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A solução estava no banco. Ou, melhor, no bancário

Maurizio Sarri tem 58 anos e só chegou à Serie A há quatro épocas, mas pôs o Nápoles — que não é campeão desde os anos 80, com Maradona — em 1º lugar. E a jogar bonito. Esta sexta-feira há Nápoles-Juventus (19h45, SportTV3)

Mariana Cabral

O ex-banqueiro Maurizio Sarri vai na terceira época à frente da equipa do Nápoles e já foi elogiado por Pep Guardiola e Arrigo Sacchi

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Segunda-feira é, habitualmente, dia de folga para quem anda no futebol. Foi por isso que, esta segunda-feira, o futebol italiano celebrou a Gran Galà del Calcio 2016/17, onde foram premiados os melhores intervenientes da época, desde jogadores e treinadores a árbitros, de ambas as divisões profissionais.

O melhor onze da Serie A — votado pelos próprios jogadores — contou com sete nomes da campeã Juventus (Buffon, Alves — agora no PSG —, Bonucci — agora no Milan —, Sandro, Pjanic, Dybala e Higuaín), um da Roma, 2ª classificada (Nainggolan), e três do Nápoles, 3º (Koulibaly, Hamsik e Mertens).

Mas o mais votado como melhor treinador não foi nem o campeão Massimiliano Allegri nem o vice-campeão Luciano Spalletti (agora no Inter) — foi Maurizio Sarri. E o treinador do Nápoles, ao contrário dos restantes, não foi à gala — ficou em casa a preparar o Nápoles-Juventus, marcado para hoje (19h45, SportTV3).

É que, além de este ser o maior jogo da época até agora — o Nápoles está em 1º, com 38 pontos, e a Juventus em 3º, com 34 (o Inter é 2º, com 36) —, ninguém tira a Sarri aquilo que ele mais gosta de fazer: pensar sobre futebol. “Às vezes, estudo tática 13 horas por dia”, confessou o napolitano, que ficou com a alcunha “Mister 33” desde os tempos do Sansovino, da 6ª divisão, porque tinha preparadas 33 formas diferentes de marcar bolas paradas. E não só. “Havia jogadas para tudo o que se possa imaginar: lançamentos, saídas a partir da defesa, transições”, contou Rafael Bondi, jogador de Sarri em três equipas de divisões inferiores (Arezzo, Alessandria e Sorrento). “Olhávamos para a forma como o jogador que ia marcar o lançamento pegava na bola e já sabíamos para onde é que ia jogar. O Sarri também dava os nomes dos roupeiros e massagistas às jogadas, portanto, quando alguém gritava ‘fulano’, já sabíamos qual era o lance.”

De um banco com fato e gravata para um banco com fato de treino

Nascido em Bagnoli, um bairro da classe baixa de Nápoles, em 1959, Sarri demorou muito até entrar no futebol profissional. Nunca conseguiu vingar como jogador e, depois de estudar Economia, arranjou emprego no banco Monte dei Paschi di Siena, em Florença. À noite, em part-time, treinava equipas amadoras. Só em 2000/01, quando entrou no Sansovino, já com 40 anos, é que decidiu mesmo mudar de carreira — prometeu que seriam campeões, senão deixaria o futebol. “Tinha de me focar exclusivamente no futebol para obter resultados”, explicou. E tinha razão.

Foi campeão e começou a subir pelas divisões inferiores até entrar no Empoli, da Serie B, em 2012/13. Na primeira época chegou ao playoff, mas não subiu; na segunda subiu; e na terceira — a sua estreia na Serie A, com 55 anos — conseguiu a manutenção. Mas o mais importante era o que se via em campo: um modelo de jogo marcadamente ofensivo, mas com uma tal perfeição no sector defensivo que parecia medido a régua e esquadro — os quatro defesas movimentam-se e defendem sempre em conjunto.

Não demorou muito para que os italianos percebessem que estava ali um treinador especial. “Disse a Berlusconi: ‘Silvio, se queres repetir com o Milan o que aconteceu comigo há 25 anos, dou-te um nome. Não vai ser caro e é o treinador de que precisas.’ Sei que falaram com ele quando estava no Empoli, mas não avançou”, contou Arrigo Sacchi, ex-treinador italiano. “No ano passado, o Silvio disse-me: ‘Arrigo, cometi um erro.’”

É que, em 2015/16, Sarri foi contratado pelo Nápoles e desde então tem lutado sempre pelo título, que o clube já não conquista desde 1989/90, quando tinha Maradona a carregar a equipa. O mesmo Maradona que, quando Sarri foi apresentado, disse: “Não teremos um Nápoles vencedor com ele. É boa pessoa, mas não é suficiente.”

Mas depois de 63 vitórias, 17 empates e 10 derrotas em 90 jogos pelo Nápoles na Serie A, Sarri convenceu toda a gente, incluindo Maradona, que acabou por se retratar. E construiu, com um 4-3-3 praticamente imutável (Reina, Hysaj, Albiol, Koulibaly, Ghoulam, Jorginho, Allan, Hamsik, Callejón, Insigne e Mertens), uma das equipas europeias com um futebol mais vistoso, fluido e organizado, que constrói as jogadas pausadamente desde o guarda-redes até conseguir espaço para entrar na área oposta — e finalizar com o ‘falso nove’ Mertens, uma das adaptações bem-sucedidas, depois da saída de Higuaín para a Juventus, por €90 milhões.

“A equipa tem velocidade, fantasia, joga bonito. Não tem jogadores de top, mas é organizada. Sarri é o maestro da orquestra, e todos melhoraram com ele”, garantiu Sacchi, que antes de ser campeão europeu pelo Milan era vendedor de sapatos. “Se Sarri tivesse continuado no banco, agora provavelmente já seria ministro das Finanças”, disse Spalletti. O ex-bancário agradece os elogios (Guardiola também disse maravilhas sobre ele), mas só quer saber de futebol. “Pagam-me por algo que eu faria de graça, depois do trabalho. Sou um sortudo”, explicou. “Se no próximo ano começasse novamente na Serie B, seria igualmente feliz. Continuarei a usar o meu fato de treino, a não ser que o presidente me peça para vestir um fato para as entrevistas. Mas, no banco, só visto fato de treino.” É este o banco que faz dele um homem feliz.