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Para o bem de todos, Buffon não pode ser medíocre

Restam poucos senhores, dos antigos, no futebol, e um dos últimos corre o risco de ir para a reforma sem jogar um último Campeonato do Mundo, aos 39 anos. Gianluigi Buffon e a sua Itália têm de dar a volta aos suecos, esta segunda-feira (19h45, Sport TV1) para que isso não aconteça

Diogo Pombo

MARCO BERTORELLO

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Ser “um indivíduo distinto” ou digno de “um tratamento respeitoso ou de cerimónia”.

O dicionário tem a habilidade, quase infinita, de nos ensinar o significado das coisas, mesmo que, na palavra “senhor”, seja um incapaz. Entre as linhas e as frases simples com que explica o que é um senhor, não há nada específico sobre o futebol, o mundo onde os senhores já não se reproduzem como dantes e a palavra tem um significado especial. Eles são cada vez mais raros, há mais a despedirem-se do que a dizerem olá e o que os define não é palpável. Por isso, não é fácil arranjar um significado para Gianluigi Buffon; sobretudo, não é fácil escrever o que pode acontecer se esta segunda-feira (19h45, SportTV1) ele, e país dele, não consigam virar o resultado de 1-0 contra a Suécia.

Quem ele é

Buffon nasceu em Itália e, até ao início da adolescência, quis jogar futebol com os pés, a meio campo, no meio de onde tudo acontece. A família desaconselhava-o. A mãe, lançadora do disco que durante 17 anos guardou o recorde nacional do país, e o pai, um atleta que preferiu representar a nação no lançamento do peso, viam a força e coordenação motora no tronco do filho, mas não nos pés dele. E Gianluigi apenas cedeu à evidência quando se admirou ao ver Thomas N’Kono, um guarda-redes, a defender a baliza dos Camarões no Mundial que, em 1990, se jogou em Itália.

Ele era júnior, já bastante crescido, quando se deixou de poder atrasar uma bola para as mãos do guarda-redes. Mudaram-lhe o mundo e Buffon começou a mudar o nosso em 1997, quando se estreou, aos 17 anos, pelo Parma. Foi a primeira de mais de mil partidas de futebol em que o senhor foi crescendo, maturando, dando provas de como as aparências são mais do que irrelevantes para a competência.

Porque Gianluigi Buffon não é, esteticamente, um guarda-redes bonito a executar a profissão: não é espalhafatoso para a fotografia, não rodopia na relva para embelezar uma parada que apenas é eficaz, não se esquece, propositadamente, que tem pernas, só para cair de corpo na relva e ser mais espetacular. Na baliza, ele faz uso dos reflexos, da destreza, do instinto e do tempo de reação que ainda mantém aguçados, aos 39 anos que são quase 40 (celebra-os em janeiro), da mesma forma como existe fora dos postes - educado, humilde, natural, sem querer ser mais do que realmente é.

E ele é grande. Não apenas por a Juventus ter pagado quase 53 milhões de euros por ele, em 2001; ainda é o guarda-redes mais caro de sempre. Ou por ter vencido o Campeonato do Mundo, em 2006, apenas com dois golos sofridos, um auto-golo e um penálti picado à Panenka por Zidane, que merece o desconto de toda a gente.

Claudio Villa

É mais por ser o tipo que fez questão de ficar na Juventus, em 2006, quando o dono foi corrupto e a equipa, os adeptos e os jogadores pagaram por isso com a despromoção à segunda divisão; o clube agradeceu-lhe ter publicado um anúncio em três dos maiores jornais desportivos italianos. E por ser o homem que, ao perder cerca de 20 milhões de euros na Zucchi, à medida que a marca de roupa italiana, histórica mas em decadência, entrava em falência e o aconselhavam a despedir pessoas e a cortar custos, se recusou a fazê-lo. E, enfim, por dizer isto à Gazzeta dello Sport: “Foram 20 milhões que se esfumaram, mas consegui assegurar as vidas de 1.200 famílias. Essa era a minha prioridade”. Honestidade.

Porque Buffon é ponderado, aberto, eloquente e original, como na vez em que, espantado, criticou as críticas que se apontam aos guarda-redes e o facto de se discutir mais os pés do que as mãos deles. “A primeira pergunta que se devia fazer às pessoas é: sabes o quão grande é a grande área para o guarda-redes, quando ele está na linha de baliza? Ninguém sabe, é 100 metros quadrados. É quase o mesmo que um apartamento com dois quartos. Assim se percebe o quão pouco entendimento há e quão pouca é a vontade para as pessoas se informarem e terem isso em consideração”, argumentou, há uns anos.

Gianluigi Buffon é respeitado, tido em conta, encarado como referência e uma figura no futebol. O guarda-redes que nunca se sentou à mesa com polémica, a pessoa que conforta os perdedores e elogia adversários, sem problemas, o quase quarentão que já ganhou quase tudo e prossegue, genuíno, a festejar vitórias como um miúdo que ganha o jogo no recreio da escola e pode retornar feliz à sala de aula.

É o senhor que viu outros senhores antes dele, seus contemporâneos - Francesco Totti, Xabi Alonso, Andrea Pirlo -, a retirarem-se e a deixarem-no como um dos últimos a carregar este farol. Por enquanto, já que Buffon anunciou, em junho, que se retirará assim que o próximo Campeonato do Mundo acabar. Que pode não o ter, porque a Itália perdeu com a Suécia há dias (1-0) e corre o risco de falhar a prova, pela primeira vez, desde 1958, caso esta segunda-feira não saia viva desse play-off de acesso ao sexto Mundial da carreira deste senhor guarda-redes.

E ele, da mesma forma como guarda uma baliza, apareceu calmo, sereno e sapiente a falar, antes do jogo: “Temos que estar unidos, somos obrigados a conseguir um pequeno feito e precisamos que os adeptos nos apoiem. Não nos podemos habituar à mediocridade”.

Gianluigi Buffon não a merece.

JONATHAN NACKSTRAND