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O senhor classe vai deixar de espalhá-la. Pelo menos dentro de campo

Andrea Pirlo encerrou a carreira de futebolista, aos 38 anos, num jogo dos 'play-off' da MLS em que que o New York City foi eliminado pelo Columbus Crew - e agora regressa a Itália, para apreciar a vida e a vinha

Mariana Cabral

Depois de 868 jogos, Andrea Pirlo deixa os relvados

Maurizio Lagana/Getty

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Penso, quindi gioco.”

Penso, logo existo? Não. Para Andrea Pirlo, a frase é outra: “Penso, logo jogo”.

Não é habitual ver futebolistas a adaptar frases de filósofos como título da própria autobiografia, mas Pirlo não é apenas um futebolista: é um artista da bola.

Ou melhor, era.

Aos 38 anos, o internacional italiano encerrou a carreira, ao entrar, aos 89 minutos, no jogo em que os New York City foram eliminados do 'play-off' da MLS pelo Columbus Crew, equipa do português Pedro Santos, que aproveitou para tirar uma fotografia com uma "lenda" e um "cavalheiro" do futebol, como o descreveu.

"Quem fala de futebol com qualidade tem de falar do Pirlo", disse à Tribuna Expresso Pedro Santos, que vai disputar a final da conferência Este do campeonato norte-americano, contra o Toronto, a 22 e 30 de novembro. "É uma referência e é um senhor jogador. Agradeci-lhe e ele desejou-me boa sorte", acrescentou o médio português, ex-Sporting de Braga.

Pode não parecer, mas não foram os títulos que fizeram de Pirlo uma lenda, ainda que tenham sido muitos - e grandes: um Mundial de seleções, um Mundial de clubes, duas Ligas dos Campeões, duas Supertaças Europeias, um Euro sub-21, seis Ligas italianas, duas Taças de Itália, três Supertaças italianas e uma 2ª Liga italiana.

É um palmarés impressionante, mas não é nada comparado com as construções do "arquiteto" - era assim que o apelidavam em Itália - no relvado, desde 1995, quando se estreou na Serie A com apenas 16 anos, pelo Brescia. Aí, Pirlo era 'dez', ou, melhor dizendo, 'trequartista', e foi assim que foi vendido ao Inter, mas nunca se conseguiu afirmar em Milão. Foi novamente emprestado ao Brescia, mas, ao contrário do que sucedeu no ano de estreia, já não podia ser 'dez', porque agora havia aí... Roberto Baggio.

Pirlo passou então a encarnar mais frequentemente o papel de 'regista' - o 'seis' italiano -, por ordem de Carlo Mazzone, mas foi só em 2001, quando chegou ao AC Milan, que Pirlo se tornou Pirlo, já com Carlo Ancelotti, que o colocou definitivamente como 'regista' em vez de 'trequartista' - ou seja, um 'dez' a mandar no meio-campo a partir da posição 'seis'.

Com uma inteligência e visão de jogo ímpares, aliadas a uma qualidade de passe e posicionamento irrepreensíveis - sempre com um ar blasé, entre a farta cabeleira impecavelmente (des)penteada e a barba perfeitamente aparada - Pirlo foi exemplo de que não é preciso ser grande, forte e rápido para ser futebolista - basta perceber o suficiente do jogo.

Aos 38 anos, Andrea Pirlo diz adeus ao futebol

Aos 38 anos, Andrea Pirlo diz adeus ao futebol

Claudio Villa/GETTY

Jorge Valdano, ex-jogador, treinador e dirigente do Real Madrid - e escritor nas horas vagas -, descreveu-o assim: "Pirlo é o resumo da classe, um homem que lidera a equipa usando todas as armas que alguns consideram antiquadas e que, para mim, são insubstituíveis: o engano, a pausa, o truque, a precisão. Exatamente o oposto daquela palavra que está tão na moda hoje e que é um desastre para o jogo: intensidade".

