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Marcelo Bielsa é suspenso pelo Lille e deixa a equipa nas mãos de dois portugueses

Penúltimo na Liga francesa, o Lille acaba de ficar sem treinador, ao anunciar a "suspensão temporária" de Marcelo Bielsa e nomear um "grupo técnico provisório" para liderar a equipa, entre os quais está o observador (treinador?) João Sacramento e o diretor Luís Campos

Mariana Cabral

Marcelo Bielsa foi contratado pelo Lille há nove meses, mas só entrou oficialmente em funções no início da época 2017/18

JEAN-SEBASTIEN EVRARD/GETTY

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Em maio de 2017 foi assim: "Estamos extremamente satisfeitos por receber Marcelo Bielsa, que é uma parte importante do projeto. Já começámos a trabalhar com Marcelo e Luís Campos já compilou uma lista de jogadores que correspondem às necessidades identificadas."

Em novembro de 2017 é assim: "Decidimos suspender temporariamente o senhor Marcelo Bielsa da sua função de treinador, devido a um processo imposto pelo clube. [...] Foi constituído um grupo ténico composto por Fernando da Cruz, João Sacramento, Benoît Delaval e Franck Mantaux, que orientará a equipa de forma provisória. O presidente Gérard Lopez pediu também ao seu conselheiro desportivo, Luís Campos, que reforce a sua proximidade à equipa, supervisionando este período de transição."

A situação atual do Lille é tudo menos boa - é penúltimo da Liga francesa, com apenas 12 pontos em 13 jogos, ou seja, três vitórias, três empates e sete derrotas -, mas não terá sido (apenas) pelos resultados desportivos que Bielsa foi suspenso, apesar de ser praticamente certa a sua saída do clube, nos próximos dias.

Ainda que nem os dirigentes nem o treinador argentino de 62 anos tenham explicado o porquê da decisão, o jornalista Fabián Taboada, da ESPN argentina, indicou que, alegadamente, o problema terá sido uma viagem não autorizada de Bielsa, que faltou ao treino de quarta-feira para ir ao Chile ver o ex-adjunto Luis Maria Bonini, internado em estado crítico devido a um cancro - acabou por morrer esta quinta-feira.

E, assim, o clube evita ter de cumprir o restante contrato de Bielsa, que vai até 2019 - a rescisão unilateral custaria entre €14 a 16 milhões, segundo o "L' Équipe".

Sem Bielsa, o líder do gabinete passa a ser Luís Campos, o atual conselheiro do presidente do Lille e ex-diretor do Mónaco nos últimos dois anos (e, antes, ex-treinador de vários clubes portugueses), que endossou o balneário a um outro ex-pupilo monegasco: João Sacramento.

De acordo com o "L' Équipe", será mesmo o treinador português de 28 anos a orientar a equipa sexta-feira, no treino, e também no sábado, em casa do Montpellier, sendo coadjuvado por Fernando da Cruz (treinador adjunto luso-francês e portador da licença BEPF, necessária para estar na ficha de jogo), Benoît Delaval (preparador físico) e Franck Mantaux (treinador de guarda-redes).

João Sacramento está no Lille desde janeiro de 2017, depois de ter estado no Mónaco

João Sacramento está no Lille desde janeiro de 2017, depois de ter estado no Mónaco

DR

Quando chegou ao Lille, em janeiro, João Sacramento foi anunciado como adjunto de Patrick Collot, sendo responsável pela observação dos adversários da equipa, mas também tendo funções ao nível da orientação do treino.

Contudo, depois da entrada de Bielsa, Sacramento foi afastado da equipa técnica, com o treinador argentino a explicar que já não necessitava dele, devido à "diminuição da carga de trabalho" - no que foi então entendido pela imprensa francesa como um problema na relação do treinador com Luís Campos.

Naquela altura, Bielsa acabou por fazer uma revelação (queixa?) curiosa: "A partir de uma proposta de Luís Campos, observei 15 jogos de cada um dos 120 jogadores referenciados, o que pressupôs a visualização de 1800 jogos até 31 de agosto".

Marc Ingla, diretor-geral do Lille, com o português Luís Campos, diretor desportivo do clube, na apresentação do médio Xeka, em fevereiro de 2017

Marc Ingla, diretor-geral do Lille, com o português Luís Campos, diretor desportivo do clube, na apresentação do médio Xeka, em fevereiro de 2017

DENIS CHARLET/GETTY

No início da época, o treinador dispensou mais de uma dezena de jogadores- muitos deles por SMS ("foi muito esquisito, fui informado por um SMS, assim como todos os outros", disse então Junior Tallo ao "L' Équipe") - e o clube contratou outra dezena, investindo cerca de €60 milhões (€5,5 dos quais no central português Edgar Ié) para melhorar o 11º lugar em que terminou a época passada.

Bielsa trouxe a filosofia e forma de jogar que o caracteriza (e que influenciou fortemente Pep Guardiola e Mauricio Pochettino, por exemplo) - "tentaremos atacar o máximo possível, defender bem, se possível no meio-campo adversário, jogando com a bola no chão", disse então - e, pelo meio, foi confirmando a alcunha pela qual é conhecido, "El Loco", ao pedir ao Lille para ficar a viver no centro de treinos do clube e ao pedir aos jogadores que respondessem a um questionário, inicialmente pensado com 200 perguntas, mas depois resumido para apenas cinco - entre elas, "o que pensas da pobreza no mundo?"

Originalidade e ideias não lhe faltam, dentro e fora de campo, mas faltou o que mais interessa a quem manda: resultados.