Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Osvaldo, ex-FCP: antes futebolista, agora dandy e rockeiro que só quer ser “tão normal quanto o padeiro da esquina”

O antigo avançado do FC Porto deixou o futebol com apenas 30 anos para dedicar-se à sua grande paixão, a música. Um ano depois, o jornal argentino "Página/12" foi encontrá-lo no camarim da sua banda, os Barrio Viejo, e Osvaldo falou de tudo: daquilo que o desiludia no futebol, da fama de bad boy, de arrependimentos, de erros e da sua nova vida enquanto vocalista de uma banda que às vezes toca para 10 pessoas

Lídia Paralta Gomes

FRANCISCO LEONG/Getty

Partilhar

Lembra-se de Dani Osvaldo, avançado italo-argentino que passou sem grande glória pelo FC Porto em 2015? Pois bem, para aqueles que deixaram de acompanhar, Osvaldo abandonou o futebol há um ano, mais coisa menos coisa, depois de ser despedido pelo Boca Juniors. Apanhado pelo treinador a fumar no balneário, o atacante respondeu com uma série de insultos e kaput, finito.

O episódio parece paradigmático para um jogador que saiu do Southampton após ter dado uma cabeçada no português José Fonte, oferecendo uma lição de vida a Mauricio Pochettino, treinador que o tinha levado para o clube inglês por uma pipa de massa.

“Depois do Osvaldo, só quero bons rapazes”, disse o técnico argentino, agora no Tottenham.

Após o balneáriogate, Osvaldo fartou-se do futebol. E apesar de ter propostas de clubes como o Chievo ou o Málaga, disse adeus para sempre, com apenas 30 anos, para se dedicar à sua verdadeira paixão: a música.

O balanço da decisão radical, que lhe terá custado milhares de euros, foi feito numa entrevista ao jornal argentino “Pagina/12”, em que o antigo internacional italiano, que passou por clubes como Fiorentina, Espanyol, Roma, Juventus ou Inter de Milão, sublinha que não se arrepende de nada e que vive feliz com uma decisão que lhe trouxe liberdade.

Nascido na Argentina, Osvaldo foi internacional pela Itália, onde jogou grande parte da carreira

Nascido na Argentina, Osvaldo foi internacional pela Itália, onde jogou grande parte da carreira

Claudio Villa/Getty

O “Página 12” foi encontrá-lo nos bastidores de um concerto da sua banda, os Barrio Viejo (que soam assim), nos arredores de Buenos Aires, entre “pedaços de pizza mordidos, duas garrafas de fernet, um copo de whisky do bom, duas cervejas das mais populares, um par de maços de Marlboro, um gorro, um isqueiro verde, um cinzeiro e uma geladeira”.

Bem vindos ao novo mundo de Pablo Daniel Osvaldo, um dandy sem filtros, um rockeiro que viaja em transportes públicos, que agradece ao futebol ter-lhe dado a oportunidade de conhecer o Mundo e assistir a um concerto de Bob Dylan e que por estes dias só quer ser uma pessoa normal, num palco, perante 10 ou milhares de pessoas.

A retirada prematura
“Se ganhei liberdade? Sim, ganhei um pouco. Não me arrependo de nada e vivo feliz com a minha decisão. Agora as pessoas são muito mais gratas comigo, mais amáveis. O mundo do rock ajuda-me a entender outras coisas. Já o universo do futebol julga-te muito. Hoje vivo num ambiente que é mais relaxado, com os pés assentes na terra, no qual te tornas sensível a causas que valem a pena e não à fantochada da TV, que é uma porcaria”

O Boca Juniors foi o seu último clube

O Boca Juniors foi o seu último clube

ALEJANDRO PAGNI/Getty

Vontade de ser anónimo
“Não quero ser exemplo para ninguém, só quero que me deixem viver tranquilo, como o padeiro da esquina. Igual. (...) O futebol é uma bolha que te aprisiona, porque tem coisas muito atraentes, mas no fim do dia dás-te conta que tudo isso é mentira, que as pessoas não vivem assim. E eu prefiro estar do lado da maioria, não nessa bolha”

“Toda a gente erra. A diferença é que dos erros dos futebolistas toda a gente fala e dos erros do vendedor de verduras ninguém fala. Então, prefiro ser como o vendedor de verduras, porque ninguém se importa com o que ele faz e por isso pode ser uma pessoa melhor no seu mundo”

