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Conte - Mourinho: a história de uma rivalidade que já ninguém consegue datar no tempo

Domingo é dia de clássico na Premier League: Mourinho regressa à sua primeira casa em Inglaterra, aquela em que foi batizado de “Special one”. O Chelsea, que vive um momento de tensão interna, recebe o Manchester United em Stanford Bridge(16h30, SportTV), num duelo que promete sair das quatro linhas. Nos dois jogos da época passada, Conte levou a melhor ao treinador português. Os dois estão fartos de andar às turras, no campeonato dos ‘bitaites’. Caso o United ganhe, Mourinho pode ter uma vingança a dobrar

Fábio Monteiro

José Mourinho venceu a Liga Europa com o Manchester United em 2016/17

Dan Mullan/Getty

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Jogo a jogo ganha-se um campeonato.

Foi isso que o Chelsea, sob orientação de Antonio Conte, fez na época passada. Foi isso que Mourinho, chegado ao Manchester United, não conseguiu fazer.

Por isso, repitamos: jogo a jogo ganha-se um campeonato.

É de desconfiar quando um treinador diz que um clássico é “só mais um jogo”, “um dia normal”. É de desconfiar ainda mais quando este tipo de palavras saem da boca de José Mourinho, ao falar do Chelsea, equipa que costumava treinar, até ser despedido em 2016.

A verdade, digamos, é que um jogo nunca é “só mais um jogo”, muito menos um duelo entre o Chelsea e o Manchester United.

O objetivo das palavras de Mourinho, durante uma conferência de imprensa na quarta-feira, era evidente: baixar as expectativas, controlar os ânimos em volta do encontro marcado para domingo e que irá decorrer em Stamford Bridge. O português não tem boas memórias da época passada: dois jogos, duas derrotas.

Este ano, as coisas parecem estar a mudar: os ‘red devils’ são segundos na Liga Inglesa, com 23 pontos, menos cinco do que o rival Manchester City, enquanto os ‘blues’, campeões em título, estão na quarta posição, com 19. (Ao nível interno do Chelsea, há problemas - mas já aí vamos.)

Depois de muito ser questionado pelos jornalistas, Mourinho acabou por admitir: defrontar o Chelsea é algo “importante porque é um dos grandes, porque são campeões,” e é “um jogo entre duas das melhores equipas do país”. Eis uma descrição mais realista de um clássico, mas ainda assim incompleta.

É que há um detalhe biográfico que ninguém pode esquecer - apesar do próprio defender o contrário. O Chelsea será sempre um local especial, parte da mitologia pessoal, de José Mourinho, pois foi lá que este ganhou o cognome de “Special One”. Foi nos blues que o português construiu fama mundial, depois de ter ganho uma Liga Europa (na época ainda era Taça UEFA) e uma Liga dos Campeões com o FC Porto.

Não será isso motivo suficiente para aumentar a relevância do jogo? “Tenho de admitir que é um bocadinho diferente, mas, no fim de contas, é só um dia normal. Daqui a um par de anos, será ainda mais, e em quatro ou cinco, ninguém se vai lembrar que treinei o Chelsea”, disse Mourinho, no seu tom mais estoico possível.

Às turras, há tanto tempo

Todos os legados são assuntos complicados. Mas o de José Mourinho no Chelsea é-o ainda mais. Há dois anos, Antonio Conte substituiu Mourinho na liderança do clube britânico e fez o que o português não conseguiu fazer: voltou a ganhar o campeonato britânico. Ficaram ressentimentos? Não sabemos. Certo que a relação entre os dois treinadores nunca foi amigável.

Desde que Conte passou a comandar o Chelsea, os dois fartaram-se de trocar galhardetes. Houve bitaites sobre gastos na compra de jogadores, como festejar golos, gestão de plantel… o como e o que fazer. No fundo, o produto de dois gigantescos egos em colisão.

A propósito do jogo de domingo, o jornal britânico Independent publicou esta semana uma “timeline” da troca de insultos entre os dois treinadores. A SkySports também fez um inventário semelhante.

Um exemplo para avivar a memória: quando na época passada, Conte festejou efusivamente a goleada de 4-0 frente ao Manchester United, Mourinho ficou indignado e queixou-se que isso era “humilhante” para o seu clube.

Conte, está claro, considerou esse comentário ridículo. Só que agora pode ter chegado o momento da vingança de Mourinho.

Conte pode ser despedido se o Chelsea perder

Dentro do Chelsea, a vida de Antonio Conte já esteve mais fácil: segundo vários desportivos, o treinador está de relações cortadas com Roman Abramovich, oligarca russo dono do clube londrino, e mantém conflitos com alguns jogadores. Para piorar, a derrota por 3-0 esta semana frente à AS Roma deixou-o ainda num estado mais penoso. Há boatos que Abramovich já procura treinador para a próxima época e o italiano pode ser dispensado em breve.

Na sexta-feira, fugindo ao confronto direto com o United, Conte disse que a sua maior preocupação neste momento era o Manchester City, não o United. “Acho que, nesta altura, o grande problema para todas as equipas que querem lutar pelo título é o Manchester City. Se continuarem desta forma, vai ser muito difícil alguém lutar com eles. Têm estado fantásticos”, disse.

Só que mais uma derrota no comando dos blues pode ser letal para Conte. O Chelsea está a nove pontos do Manchester City… se ficar a doze pode precipitar a decisão de Abramovich.

“No passado o clube decidiu, após duas derrotas ou três maus jogos, despedir o treinador. Não penso que seja igual com todos os treinadores. Mudas a pessoa, mudas o trabalho. Se me perguntam se sinto esse tipo de pressão por parte do clube, a resposta é `zero´”, disse Conte no início de outubro à “SkySports”.

Passadas poucas semanas, tudo parece ter mudado. O trabalho do treinador do Chelsea está no limbo. No domingo, saberemos se chegou o momento de Mourinho dizer: “It’s payback time.”