Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Victor Valdés fez-nos um ghosting (ou como dizer adeus ao futebol não deixando rasto digital)

Em 2015, o antigo guardião do Barcelona avisou que quando se retirasse seria “difícil de encontrar”. No início de 2018 cumpriu a promessa: há seis meses sem jogar, Valdés “anunciou” o fim de carreira de uma forma particular, apagando todos os dados das suas contas nas redes sociais

Lídia Paralta Gomes

David Ramos/Getty

Partilhar

Os novos tempos são curiosos tempos, em que a nossa existência se divide nas mais diversas plataformas, sejam elas mais físicas ou mais digitais. E para os novos tempos inventaram-se novas linguagens, novos vocábulos, novas expressões, que não aparecem nos dicionários tradicionais, mas andam de boca em boca.

O Urban Dictionary é um bom recipiente desse novo léxico informal. E só lá podemos encontrar expressões como ghosting.

Portanto, ghosting, variação em forma de verbo da palavra ghost (fantasma, no nosso português), desaparecer a alguém, deixando de responder a telefonemas, a mensagens nas redes sociais, sem um aviso prévio, sem anunciar razões, muitas vezes fugindo a essas tais razões.

Ghosting, o “sair para comprar cigarros” dos tempos modernos.

Foi isso que Victor Valdés nos fez há um par de dias. O antigo guarda-redes do Barcelona, que pelos blaugrana venceu seis ligas espanholas e três Ligas dos Campeões, naquela equipa que marcou uma era, resolveu dizer adeus ao futebol à sua maneira. Horas depois de ter escrito a mensagem “Obrigado por tudo” no Instagram, no primeiro dia deste ano de 2018, Valdés apagou todas as fotos da conta. Pelo caminho, fez o mesmo com as suas páginas de Twitter e Facebook.

As contas continuam lá, mas vazias, como se Valdés nos quisesse dizer “eu podia estar aqui, mas eu não quero estar aqui”. E numa sociedade em que se discute permanentemente se há ou não um excesso de informação, Valdés, que queria passar despercebido, tornou-se notícia por não querer fazer sequer parte dela.

Verdade seja dita, ao contrário daqueles que não dão uma explicação, que desaparecem, simplesmente, Valdés já tinha deixado um aviso. Um ténue aviso, mas um aviso. “Espero que quando a luz se apagar, seja difícil encontrar-me”, disse numa entrevista a uma televisão colombiana em 2015.

Nessa mesma entrevista, Valdés abriu-se sobre os três meses que passou sozinho na pequena cidade alemã de Augsburgo a recuperar de uma lesão grave no joelho, experiência que muito terá contribuído para esta espécie de desaparecimento. “Vivia num hotel e todos os dias apanhava duas e três vezes o elétrico para clínica onde recuperava. Passava despercebido no elétrico, na rua, coisa que não acontecia em Barcelona. Soube-me bem depois de tantos anos voltar a tocar em moedas para pagar um bilhete de elétrico, um café. Porque nós futebolistas vivemos num mundo irreal, em que nos dão tudo feito, em que tudo é fácil”.

Valdés foi durante quase 10 anos o dono da baliza do Barcelona: venceu seis ligas espanholas e três Champions

Valdés foi durante quase 10 anos o dono da baliza do Barcelona: venceu seis ligas espanholas e três Champions

JOSEP LAGO/Getty

A ânsia por anonimato já ali estava. Depois da recuperação seguiram-se duas temporadas complicadas em que passou sem grande sucesso por Manchester United, Standard Liege e Middlesbrough. E após seis meses sem jogar, despediu-se sem uma conferência de imprensa ou uma carta cheia de bonitas palavras aos adeptos. Desapareceu, simplesmente.

Mais um na máquina

Valdés diz adeus à vida pública sem fogo de artifício ou grandes reviengas, um pouco à imagem da sua atitude dentro de campo. O miúdo que não queria ser guarda-redes e que sofria vendo cada sábado de jogo aproximar-se, acabou a fazer mais de 500 jogos pela primeira equipa do Barcelona, junto a Xavi, Iniesta e Messi, ele que era mais um na engrenagem daquela que foi no início da década a melhor equipa à face da Terra.

Valdés não era espectacular, brilhante ou espalhafatoso, mas era o guarda-redes que Guardiola precisava: o primeiro elemento a iniciar o ataque, um número 1 com visão, jogo de pés e capacidade de passe e eficaz sempre que era chamado a intervir entre os postes. Durante quase 10 anos foi titular indiscutível na equipa, ganhou seis campeonatos e três Ligas dos Campeões e mesmo assim raramente era colocado entre os melhores do mundo.

Agora, tal como parecia ser o seu desejo em 2015, vai ser difícil encontrá-lo, embora o diário catalão “Mundo Deportivo” tenha revelado esta quinta-feira os planos futuros do agora antigo guardião de 35 anos, que tinha várias propostas para continuar a jogar, inclusivamente do Sporting, garante. Valdés vai tornar-se empresário, não de jogadores, mas sim na área do audiovisual: com outros dois sócios terá criado uma produtora de televisão que já estará a trabalhar num programa de entrevistas a futebolistas.