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O último discurso de Zé Roberto, aos 43 anos: “Joguem por mim nessa noite, rapaziada. E vamos ser felizes”

O internacional brasileiro passou por 10 clubes, fez quase 1000 jogos, esteve em dois Mundiais, ganhou uma Liga dos Campeões e fez um pouco de tudo mais. Zé Roberto deixou de jogar futebol na segunda-feira, despedindo-se do Palmeiras e de uma carreira que durou mais de duas décadas. Este é o vídeo do discurso (que puxa à emoção) que proferiu no balneário, antes do último encontro da carreira

Diogo Pombo

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Zé Roberto jogou à bola "pé descalço", nas ruas e nos passeios, algures em São Paulo, sonhando que um dia jogaria equipado, calçado e no gramado, como dizem os brasileiros. A Portuguesa dos Desportos, o clube mais português do país, deu-lhe essa oportunidade e logo aí ele teve a noção - uma básica, mas que a maior parte das pessoas se esquecem de ter - de que nada dura para sempre.

Zé Roberto percebeu isso em novo, quando chutou e correu e bateu na bola como um miúdo canhoto, jeitoso ao ponto de Real Madrid, Bayer Leverkusen, Bayern de Munique e outros clubes brasileiros e europeus, apostarem sempre nele. De a seleção lhe dar mais de 80 oportunidades de jogar por, e para ela, em dois Campeonatos do Mundo.

Zé Roberto não foi um especial futebolista por tudo isto, mas especial é por, no fim, admitir que desfrutou intensamente do que teve. Tanto gostava, amava e venerava a vivência de ser futebolista que se foi agarrando a ela, prolongando-se como jogador até agora.

Ao dia em que está com 43 anos e 23 de carreira jogada.

Zé Roberto foi extremo, médio centro e acabou a jogar como lateral esquerdo, com o físico esguio e musculado de um adolescente, movido por uma personalidade humilde, trabalhadora, gratificadora e agradecida pelo que tem. Foi o veterano dos veteranos, um pleonasmo que faria dele um velho em Portugal, mas o fez um ídolo no Brasil.

Porque continuou a jogar até chegar ao Palmeiras, por quem ganhou um Brasileirão e Copa do Brasil, proezas que um quarentão elogiou como as mais importantes de uma carreira que teve Bundesligas ganhas, Mundiais jogados, Liga dos Campeões perdidas.

 Zé Roberto começou a jogar em 1994, na Portuguesa, e mudou-se para o Real Madrid em 1996/

Zé Roberto começou a jogar em 1994, na Portuguesa, e mudou-se para o Real Madrid em 1996/

Alexandre Schneider

Zé Roberto nunca foi dos futebolistas mais conhecidos, dos mais famosos ou dos mais tidos em conta em golos, passes ou dribles. Em estatísticas. Mas, no balneário do Allianz Parque, em São Paulo, na segunda-feira, no momento em que as lágrimas e a emoção lhe encheram os olhos tanto quanto o futebol o encheu, ele mostrou-nos como, porventura, será dos jogadores com sai do futebol com mais alma e sentimento:

"Eu vivi isso aqui intensamente. O futebol foi a minha vida. E quando eu falo de futebol, quero trazer para vocês a memória do que nos dá esperança nessa noite. Vivi isso aqui intensamente porque passa rápido e, quando menos a gente espera, chegou o dia do triunfo. De uma carreira vitoriosa. Saio daqui nessa noite sem ter mancha na minha carreira. Saio daqui, não apresentando conquistas, fama, títulos ou dinheiro para vocês. Não. Sabe porquê? Porque a fama, um dia, ela vai embora."

Zé Roberto falou aos companheiros de equipa, colocou-se no meio de todos, discursou palavras pensadas e preparadas, pôs muita gente a chorar à sua volta. Descartou a fama, o dinheiro e o prestígio figurados no seu discurso, e jogou fora as medalhas - as "credenciais". Deitou-as para o lixo literal à frente de toda a gente, no balneário, a minutos de entrarem em campo para o último jogo da carreira dele, o 975º.

E Zé Roberto, desfeito pela emoção, pediu-lhes uma coisa, antes de cumprir os últimos 90 minutos (sim, até ao fim) como jogador profissional de futebol : "Joguem por mim nessa noite, rapaziada. E vamos ser felizes".