspeto puramente desportivo”, disse, na altura.

E passou a concentrar-se no futebol, um “negócio básico” em que “tudo se resume a gerir as ambições de um grupo de pessoas muito jovens, que são os jogadores, e se eles se sentirem seguros e felizes, tudo corre melhor”. Para esse futebol contratou, em março, Mateu Alemany, antigo presidente do Maiorca, para ser diretor desportivo, e, sobretudo, foi buscar Marcelino Garcia Toral.

JOSE JORDAN

Analista, constante e exigente, como um dia se descreveu, o novo treinador teve o que os seus cinco antecessores não gozaram - uma palavra a dizer nas vendas e contratações. Livrou-se de tipos como Enzo Pérez, Diego Alves, Álvaro Negredo, João Cancelo ou Nani. “O único qualitativo para estes jogadores é serem prescindíveis”, justificou. E não contratado muito além de Gonçalo Guedes, Gabriel Paulista ou Kondogbia, porque jogadores novos, espalhafatosos e demasiado caros para o pouco que fizeram na vida, já havia muitos.

Passou a haver do que se via pouco: organização. As refeições no centro de treinos controladas à caloria e ao proveito específico para o rendimento. Regimes alimentares para os jogadores cumprirem em casa. Avaliações físicas diárias, consoante os parâmetros definidos, no início da época, a cada futebolista. Quem tiver um índice de massa gorda superior a 9,5% não joga, ponto.

E há um treinador bom, que pensa bem, que pôs jogadores bons a renderem como futebolistas excelentes e, no fundo, formou uma equipa.

O Valência joga com dois médios, dois extremos e dois avançados. Está montado como um grande que joga como tal, sempre à procura de baliza. É uma equipa vertical, mecânica e rápida a atacar, dotada de coisas que já lhe saem automaticamente e de jogadores que já se mostram e querem a bola. “Aborrece-me uma equipa com 80% de posse de bola e só três remates à baliza”, confessou, há anos, Marcelino, induzindo um estilo que Parejo hoje confirma, ao "El País": “No futebol há uma coisa clara - se não és o Barça, o Real ou o Bayern, é mais fácil chegar à área com quatro passes do que com 20”.

Um estilo vertiginoso e prático que tem o clube na segunda posição da La Liga, com sete vitórias e três empates, a praticar um futebol mais espetacular para quem vê, do que talvez para Marcelino (3-2, 3-2 e 6-3 foram três dos últimos seis resultados).

A preferência contra-atacante e ir para a frente com o adversário desorganizado tem feito muito por Gonçalo Guedes, que marca golaços e é adjetivado como um “fenómeno”. E a equipa tem a segunda dupla de avançados (Simone Zaza e Rodrigo, nove e sete golos) mais concretizadora e o segundo melhor marcador- ou mesmo o melhor, “porque Messi não conta”, se nos guiarmos pela filosofia de Zaza.

Assim tem renascido uma equipa boa e a ser melhorada por Marcelino, o treinador, no meio de um clube, enfim, organizado por um diretor desportivo, Alemany, ambos com autonomia e poder graças a um presidente com bom-senso, Murthy. Sem que haja estragos causados pela vontade à distância de um telemóvel do dono, o magnata Peter Lim. Por enquanto, Dani Parejo e os restantes jogadores podem passear e jogar à vontade em Valência.