E é por isso que o elegante internacional italiano não apreciava particularmente o lado atlético da modalidade. "Uma das coisas de que nunca aprendi a gostar foi do aquecimento antes do jogo. Detesto-o com todas as fibras do meu ser. Até me mete nojo. Não é nada mais do que masturbação para os preparadores físicos, é a maneira de se divertirem à custa dos jogadores", escreveu na sua autobiografia.

"Se temos a Bar Refaeli [modelo israelita] deitada à nossa frente, nua, não podemos piscar-lhe o olho e dizer: 'Espera aí, já aí vou daqui a 15 minutos'. Tudo o que vais fazer naqueles 15 minutos é pensar nela. Vais resguardar-te até a teres nos teus braços e, aí sim, atirares-te a sério ao momento", acrescentou.

Pirlo jogou no AC Milan entre 2001/02 e 2010/11, e na Juventus de 2011/12 a 2014/15

Pirlo jogou no AC Milan entre 2001/02 e 2010/11, e na Juventus de 2011/12 a 2014/15

Claudio Villa

Depois de 20 anos ao mais alto nível, especialmente no AC Milan e na Juventus - e, claro, na seleção italiana, onde conquistou o Mundial-2006, marcando um dos penáltis decisivos na final frente à França ("olhei para o céu e pedi ajuda, porque se Deus existe, de certeza que não é francês") e sendo considerado o melhor em campo ("não sinto pressão, não quero saber disso para nada. Passei a tarde de domingo do dia 9 de julho de 2006 a dormir e a jogar PlayStation. À noite, saí e ganhei o Mundial") -, Pirlo entregou os papéis da pré-reforma em 2015, quando se mudou para o New York City.

Passou a ser uma das figuras da MLS e ainda conseguiu completar a época de 2016 com regularidade e toques de classe, mas as lesões permamentes não lhe permitiram fazer o mesmo este ano, em que só participou em 16 jogos. "Com problemas físicos todos os dias, não podemos treinar como queremos, porque temos sempre alguma coisa. Na minha idade, chega. Não é possível jogar até aos 50. Farei outra coisa", admitiu em outubro à "Gazzetta dello Sport", quando anunciou a sua retirada.

A questão é: o quê? "Trabalhar com Conte? Dizem-se algumas coisas e tenho algumas ideias, mas preciso de tempo para decidir", respondeu com a calma que lhe é característica. O que é certo é que não quer ser treinador, ao contrário de um homem que admira e que foi praticamente tudo o que ele foi em campo - e que até tentou "raptá-lo" para o Barcelona, em 2010: Pep Guardiola.

"Não precisaram de me perguntar duas vezes, fui logo. A sala estava mobilada de forma muito sóbria e havia vinho tinto na mesa. 'É sempre um bom começo', disse para mim mesmo. Felizmente o treinador mais invejado do mundo não me ouviu. A maneira de falar dele é muito semelhante à minha - não somos propriamente tenores, digamos assim. 'Põe-te confortável, Andrea', disse ele, num italiano perfeito", recordou Pirlo na sua autobiografia, na qual conta em pormenor o encontro com o então treinador do Barcelona.

"Tal como com o Real Madrid, quer dizer, bem mais do que com o Real Madrid, teria até rastejado para ir para Barcelona, se fosse preciso. Naquela altura, eram a melhor equipa do mundo - o que é preciso dizer mais? O tipo de futebol que jogavam não se via há muito tempo: muitos passes de primeira, curtos, e uma habilidade incrível em manter a posse. A filosofia era básica: 'a bola é nossa, vamos guardá-la' - e isso com movimentos tão impressionantes que pareciam orquestrados por Deus", escreveu.

Infelizmente - concluiu Pirlo -, o AC Milan não aceitou as propostas do Barcelona e o médio acabou por permanecer em Itália. E o resto, como dizem, é história.

História que, além do futebol, também inclui outra paixão: vinho. Em 2007, Pirlo comprou, com o pai, Luigi, uma vinha de 15 hectares perto de Brescia, onde morava a avó, e dedicou-se ativamente ao fabrico de vinhos, através da empresa Pratum Coller. Convenhamos: assenta-lhe bem.