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Está-se a chocar um Real problema

Podíamos pegar pelas três derrotas, pois este é talvez o único clube no qual três derrotas numa época são o fim do mundo, mas não é só isso. O Real Madrid perdeu o segundo jogo seguido, há cinco anos que não perdia na fase de grupos da Liga dos Campeões e o maior problema é o quão pouco está a jogar

Diogo Pombo

Laurence Griffiths

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No domingo, há uma equipa a quem a bola dedica mais de 60% da sua companhia, remata-a por 20 vezes à baliza dos outros, acerta quase nove em cada dez passes que faz com ela.

Na quarta-feira, há uma equipa que faz quase a mesma coisa, remata, passa e tem muita bola. É a mesma equipa, das que tem tantos excelentes e grandes jogadores que uma pessoa se perde a elogiá-los, e para equipas destas se inventou o lugar-comum de se dizer que basta escolher onze jogadores e pô-los no campo, que eles fazem o resto.

O problema é quando este jargão, que é mentira em tudo, não resulta, e essa equipa, a rematadora e passadora, que tem alguns dos melhores futebolistas do mundo e aparenta dominar, perde em ambos os dias.

Um problema que se agiganta por a equipa em questão ser a do Real Madrid, o clube que, simplesmente, não sabe perder, mas que, em quatro dias, foi derrotado pelo Girona e pelo Tottenham. E, de repente, quem na época passada perdeu cinco jogos está agora com três derrotas no início de novembro. Por muito que Cristiano Ronaldo reaja mal a jornalistas que lhe perguntem por crise e responda para irem ao Google pesquisar os seus golos, estas derrotas são inflacionadas pelos adeptos, que têm a exigência na órbita de Saturno e assobiam ao primeiro ou segundo passe falhado.

Contra os ingleses, na Liga dos Campeões, passou-se o mesmo que diante dos catalães, para a Liga espanhola: o Real Madrid tinha melhores jogadores, teve mais bola, atacou mais e rematou vezes suficientes para a bola repetir as entradas na baliza. Mas perdeu e perdeu bem, castigado pela lentidão de processos e a pouca imaginação, como equipa, para desmontar adversários que apenas tremem quando alguém, por acaso, os rasga com individualidade genial que abunda nos merengues.

O que é pouco e pode explicar o mau que, aos poucos, vai piorando no Real desta temporada.

Alex Caparros

A equipa tem muita bola, mas demasiados jogadores atrás e não à frente dela. Tem Cristiano Ronaldo e Karim Benzema no ataque, dois dos melhores jogadores do mundo e talvez a dupla em que um dos elementos mais faz o outro prosperar, mas eles mal participam em jogadas, a não ser para as finalizar. Há Kroos e Modric, um que nasceu para passar a bola, o outro para rodopiar e arranjar forma de ela nunca se perder, mas eles jogam para gente que está sempre parada.

Há Casemiro, um cão que rouba bolas e que não se cansa a compensar os espaços vagados por outros, mas o treinador encosta-o aos centrais, de onde parte, e já vai tarde, quando é preciso dobrar e remediar os erros da equipa. E tem Marcelo, dos mais influentes e decisivos laterais a atacar, mas que não está em forma e acentua a lentidão e pouca vontade para fazer o que lhe compete, que é defender.

O Real Madrid tem as últimas duas Liga dos Campeões conquistadas. Tem jogadores intergaláticos que, nem é preciso os planetas alinharem-se, têm a rotina de serem dominadores e controladores e abusadores dos adversários, como o foram entre o final da última época e o início desta. Mas, como equipa, estão a coxear, a hesitar, a titubear, a serem lentos a reagir a tudo e básicos quando têm a bola. E o problema não parece estar em Pepe, James e Morata, jogadores que já não estão no clube e que Cristiano Ronaldo mencionou, no final da derrota contra o Tottenham: “Faziam-nos mais fortes, os [jogadores] de agora são mais jovens”.

O português, em parte, tem razão, porque se esqueceu de referir que os três que saíram no verão fortaleciam o banco de suplentes onde, na quarta-feira, seis dos sete jogadores eram espanhóis e, desses, cinco oriundos da formação do clube. Bons jogadores, como Marco Asensio, Lucas Vasquéz ou Dani Ceballos, embora “com menos experiência e isso é importante”, como acrescentou Ronaldo. É para este banco que Zinedine Zidane se tem virado, esta época, quando é preciso que as coisas corram melhor no campo.

No campeonato, o Real vai no terceiro lugar, a oito pontos do líder Barcelona, com dois empates e duas derrotas - e no domingo recebe o Las Palmas (19h45, SportTV2). O ano passado, com as mesmas 10 jornadas, a equipa estava em primeiro, tinha mais quatro pontos, nenhuma derrota, mais oito golos marcados e um sofrido. Fiando nos números, a conclusão é que a equipa não defende mais, nem menos, mas passou a atacar pior.

Como dizem os espanhóis, está a encontrar menos baliza.

Mike Hewitt

Jogando sem extremos e homens que deem largura à equipa além dos laterais - acentuado pelas lesões de Gareth Bale, o avançado que mais estica o jogo do plantel, e de Carvajal, o lateral direito que é o contrapeso de Marcelo -, a equipa depende, em demasia, das desmarcações e movimentos de rutura de Cristiano e Benzema.

Eles estão menos rápidos e os adversários já não lhes deixam explorar tanto a profundidade. Depois, quando isto não sai, confia-se na inspiração de Isco com a bola e ou na capacidade de Kroos e Modric a rodarem de um lado ao outro, quando o Real encosta a posse de bola a uma das linhas, para concentrar os adversários.

Fora a genialidade de Isco, que é finita e inconstante, isto são coisas previsíveis. E insuficientes sempre que a equipa não tem gente a mexer-se, passes a romperem linhas, jogadores a associarem-se entre linhas e mais ideias para lá do cruzar a bola à procura de Cristiano Ronaldo. O Real Madrid não mudou a forma de jogar, os jogadores é que estão em má forma, ou lesionados.

Nos últimos dois ou três anos, e especialmente com Zidane, a equipa tem o hábito de encarrilar tarde na época, entre março e abril, meses em que se joga o futuro no campeonato e na Liga dos Campeões, quando é preciso aparecer, assumir, decidir e resolver. Vários jogadores apontam os picos de forma para essa altura, sendo Cristiano Ronaldo o melhor exemplo. O que costuma resultar pela qualidade e talento per capita na equipa, quando não há lesões.

Mas o problema, a continuarem assim as coisas, poderá ser tudo o que a equipa (não) faça até lá. O que será um Real problema.