A má fama enquanto futebolista
“O que gostava menos no futebol era de ter de lidar com a imaginação das pessoas. Aqui, no meu país, onde cheguei feliz e com vontade de cumprir um sonho, disseram logo que não era profissional. Diziam coisas do género: ‘Este gosta de rock and roll. Então deve gostar de whisky. E ainda por cima fuma. Deve ficar até às 5 da manhã a beber whisky. E de certeza que se droga também’. E pronto, já ficas marcado. E eu tenho de responder: ‘Não, amigo. Joguei 11 anos na Europa, na seleção da Itália e na Juventus. Achas que isso era possível se me drogasse, se fumasse 50 cigarros por dia ou se bebesse whisky até às 5 da manhã?’ É claro que gosto de beber o meu whisky, de fumar o meu cigarro e de rock and roll, mas só quando posso. Nem todos os dias da minha vida são assim”

Futebol vs Rock
“O futebol também é aparentar algo que não és. (...) O rock é mais genuíno, mais real. Somos uma banda recente e que toca em sítios em que às vezes há montes de gente e às vezes há 10 pessoas. E isso é bom, porque aí dás importância ao que fazes, tentas dar o máximo para que na próxima haja 12 pessoas em vez de 10”

Um encontro de dois argentinos em Itália

Um encontro de dois argentinos em Itália

Claudio Villa/Getty

Chateado com o futebol? Naa
“Estou eternamente agradecido ao futebol. No bom e no mau. Sou o que sou e tenho o que tenho por causa do futebol. É um lugar maravilhoso, que me fez conhecer todo o Mundo, que me fez jogar em muitos sítios e abrir os meus horizontes. O futebol permitiu-me ver o Bob Dylan ao vivo. (...) O problema com o futebol era meu. Era algo pessoal. Não quero mudar o futebol, só decidi deixá-lo”

Se já lhe passou pela cabeça regressar
“Não, porque estou a desfrutar da vida. Não deixei o futebol porque tive uma lesão grave ou porque estava velho e tinha de ser. Eu podia jogar mais seis anos, mas não tenho vontade. E isso não é um peso para mim, na verdade ajuda-me a olhar para trás e a ver onde joguei e às vezes nem consigo acreditar”

O discurso dos jogadores
“Sendo um negócio e havendo tantos interesses, no futebol nada é real. É um espectáculo, mas perdeu a beleza. E com tantas câmaras, os jogadores falam, mas de boca tapada. É ridículo! Mas está a falar de quê, do segredo da Coca-Cola? Mas é algo que têm de fazer, porque numa realidade em que se atiram pedras aos carros dos jogadores, como é que eles não vão agir assim? É doente o mundo do futebol”

A fama, a falta de privacidade
“A fama é perigosa quando és só um miúdo que quer viver e ir a um bar beber uma cerveja e fumar um cigarro. E aí toda a gente olha para ti. E aí tenho de dizer ‘O que é que estou a fazer de errado? Porque é que estás a olhar? Porque é que me estás a tirar uma foto? A minha mãe sabe que fumo, não há mal nenhum’. Ainda há pouco tempo uma miúda estava a tirar-me fotografias e disse-lhe ‘Não me tires fotos enquanto estou a comer. Vem cá e pede-me, que eu tiro a foto, mas enquanto estou a comer não, ainda saio com um bocado de comida nos dentes’. E a miúda disse-me ‘Aguenta-te, és famoso’. É lixado porque a malta pensa que lá porque apareces na televisão… e repara, eu não quero aparecer na televisão. Apareço na TV porque é um negócio e sou bom a jogar à bola. Não sou um ator que quer aparecer”

Osvaldo com a ex-mulher e o filho mais novo, Morrison

Osvaldo com a ex-mulher e o filho mais novo, Morrison

STR/getty

Sobre arrependimentos - ou a falta deles - e compromissos
“Hoje faria tudo igual. Bem, fiz mil coisas erradas na minha vida, talvez tratasse de não repetir alguns erros. Sou um tipo estranho, não sou fácil. É difícil mudar, mas estou a tentar. Tenho um carácter forte, sou impulsivo. Mas também sou sensível e quando me arrependo é pior, porque me dou conta que exagerei. Mas sou um bom rapaz [ri-se]”

“Tento ser um pai melhor, mas em certas situações - e não vou entrar em detalhes - não mo permitem. Às vezes faço merda e tão pouco facilito as coisas. Isso é certo. (...) No futebol não tenho arrependimentos porque dei tudo o que tinha para dar. Mas no resto, bem, é mais profundo. Custa-me o compromisso, a minha relação com o compromisso é lixada. E nem falo do amor. Às vezes digo a mim próprio ‘Não podes ser tão filho da p*** não fazendo isto. Tens que fazer e mais nada’. Às vezes custa-me lidar comigo próprio”

Osvaldo com 60 anos
“Imagino-me em cima de um palco, mas com mais tempo, a desfrutar de tudo. E sendo avô. Imagino-me a fazer um assado para os meus filhos e netos”